Saúde mental de adolescentes: um problema de todos nós

Um estudante de 15 anos acorda todos os dias achando que nada vai melhorar. Evita a família. Passa horas nas redes sociais comparando sua vida com imagens perfeitas. Não é um caso isolado. É a realidade de milhões de brasileiros.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e repercutida pela Agência Brasil, ouviu 118.099 estudantes em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o país. Entre jovens de 13 a 17 anos, três em cada dez afirmam sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo. Outros 42,9% relatam estar constantemente irritados, nervosos ou mal-humorados. E 18,5% declaram que a vida não vale a pena ser vivida.

Uma parcela semelhante relatou já ter tido vontade de se machucar de propósito. Ao mesmo tempo, apenas 34,1% dos estudantes têm acesso a profissionais de saúde mental no ambiente escolar, evidenciando uma lacuna grave no suporte psicológico institucional.

A esse cenário soma-se um traço marcante do tempo presente: estamos cada vez mais conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, mais distantes nas relações do cotidiano. O uso intenso de redes sociais e dispositivos móveis tem sido associado ao isolamento, à comparação constante e à exposição a padrões inalcançáveis, especialmente entre adolescentes.

Estudos recentes ajudam a compreender esse contexto. Em 2024, relatório do escritório regional europeu da Organização Mundial da Saúde apontou crescimento do uso problemático de redes sociais entre jovens, associado a prejuízos no bem-estar mental e na vida cotidiana. No mesmo sentido, a American Psychological Association alertou, em 2023, para os impactos do uso intensivo dessas plataformas sobre o desenvolvimento emocional e psicológico na adolescência.

Esses fatores não explicam sozinhos o quadro revelado pelo IBGE, mas ajudam a entender em que condições esse sofrimento aparece. Nesse ambiente, aumentam os sentimentos de inadequação, ansiedade e solidão, ao mesmo tempo em que se enfraquecem experiências importantes de convivência, escuta e construção coletiva.

Essa realidade se conecta a um cenário mais amplo de incertezas e tensões. Vivemos em um mundo atravessado por conflitos armados, crises econômicas recorrentes e desigualdades crescentes, acompanhado por uma sensação constante de falta de perspectiva. Esse contexto foi intensificado, nos últimos anos, pelos efeitos da pandemia de Covid-19, que interrompeu, em um momento decisivo de suas vidas, experiências de convivência, aprendizagem e desenvolvimento emocional.

Nesse contexto, é importante reconhecer que o sofrimento psíquico dos adolescentes está diretamente relacionado às condições em que vivem. Os jovens refletem esse cenário: relações instáveis, insegurança constante e vínculos cada vez mais frágeis. Ao mesmo tempo em que se cobra desempenho, adaptação e resiliência, oferecem-se condições cada vez mais precárias para sua formação e desenvolvimento. Isso mostra que não se trata apenas de um problema individual, mas de uma questão coletiva, que exige respostas concretas do poder público e a reconstrução de condições dignas de vida, educação e convivência.

Outro aspecto relevante diz respeito às relações familiares e comunitárias. Uma parcela significativa dos estudantes relata sentir que ninguém se preocupa com eles, enquanto muitos afirmam não se sentirem compreendidos por seus responsáveis. Soma-se a isso a presença de violência no ambiente doméstico, mostrando que esse sofrimento atravessa diferentes espaços da vida cotidiana.

A escola ocupa, nesse cenário, um lugar importante. Não apenas como espaço de aprendizado formal, mas como ambiente de convivência, socialização e construção de sentido. No entanto, as instituições de ensino ainda não estão preparadas para lidar com a complexidade dessas demandas. A ausência de equipes multiprofissionais, a sobrecarga de professoras e professores e a falta de políticas públicas integradas dificultam respostas efetivas.

Esse cenário também reforça a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à juventude para além da escola. Iniciativas nas áreas da cultura, do esporte, do lazer e da convivência comunitária são fundamentais para criar vínculos, desenvolver habilidades socioemocionais e ampliar perspectivas de futuro. Em um tempo em que formas de se relacionar, planejar o futuro e entender o mundo mudam rapidamente, a falta desses espaços tende a ampliar o desamparo e a insegurança.

Do ponto de vista da CONTEE, é importante afirmar que a saúde mental de adolescentes não pode ser tratada como responsabilidade individual ou restrita às famílias. Trata-se de uma questão pública, que exige compromisso do Estado, financiamento adequado e políticas estruturantes. A presença de psicólogos e assistentes sociais nas escolas, a valorização dos profissionais da educação e a construção de ambientes escolares acolhedores e democráticos são medidas indispensáveis.

Os dados do IBGE são claros: três em cada dez adolescentes sofrem. A pergunta não é se a sociedade deve agir, mas quando. E a resposta é: agora. Cuidar da saúde mental dos jovens é cuidar do futuro do Brasil.

Por Antônia Rangel

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