Saúde mental e luta de classes no trabalho contemporâneo
Organizar um novo sindicalismo pela base para enfrentar a destruição da saúde mental dos trabalhadores
O Brasil está diante de um fenômeno que ainda não foi plenamente compreendido politicamente. Dados sistematizados a partir dos registros administrativos do INSS e organizados pela iniciativa SmartLab – cooperação entre Ministério Público do Trabalho e Organização Internacional do Trabalho – mostram que os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais relacionados ao trabalho saltaram de pouco mais de 200 mil em 2022 para cerca de 472 mil em 2024. Um crescimento de aproximadamente 134% em apenas dois anos. A série histórica indica ainda que ansiedade generalizada, episódios depressivos e reações graves ao estresse passaram a figurar entre as principais causas de incapacidade laboral prolongada no país.
Não se trata de uma oscilação estatística, mas de uma transformação estrutural: a forma dominante de exploração do trabalho desloca-se progressivamente do desgaste físico para o desgaste psíquico.
Quando se observa o recorte por atividade econômica, o dado torna-se ainda mais revelador. O crescimento não ocorre prioritariamente em setores tradicionalmente associados ao risco físico, ele aparece com força justamente no setor financeiro. O trabalho bancário passa a ocupar posição central nos registros de adoecimento mental, apesar de não envolver exposição a agentes químicos, risco mecânico ou esforço físico intenso. A contradição aparente revela a essência do fenômeno: a organização do trabalho tornou-se o principal fator de risco ocupacional.
Nesse cenário, a Caixa Econômica Federal assume significado particular. Não se trata apenas de uma instituição financeira concorrente. Trata-se de um banco público responsável por executar políticas sociais estruturantes do Estado brasileiro – programas habitacionais, benefícios sociais, financiamento urbano e operacionalização de políticas de transferência de renda. O modo como o trabalho é organizado dentro da Caixa, portanto, não diz respeito apenas a uma decisão empresarial, mas a uma concepção de gestão pública.
Ao longo das últimas décadas consolidou-se um processo silencioso: a incorporação, dentro de empresas públicas estratégicas, de modelos gerenciais originados no setor bancário privado. Metas individualizadas, monitoramento informatizado permanente de desempenho, ranqueamentos internos, cobrança diária por resultados e pressão comercial contínua tornaram-se elementos estruturais do cotidiano laboral também no banco público. A empresa permanece estatal, mas o modelo de gestão aproxima-se progressivamente da racionalidade concorrencial dos bancos privados.
A distinção é decisiva.
Não se trata de privatização formal, mas de privatização organizacional.
Modelos concebidos para maximizar resultados financeiros não são neutros quando transplantados para instituições cuja finalidade é social. Surge então uma contradição objetiva: a instituição encarregada de executar políticas públicas de proteção social passa a organizar o trabalho internamente sob parâmetros que produzem sofrimento psíquico crescente entre seus próprios trabalhadores.
Esse processo vincula-se à forma contemporânea de governabilidade. Preservam-se formalmente empresas públicas estratégicas, mas admite-se internamente a difusão de métodos organizacionais de mercado como solução de eficiência administrativa. O custo dessa escolha começa a aparecer nos dados de saúde.
O trabalho bancário contemporâneo exige mobilização subjetiva intensa: controle emocional permanente, disponibilidade contínua, convencimento comercial e adaptação constante a metas variáveis monitoradas por sistemas informatizados.
A cobrança deixa de ser episódica e torna-se estrutural. O supervisor cobra menos; o sistema cobra o tempo todo. O trabalhador acompanha a própria performance em tempo real e internaliza a vigilância organizacional.
A psicodinâmica do trabalho ajuda a compreender o resultado. O trabalho é fonte de identidade social. O sofrimento psíquico surge quando há mobilização intensa de responsabilidade e inteligência sem reconhecimento coletivo correspondente. Metas progressivamente inalcançáveis convertem uma contradição organizacional em culpa individual. O trabalhador não percebe a estrutura; percebe-se como insuficiente.
Essa mudança produz também um efeito político profundo. O sofrimento deixa de aparecer como experiência coletiva evidente e passa a ser vivido isoladamente.
Cada trabalhador interpreta sua dor como incapacidade pessoal. A solidariedade enfraquece antes mesmo de qualquer enfrentamento aberto. A gestão contemporânea não precisa impedir formalmente a organização coletiva: basta reorganizar o trabalho de modo que a experiência cotidiana dissolva a percepção comum da exploração.
É aqui que se localiza o ponto cego do sindicalismo brasileiro.
Grande parte da tradição sindical foi estruturada para enfrentar formas externas e visíveis de exploração – jornada, salário, condições físicas de trabalho. Esses conflitos permanecem, mas coexistem agora com uma forma mais sofisticada de dominação: a gestão da subjetividade. A luta de classes não desapareceu; deslocou-se para dentro da organização concreta do trabalho – para as metas, os sistemas de avaliação, a competição interna e a individualização da performance.
O enfrentamento episódico torna-se insuficiente diante de uma exploração cotidiana e psicológica. O conflito decisivo não ocorre apenas nos momentos de mobilização coletiva; ocorre todos os dias, dentro das unidades de trabalho, nos indicadores de desempenho e na autocobrança permanente do trabalhador.
A categoria bancária expressa esse processo de forma aguda. A redução do número de empregados acompanhada do aumento de resultados institucionais revela intensificação do trabalho. Cada trabalhador absorve tarefas antes distribuídas coletivamente. O coletivo de trabalho, historicamente espaço de apoio e reconhecimento, fragmenta-se.
O efeito para o movimento sindical é profundo. O sindicato passa a ser percebido como entidade externa à experiência cotidiana do trabalho. Assembleias esvaziam-se, a participação diminui e a descrença cresce. Forma-se um círculo de enfraquecimento: trabalhadores afastam-se, a organização coletiva perde densidade e o modelo de gestão que produz adoecimento se fortalece.
O problema deixa então de ser apenas sanitário e torna-se histórico. A descrença coletiva passa a consolidar a vitória do modelo organizacional. O adoecimento aparece nos números, mas antes aparece nas vidas: carreiras interrompidas, famílias afetadas, identidades abaladas pelo sofrimento psíquico.
Diante disso, a alternativa histórica torna-se clara. Ou os trabalhadores retornam ao movimento sindical para reconstruí-lo a partir da base – incorporando a compreensão real do novo processo de exploração – ou consolida-se uma derrota silenciosa em que a própria classe trabalhadora contribui, sem perceber, para dissolver sua capacidade de resistência coletiva.
O enfrentamento do adoecimento mental no trabalho não depende apenas de normas ou decisões judiciais. Depende da reconstituição do coletivo. Reconstruir a organização nos locais concretos de trabalho – físicos, digitais ou híbridos – é condição para interromper o processo epidêmico de sofrimento psíquico.
Se essa reconstrução ocorrer, não será apenas a saúde dos trabalhadores que estará em jogo, mas a própria vitalidade democrática da sociedade. A história brasileira demonstra que, quando a classe trabalhadora reorganiza sua experiência comum, ela também reorganiza o horizonte político do país. Que este momento de crise possa ser também momento de retomada – e que ninguém volte a duvidar da força dos trabalhadores brasileiros quando decidem agir coletivamente.
Flaviano Cardoso é trabalhador bancário da Caixa Econômica Federal, atualmente afastado por síndrome de burnout e transtorno misto ansioso-depressivo. Realiza pesquisas independentes sobre saúde mental no trabalho e busca reconstruir sua trajetória como advogado humanista, escritor e ativista social.





