Saúde mental e trabalho na sociedade do cansaço

No contexto do Janeiro Branco, período dedicado à conscientização sobre a importância da saúde mental, a dica cultural da Contee para esta semana é o livro A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. A obra propõe uma reflexão crítica sobre as formas contemporâneas de adoecimento psíquico no contexto do capitalismo neoliberal, contribuindo para o diálogo sobre trabalho, produtividade e sofrimento mental.
O autor parte da constatação de que as sociedades disciplinares, marcadas por proibições, regras rígidas e coerções externas, foram progressivamente substituídas por uma sociedade do desempenho. Nesse modelo, o sujeito já não é oprimido prioritariamente por uma autoridade externa visível, mas se transforma em empreendedor de si mesmo, responsabilizando-se por maximizar sua produtividade e seu desempenho em todas as esferas da vida.
Esse deslocamento tem consequências para a saúde mental. Ao internalizar a lógica da performance, o indivíduo passa a se autoexplorar, acreditando que o fracasso, o cansaço e os limites são falhas pessoais, e não resultados de um sistema que exige disponibilidade permanente. Para Han, doenças como depressão, ansiedade e síndrome de burnout não devem ser compreendidas como anomalias individuais, mas como sintomas típicos de um modelo social que transforma a vida em um campo contínuo de exigência e avaliação.
No campo do trabalho, essa lógica se expressa por meio da intensificação das jornadas, da diluição das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de descanso e da naturalização da sobrecarga. Trabalhar mais, estar sempre disponível e responder rapidamente às demandas passam a ser vistos como virtudes. O descanso, o silêncio e a pausa, por outro lado, são frequentemente associados à improdutividade ou à falta de comprometimento. Nesse contexto, o cansaço deixa de ser um sinal legítimo de esgotamento e passa a ser vivenciado como culpa.
As reflexões de A Sociedade do Cansaço dialogam de maneira direta com a realidade das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação privada no Brasil. Profissionais do setor convivem cotidianamente com a intensificação do trabalho, o acúmulo de funções pedagógicas e administrativas, a pressão por resultados mensuráveis e a crescente precarização das relações contratuais. A lógica da performance se manifesta na exigência de cumprimento de metas, avaliações constantes, adaptação permanente a novas plataformas digitais e disponibilidade contínua para além do horário formal de trabalho.
Além disso, o trabalho na educação envolve uma dimensão emocional frequentemente invisibilizada. A gestão de conflitos, o cuidado com alunos e famílias, a mediação de tensões institucionais e a necessidade de manter uma postura emocionalmente equilibrada mesmo em condições adversas produzem um desgaste que raramente é reconhecido pelas instituições. Quando o adoecimento surge, ele costuma ser tratado como problema individual, desvinculado das condições objetivas de trabalho.
Ao nomear o cansaço como um fenômeno estrutural, Byung-Chul Han contribui para deslocar esse debate. O autor evidencia que a exaustão não é resultado de fragilidade pessoal, mas consequência direta de um modelo de organização social e produtiva que opera pela autoexploração. Essa leitura é importante para os trabalhadores e trabalhadoras da educação privada, pois fortalece a compreensão de que a defesa da saúde mental passa necessariamente pela luta por melhores condições de trabalho.
Trata-se de uma leitura provocadora, que auxilia na compreensão do adoecimento contemporâneo e reforça a importância da organização coletiva como caminho para enfrentar o esgotamento imposto pelo atual modelo de trabalho. Para as trabalhadoras e os trabalhadores da educação privada, A Sociedade do Cansaço ao explicar o mal-estar vivido cotidianamente, ajuda a nomeá-lo como parte de uma luta mais ampla por dignidade, saúde e condições justas de trabalho.
O livro pode ser encontrado em em formato impresso e digital nas principais livrarias.
A Sociedade do Cansaço
por Byung-Chul Han (Autor), Enio Paulo Giachini (Tradutor)
Editora: Vozes (2015)
Foto home: Agência Brasil
Por Antônia Rangel





