‘Vivemos uma época de fascismo do império’, avalia o escritor brasileiro Milton Hatoum

Milton Hatoum: ‘devemos conversar com os jovens sobre as eleições e a ameaça que seria se o Lula perdesse’

Após dois anos de genocídio da população palestina na Faixa de Gaza, promovido por Israel com o apoio dos Estados Unidos, e a ausência de respostas das instituições e das grandes potências, “tudo se torna possível”, na avaliação de Milton Hatoum. Para o escritor brasileiro que possui cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), é nesse contexto que se insere o recente ataque do imperialismo norte-americano à Venezuela.

“O genocídio continua. Já mataram mais de 500 palestinos após o suposto cessar-fogo. Tudo aconteceu e ninguém fez nada. Como em Gaza, aconteceu na Venezuela. Sabemos os motivos reais que levaram o governo norte-americano a sequestrar o presidente Maduro. Tudo é petróleo, assim como no Oriente Médio é o petróleo, o gás, a geopolítica e a expansão de Israel — um projeto que quem conhece um pouco de história já sabe”, analisou, em entrevista ao Conversa Bem Viver.

Hatoum lançou recentemente o livro Dança dos Enganos, terceiro volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio, série de livros que trata sobre o período da ditadura militar no Brasil. O escritor também é reconhecido por suas contribuições ao debate ambiental, em especial sobre a Amazônia brasileira.

Passados poucos meses desde a realização da 30ª Conferência das Partes (COP 30) em Belém, ele destaca que a necessidade de proteger o território amazônico não está dissociada das questões geopolíticas globais e enfatiza a importância de a população brasileira eleger um governante comprometido com esse tema nas eleições presidenciais deste ano.

“Tudo é possível pela força do império e das armas quando o direito internacional é desprezado, como foi em relação a Gaza. Vivemos uma época de fascismo do império. O que impediria amanhã uma potência imperial de achar que uma parte da Amazônia lhe pertence por causa das águas ou minérios? Devemos conversar com os jovens sobre as eleições no Brasil e a ameaça que seria se o Lula perdesse”, chama a atenção.

Leia a entrevista completa:

Brasil de Fato – Como a sensação de terminar a escrita de uma trilogia?

Milton Hatoum – Quando você termina um romance que demorou tanto, você se sente um pouco esvaziado, mas, ao mesmo tempo, já se prepara para uma nova viagem imaginária. Eu já estava esboçando, já tinha, na verdade, um outro romance em vista. Fiz, aliás, uma versão muito preliminar desse novo romance, que tem alguns pontos de contato com essa trilogia. Mas eu ainda vou ter que reescrever e revisar. Isso vai levar algum tempo.

A trilogia foi um projeto da minha juventude que foi adiado por mais de três décadas. Eu queria narrar ficcionalmente, a partir da minha experiência durante a ditadura, a vida desses jovens da minha geração — ou de parte deles, porque nem todos os jovens da minha geração lutaram contra a ditadura. Ao contrário, muitos a apoiaram ou eram indiferentes a qualquer questão política.

Demorei a arquitetar esse livro, que era um pouco ambicioso sem ser pretensioso. Quando terminei Cinzas do Norte, que é uma espécie de “primo” da trilogia, comecei a pensar nesse grande afresco, nesse romance de formação. Conversei com muitos amigos e amigas, pessoas da minha geração, e revisitei Brasília várias vezes.

Eu não ia a Brasília desde que saí de lá, em 1970 ou 1971. Só voltei 30 anos depois. Lá reencontrei algumas pessoas, todas já idosas como eu, mas que estavam firmes e tinham lembranças muito fortes. Também reencontrei amigos de São Paulo que conviveram comigo na USP, nas repúblicas da Vila Madalena.

Foi um processo de escavação da memória e de revisitação daqueles lugares para inventar uma outra história, com suas contradições, impasses e sonhos. O último volume saiu agora e demorou porque, a cada volume, eu revisava o anterior. Revisei o primeiro, publiquei. Antes de publicar o segundo, também reescrevi muitas coisas. E o terceiro foi o mais trabalhoso.

Isso ocorreu também por conta da epidemia e do governo anterior, que nos tirou do prumo e foi uma ameaça real à democracia brasileira conquistada a muito custo. Muita gente deu a vida naquela época contra a ditadura.

Tive questões técnicas, pois esse terceiro volume é muito diferente dos outros. É uma virada do ponto de vista da narração: há um livro escrito por uma mulher, pela mãe do personagem principal, e agora ela conta a sua história e ouve outras histórias que acrescenta às suas memórias.

Recentemente, em entrevista ao Roda Viva, o senhor falou que não esperava que o autoritarismo voltaria ao Brasil, fazendo uma referência entre a ditadura militar e o governo de Jair Bolsonaro. Estamos falando nestes primeiros dias do ano sobre o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela. Isso também te surpreendeu?

Sobre a eleição do governo anterior, eu realmente não esperava. Acho que pouca gente esperava. Não sou um adivinho. Machado de Assis brinca com isso em Esaú e Jacó, quando a mãe dos gêmeos Pedro e Paulo — um monarquista e o outro republicano — consulta uma adivinha que diz: “eles serão grandiosos, coisas futuras”. Nós não temos esse poder e, realmente, eu achava que isso não ia acontecer.

Apesar de tudo o que vimos do governo dos Estados Unidos no seu primeiro mandato, também não tínhamos muita convicção de que isso poderia acontecer. Mas acho que agora tudo pode acontecer. Se pensarmos bem, depois de mais de dois anos de um massacre, de um genocídio em Gaza, em que nenhuma potência europeia, asiática ou árabe intercedeu para parar esse genocídio, tudo se torna possível.

O genocídio continua. Já mataram mais de 500 palestinos após o suposto cessar-fogo. Estão invadindo propriedades na Cisjordânia e li que querem destruir um campo de futebol, o único espaço de lazer e respiro para as crianças em um campo de refugiados naquele inferno. Depois disso, tudo aconteceu e ninguém fez nada.

Como em Gaza, aconteceu na Venezuela. Não estou defendendo o regime de Maduro. Podemos supor que haja um governo autoritário ou que as eleições foram fraudadas, mas isso não permite que um país invada o outro e sequestre o seu presidente. Isso é óbvio. Sabemos os motivos reais que levaram o governo norte-americano a sequestrar o presidente Maduro: tudo é petróleo.

Assim como no Oriente Médio é o petróleo, o gás, a geopolítica e a expansão de Israel — um projeto que quem conhece um pouco de história já sabe. Há uma carta de um personagem chamado Nortista, de Manaus, no fim do segundo volume da trilogia. Ele escreve para o Martim, que está exilado na França. A carta é de 12 de março de 1980. A anistia geral para os combatentes e algozes da ditadura é de agosto de 1979. O Nortista diz:

“Muitos exilados e expatriados já estão por aqui. Os movimentos grevistas continuam, os trabalhadores foram reprimidos, vários líderes presos, demissões em massa. Eis a prometida abertura política do general presidente, uma cavalgadura tosca das mais vulgares. Os milicos e civis golpistas estão enfraquecidos. Um dia vão cair fora e depois os saudosistas da infâmia vão dar outro bote com a cumplicidade do irmão poderoso do Norte. A cada 20 ou 30 anos Moloch troca de máscara, mas mantém a cabeça de ganância e crueldade e o mesmo ventre que devora crianças. Serão novos tempos de errância, pesadelos em plena vigília, desonra do corpo e da mente. Ainda assim, há esperança, amargura e euforia, tudo misturado. O eterno ditirambo do Brasil: violência, sofrimento, risadas, promessas e posturas.”

Ele escreve em 1980 prevendo que a cada 20 ou 30 anos esse ciclo do império do Norte volta, às vezes com mais força. Algo semelhante aparece em Dança dos Enganos na voz de uma salvadorenha, Justina Anaya. O companheiro dela quer que ela vá para o Brasil, mas ela se recusa porque não quer ser clandestina de novo em uma ditadura. Ele diz que a ditadura está agonizante, e ela replica: “Sim, mas esses monstros não morrem; eles renascem e voltam com força”.

Assim como em O Agente Secreto, filme que está concorrendo ao Oscar e recebeu o Golden Globes, com o protagonista Marcelo, em Dança dos Enganos, a protagonista, Lina, não é uma militante, mas sofre as violências da ditadura. Você chegou a fazer essa comparação?

Sim, eu pensei nessa situação. Eu mesmo não militava em nenhum partido ou organização clandestina. Nunca fui militante partidário. Mas bastava estar nas ruas, em uma passeata ou distribuindo um panfleto.

Muitas pessoas que não estavam envolvidas diretamente no combate à ditadura foram presas, e algumas até morreram. Eles perseguiam com mais afinco os envolvidos diretamente, mas muita gente que estava apenas protestando também foi vítima.

Você também traz diversas discussões a respeito da Amazônia. Como você avaliou a COP 30?

Acho que a presença de milhares de indígenas em Belém foi fundamental e inédita. Não sei quais serão as consequências efetivas dessa COP, mas o importante é que muitos jovens estão envolvidos na luta contra as mudanças climáticas. Ter uma COP na Amazônia foi simbolicamente importantíssimo. Precisamos apostar na consciência planetária e no envolvimento dos jovens, pois é a própria sobrevivência deles daqui a 30 ou 50 anos que está em jogo.

Não sei qual será o lado prático das decisões, já que os Estados Unidos se recusaram oficialmente a participar e são os maiores poluidores do mundo. Mas os governos mudam. Haverá eleições este ano nos Estados Unidos e o Congresso será renovado. Se o atual governo não tiver maioria na Câmara e no Senado, será difícil implementar políticas desastrosas.

Porém, vivemos um mundo estranho onde invadiram a Venezuela sem a anuência do Congresso. Tudo é possível pela força do império e das armas quando o direito internacional é desprezado, como foi em relação a Gaza.

Vivemos uma época de fascismo do império, extremamente perigoso. O que impediria amanhã uma potência imperial de achar que uma parte da Amazônia lhe pertence por causa das águas ou minérios? O exército brasileiro não tem força para impedir. A China e a Rússia têm, mas o Brasil e a Europa, não. Vemos até a Groenlândia sendo ameaçada de anexação.

Nossa atuação é limitada, “de formiguinha”, mas devemos conversar com os jovens sobre as eleições no Brasil, explicando de maneira didática e sem arrogância a ameaça que seria se o Lula perdesse estas eleições. Seria um desastre irreversível para o povo e para a Amazônia, que já tinha um projeto explícito de destruição. Podemos apenas dar a nossa voz, que é um volume baixo e limitado, para as pessoas desinformadas.

Fonte
Brasil de Fato

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