Sinpro Caxias: Vandalismo cultural: que nunca mais aconteça!
“O patrimônio histórico material e imaterial do Brasil foi barbaramente atacado e em parte destruído neste dia 8 de janeiro em Brasília, como é de amplo conhecimento público”, afirmou Margareth Menezes, ministra da Cultura ao veículo de comunicação Metrópoles
.

A ministra estuda criar um memorial sobre a invasão e depredação praticada ao patrimônio público para marcar o fato com o objetivo de que nunca mais aconteça violência semelhante.
O Ministério da Cultura acionou técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para fazer o levantamento e identificação dos danos ao Patrimônio Cultural e conta com o Iphan e com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) para fazer a restauração. A Unesco, universidades e uma série de outras instituições se colocaram à disposição para ajudar.
Da barbárie a um novo rumo
O domingo de 8 de janeiro de 2023 não será esquecido. Nesse dia, manifestações antidemocráticas e golpistas tomaram a sede dos três poderes, em Brasília, invadindo e depredando as instalações e danificando obras de arte e prédios tombados em ação sem precedentes na história do Brasil.
Consultada pelo Sinpro/Caxias, a professora e pesquisadora Silvana Boone, doutora em Artes Visuais e coordenadora do curso de Artes Visuais na Universidade de Caxias do Sul (UCS) classificou as ações como “atos bárbaros” e destacou o valor da arte para a sociedade:

“O termo ‘bárbaro’ pode significar várias coisas: não-civilizado, selvagem, irracional, cruel, desumano, feroz, enfim, outras tantas palavras que vêm carregadas de significados negativos. Atos bárbaros promovidos por cidadãos que, passam longe de ser do bem, traduzem o que significou a ‘barbárie’ que resultou na depredação de prédios públicos idealizados pelo arquiteto Oscar Niemeyer, mobília, objetos e obras de arte, como a tela de Di Cavalcanti, a escultura de Victor Brecheret ou o painel de Athos Bulcão, apenas para citar minimamente o grande estrago artístico e patrimonial.
A arte é manifestação genuína de um povo e o seu reconhecimento histórico atribui valor que vai muito além de cifras monetárias. Manifesta-se a revolta por parte de quem tem na arte e no senso de coletividade as estruturas para uma sociedade desenvolvida. Essa depredação fere os valores morais sobre o que entendemos por pátria ou nação. O patrimônio cultural e artístico de um povo pertence ao povo. Se não há o respeito pela história, pela cultura e pela arte de um povo, perde-se a essência, não sobra nada.
Há que se pensar que a educação deve ser a base que sustenta os valores humanos e segue sendo fundamental – para qualquer governo e crescimento de um país -, que a arte, a cultura, a história e a identidade de um povo sejam resguardadas, preservadas e mantidas como patrimônio da construção humana.”
A coordenadora de comunicação do Sinpro/Caxias, professora Liliane Viero, Mestre em Educação e especialista em Gestão Cultural, evocou o desmonte institucional do setor cultural no governo Bolsonaro e a urgência de medidas a partir dos fatos de 8 de janeiro:

“A relação entre cultura e história implica o reconhecimento da historicidade da existência humana, cujos valores decorrem de apreensões de caráter cultural que não decorrem da natureza das coisas, mas sim de valores atribuídos no intuito de compreender o mundo. A arte é a forma de linguagem que nos permite entender e perceber a historicidade.
No ano de 2022 completamos 100 anos da semana de arte moderna, um movimento identitário no cenário artístico cultural social e político do Brasil. Infelizmente passamos este centenário sem um ministério da cultura. Embora comemorações e reconhecimentos tenham acontecido, poderiam ter sido amplamente comemorados no país. Pois afinal tratava-se de 100 anos da semana que trouxe uma nova cara para a arte brasileira.
Só que não; pois nestes últimos anos a arte, os artistas, a cultura brasileira tentou ser transformada, apagada, difamada. Como se estudar arte, criar, produzir artesanalmente, produzir simbolicamente não tivesse serventia. Como isso; se é o que fica na história cultural de um povo.
Sem citar o setor da economia criativa que gera mais de 850 mil empregos formais e a sua importância no PIB nacional.
Enfim, o fato ocorrido em Brasília torna ainda mais necessária e urgente a recriação do Ministério da Cultura e a retomada, pelo MEC, de rumos para a educação brasileira no sentido da compreensão e valorização do coletivo, do público, da democracia e da cultura. Ao mesmo tempo, reforça a importância das organizações sociais, como os sindicatos, para atuação conjunta por um país mais sereno e civilizado, com respeito aos direitos e à diversidade.
Como professora de Artes, analista e crítica cultural e especialista em gestão cultural, fiquei estarrecida e muito indignada. Recente pesquisa do Datafolha mostra que 93% da população reprova os atos golpistas cometidos em Brasília. Não é isso que queremos para o futuro. O nosso trabalho como professores precisa ajudar a fortalecer a democracia.”
Fortalecer a educação para a cidadania
Inúmeras organizações de educação manifestaram-se sobre os fatos, em defesa da democracia e em repúdio ao vandalismo. O Sinpro/Caxias também emitiu uma nota afirmando que “desde o seu surgimento, em 1986, na abertura política após a ditadura militar, o sindicato sempre defendeu a democracia, unindo-se às entidades estaduais e nacionais organizativas do movimento sindical para zelar por esse objetivo”. Leia a nota do Sinpro/Caxias na íntegra aqui.
Em sua manifestação pública, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação destacou a necessidade de fortalecer a educação para a cidadania, e fortalecer as instituições democráticas. Já as associações das áreas de artes exigem punição com todo rigor aos culpados pela depredação.
Perda inestimável
Veja alguns patrimônios danificados e entenda mais:

“As Mulatas”, de Di Cavalcanti, 1962 – Uma das obras mais importantes de um dos mais ilustres representantes do modernismo brasileiro, avaliada em mais de R$ 10 milhões, apresenta sete rasgos na tela.

“O Flautista”, de Bruno Giorgi, década de 50 – Giorgi é o autor de outras obras muito conhecidas instaladas em palácios públicos em Brasília, como Meteoro, no Itamaraty, e Os Candangos, na Praça dos Três Poderes. Avaliada em R$ 250 mil, foi totalmente destruída.
Relógio de Balthazar Martinot, relojoeiro de Luis XIV. Presente da corte francesa a Dom João VI. O valor da peça é incalculável. Existem apenas dois relógios deste autor. O outro está exposto no Palácio de Versailles, mas possui a metade do tamanho da peça que foi completamente destruída pelos invasores do Planalto.

Escultura de parede em madeira de Frans Krajcberg, avaliada em R$ 300 mil. A obra se utiliza de galhos de madeira, que foram quebrados e jogados longe.

“Bandeira do Brasil”, Jorge Eduardo, 1995 – A pintura de reproduz a bandeira nacional hasteada diante do Planalto, foi encontrada boiando na água que inundou o local durante os atos terroristas.

Mesa de trabalho do ex-presidente Juscelino Kubitscheck foi usada como barricada pelos terroristas.

Mesa-vitrine de Sérgio Rodrigues: móvel abriga as informações do presidente em exercício e teve o vidro quebrado.

Estátua “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti, 1961. Foi pichada pelos golpistas. O artista mineiro Ceschiatti é o criador de várias obras presentes em prédios públicos de Brasília, como “As Iaras”, escultura de bronze do Palácio da Alvorada também chamada de “As banhistas”. Além de obras em Brasília, Alfredo Ceschiatti desenvolveu, a pedido de Oscar Niemeyer, o baixo-relevo da Igreja da Pampulha e também “O Abraço”, escultura de duas mulheres abraçadas, em 1943.
Fotos:
Ministra Margareth Menezes – Valter Campanato/Agência Brasil
Silvana Boone – Edson Correa
Liliane Viero – Arquivo pessoal
“As Mulatas” – Fabio Pozzebom / Agência Brasil)
“O Flautista” – Beto Barata/Presidência da República
Relógio de Balthazar Martinot – Reprodução
Escultura de Frans Krajcberg – Reprodução BBC
“Bandeira do Brasil” – Reprodução
Mesa de Juscelino Kubitscheck – Divulgação Presidência da República
Mesa-vitrine de Sérgio Rodrigues – Reprodução internet
“A Justiça” – Wikipedia
Publicado por Assessoria de Comunicação do Sinpro/Caxias em 13/01/2023





