Soberania violada e o preço pago pelos trabalhadores e trabalhadoras

Por Cristina Castro*

De repente, a chamada defesa da democracia passa a se apresentar sob a forma de armas, invasões e violações explícitas do direito internacional. Mas que democracia é essa? Sobre qual soberania estamos falando quando um país se arroga o direito de invadir outro, romper tratados, ignorar normas internacionais, prender o presidente de uma nação, levá-lo à força para fora de seu território e submetê-lo a julgamento em solo estrangeiro?

Que leis internacionais autorizam esse tipo de prática?

Que direitos são esses que valem apenas para alguns?

Não há justificativa possível. Nem acusações de narcotráfico, nem denúncias seletivas de violações de direitos humanos, nem discursos moralizantes construídos a posteriori autorizam a quebra da soberania de um país. Quando há ataque sem possibilidade de defesa, quando inexiste devido processo legal e quando a força se impõe de forma unilateral, estamos diante da negação do próprio direito internacional. E quando essa violência é relativizada ou normalizada, o que se consolida é a barbárie como método.

É preciso afirmar com clareza: quem paga o preço mais alto de qualquer invasão, de qualquer conflito armado ou de qualquer sanção econômica nunca são os governos ou as elites. São os trabalhadores e as trabalhadoras. São os povos.

Em todos os conflitos, são os serviços públicos que entram em colapso, os salários que desaparecem, os empregos que se perdem, os direitos que são suspensos e a insegurança que se instala. A guerra, a ocupação e o bloqueio atingem diretamente quem vive do trabalho, quem depende da escola pública, do sistema de saúde, do transporte e da proteção social. É sempre a classe trabalhadora que sente primeiro e sente mais.

Dentro desse cenário, as mulheres e as crianças são as principais vítimas. Mulheres submetidas ao aumento da violência, à insegurança alimentar, à sobrecarga do trabalho não remunerado e à precarização extrema da vida. Crianças privadas de escola, de alimentação adequada, de cuidado e de futuro. Nenhum conflito armado ou a ameaça dele, deixa de produzir impactos profundos e duradouros sobre mulheres e crianças.

Por isso, defender a soberania de um país não é uma abstração geopolítica. É defender condições materiais de vida para seu povo. É defender o direito dos trabalhadores e trabalhadoras de viverem sem medo, de se organizarem, de lutarem por direitos e de construírem seu próprio projeto de desenvolvimento. Não existe democracia possível quando a sobrevivência cotidiana está sob ameaça.

O que torna esse cenário ainda mais grave é a tentativa de naturalizar a invasão, o sequestro de dirigentes políticos e a ocupação de países sob o argumento da “defesa da democracia”. E, quando essa violência é questionada, busca-se reduzir o debate a uma disputa ideológica, como se denunciar a violação da soberania fosse “coisa de esquerda”.

Mas é fundamental desmascarar o falso discurso. Por trás das acusações de narcotráfico, da narrativa do “ditador” ou da suposta defesa dos direitos humanos, o interesse central é econômico. É o controle do petróleo, da energia, dos recursos naturais estratégicos. É a permanência de uma lógica colonial que trata a América Latina como quintal, como espaço subordinado, como território disponível à exploração externa.

Essa lógica atravessa a história do nosso continente. Explica golpes, ditaduras, intervenções, bloqueios e tutelas impostas aos nossos países. O discurso se renova, mas o objetivo permanece o mesmo: controlar riquezas, submeter economias e impedir projetos soberanos de desenvolvimento.

A América Latina conhece profundamente essa lógica de dominação. Nosso continente foi marcado por autoritarismo, repressão aos trabalhadores e trabalhadoras, perseguição aos sindicatos e aprofundamento das desigualdades. Ainda assim, resistimos. Resistiram os povos originários, resistiram os povos negros, resistiram os trabalhadores e trabalhadoras organizados, resistiram as mulheres, a juventude, os educadores e as educadoras.

Nada nos foi dado. Cada direito foi conquistado com luta.

É exatamente sobre tempos como estes que nos alertava Bertolt Brecht em seu poema “É preciso agir”. Brecht nos lembra que compreender a injustiça não basta. A omissão favorece sempre quem oprime. O silêncio nunca é neutro.

Se aceitarmos que discursos falsamente democráticos continuem mascarando interesses econômicos e geopolíticos, estaremos aceitando que trabalhadores e trabalhadoras, mulheres e crianças sigam sendo tratados como danos colaterais de uma ordem internacional injusta.

Isso não pode ser naturalizado.

Isso precisa ser denunciado.

Defender a soberania dos povos é defender a vida concreta de quem trabalha, de quem cuida, de quem educa e de quem precisa viver.

Não há democracia sem soberania.

Não há direitos humanos sob invasão.

E não há neutralidade possível diante da injustiça.

Diante disso tudo, não basta só indignar-se.

Como nos ensinou Brecht, é preciso agir.

Ontem Iraque e tantos outros, hoje a Venezuela. E amanhã?

 *Cristina Castro é Coordenadora da Secretaria de Relações Internacionais da Contee

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