Power point da Globo sobre caso Master gera indignação e obriga canal a se desculpar
Na sexta (20), programa da GloboNews exibiu uma apresentação colocando Lula e o PT com supostas relações com o banco e Vorcaro. Repercussão negativa gerou retratação neste segunda
No ano em que o Brasil, mais uma vez, passará por uma disputa presidencial determinante para futuro do país e da democracia, a Globo resolveu, novamente, usar Lula e o PT como alvos de ilações maliciosas — dessa vez envolvendo o caso Master.
A mais recente investida, via GloboNews, foi ressuscitar o famigerado esquema de Power Point — que ficou famoso pelas mão de Deltan Dallagnol na Lava Jato —, para demonstrar como seria a rede de influência do banqueiro Daniel Vorcaro.
Na sexta-feira (20), durante o programa Estúdio i, o canal colocou Lula e o PT com destaque no centro da trama, mesmo sabendo não haver nas investigações elementos que liguem o presidente e o partido a relações promíscuas com o banqueiro e o Master e mesmo tendo conhecimento de que foram nomes da direita e da extrema direita que se refastelaram no esquema.
Além disso, não mostrou figuras proeminentes da extrema direita, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) que, juntos, receberam R$ 5 milhões em doações de Fabiano Zettel, cunhado e braço direito de Vorcaro, na campanha de 2022.
Nem mesmo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha — que tanto se empenhou para que o Banco Regional de Brasília (BRB) comprasse o Master e amargasse suas dívidas — apareceria no material.
A apresentação também não trazia o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, cuja gestão autorizou o funcionamento do banco e fez vista grossa para as fraudes do Master. Somente sob a presidência de Gabriel Galípolo o banco foi finalmente liquidado e a Polícia Federal, sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passou a investigar o caso.
Lula aparece na apresentação da Globo News em posição superior à de nomes como os do senador Ciro Nogueira (PP-PI), de Antônio Rueda, presidente do União Brasil; do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre outros igualmente encalacrados com Vorcaro, segundo as investigações.
Apenas para citar os mais notórios: Ciro Nogueira era tratado como “amigo de vida” do banqueiro e tentou emplacar, no Senado, a “Emenda Master”, proposta comemorada por Vorcaro em mensagens, que visava aumentar o valor da garantia disponibilizado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para bancos médios, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, o que beneficiaria diretamente o Master.
No caso de Rueda, ele e sua irmã, Maria Emília, advogaram pessoalmente para o banco de Vorcaro — assim como Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Conforme as investigações, o dirigente partidário teria, ainda, tentado intermediar a venda do Master para o BRB.
Já no que diz respeito a Lula e ao PT, conforme apurado, o presidente recebeu Vorcaro uma vez, para uma reunião em dezembro de 2024, na qual Lula teria afirmado que questões relativas aos bancos seriam tratadas e investigadas tecnicamente.
Ao colocar o presidente e o PT em posição de destaque, a apresentação claramente tenta indicar uma inverídica proeminência de ambos no esquema.
No mesmo dia, sem citar diretamente a Globo, o presidente Lula declarou: “Vira e mexe eles estão tentando empurrar para as costas do PT e do governo esse banco Master. Esse banco Master é o ‘ovo da serpente’ do Bolsonaro e do Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. E nós não deixaremos pedra sobre pedra, para a gente apurar tudo o que fizeram, dando um rombo de R$ 50 bilhões neste país. Se a gente não tomar cuidado, eles vão tentar dizer que somos nós”.
O presidente prosseguiu dizendo que “esse banco nasceu em 2019. No começo do ano, o então ex-presidente do BC, o Ilan [Goldfajn] negou o reconhecimento do banco Master. Quem reconheceu, em setembro de 2019, foi o Roberto Campos Neto e todas as falcatruas foram feitas por ele”.
Repercussão
A apresentação teve forte repercussão no meio político e até mesmo entre jornalistas que já foram da própria Rede Globo.
Na avaliação da líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), “essa tentativa sórdida de empurrar o escândalo para o colo da esquerda não resiste aos fatos. O caso tem digitais claras, ligações conhecidas e raízes em setores que hoje tentam reescrever a história para escapar da responsabilidade. É a velha tática da extrema direita: criar cortina de fumaça, inverter culpados e apostar na desinformação”.
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) também reagiu: “O presidente Lula não tem nada a ver com o Vorcaro. Ele se reuniu com ele uma vez e o presidente pediu ao (Gabriel) Galípolo, atual presidente do Banco Central, que fizesse uma análise técnica. Resultado: o Galípolo mandou fechar o Banco Master, liquidou, porque estava cheio de roubalheira que veio do governo Bolsonaro”.
Além de classificar o ocorrido como “muito grave”, o deputado e ex-ministro Paulo Pimenta (PT-RS) apontou: “Não aparece o Bolsonaro, não aparece o Campos Neto, ex-presidente do Banco Central e figura-chave no Caso Master, não aparece o Tarcísio. O cunhado do Vorcaro, Fabiano Zettel, era o operador financeiro do esquema do Bolso-Master. As duas campanhas que mais receberam dinheiro dele na última eleição foram as campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio”, completou Paulo Pimenta.
A jornalista Neide Duarte, que durante anos atuou na Rede Globo, classificou a sexta-feira como “Dia da Vergonha” e destacou, via redes sociais: “Acredito que a editoria que mandou fazer essa cartolina esqueceu vários nomes principais dessa história. Por exemplo, Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, foi na época dele que tudo começou; Tarcísio de Freitas, que recebeu 2 milhões de reais de Vorcaro; Jair Bolsonaro, que recebeu 3 milhões de reais de Vorcaro; Ibaneis Rocha, governador de Brasília, que quis comprar o Banco Master através do Banco de Brasília para salvar Vorcaro; Claudio Castro, governador do Rio, que investiu bilhões do fundo de previdência dos funcionários públicos do Rio em papéis podres do Master”.
Nos comentários à mensagem de Neide, o também ex-repórter da Globo por 34 anos, Ari Peixoto, disse que a rede foi mudando ao longo dos anos e que “o que era para ser uma emissora de televisão se tonou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos de esquerda”. Ele concluiu dizendo: “Preparem-se. Cenas como esta, aliadas à IA, serão muito comuns até outubro. O power point da lava a jato vai parecer desenho de criança do jardim de infância”.
Sadi pede desculpas
O impacto da repercussão negativa fez com que a jornalista Andreia Sadi, âncora do programa Estúdio i, pedisse desculpas na edição desta segunda-feira (23). Ela se referiu à apresentação como “incompleta” e acrescentou que a mesma “também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”.
Disse, ainda, que “esse conteúdo acabou misturando contatos institucionais com nomes que Vorcaro menciona como tendo relação contratual ou pessoal, além de outros nomes sob análise da PF ou que, à luz das informações apuradas até aqui, podem ser classificados como não-republicanos”.
Por fim, declarou: “Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais a gente pede desculpas”.
Por Priscila Lobregatte





