“A Menina que Roubava Livros”

A dica cultural desta semana é o filme A Menina que Roubava Livros, lançado em 2013 e dirigido por Brian Percival. O longa é uma adaptação do best-seller de Markus Zusak e, embora se passe em um dos períodos mais sombrios da história, entrega uma narrativa cheia de humanidade. É o tipo de produção que continua vibrando dentro da gente por dias, um convite à reflexão sobre como mantemos nossa essência intacta em meio ao caos.

O filme se destaca pela escolha de seu narrador: a própria Morte, apresentada como uma observadora reflexiva. Em um momento do filme, ela diz: “no meu ofício sempre vejo o que os humanos têm de melhor e de pior, vejo sua feiúra e beleza, e me pergunto como a mesma coisa pode ser as duas.” Essa perspectiva estabelece o tom da obra, que ao retratar o horror da guerra fala sobre a complexidade da alma humana diante da finitude.

A protagonista, Liesel Meminger, interpretada por Sophie Nélisse, é enviada para viver com pais adotivos em uma pequena cidade alemã. Hans Hubermann, vivido por Geoffrey Rush, é descrito como um homem com o coração de acordeon, cuja bondade transparece em cada gesto de acolhimento. Já Rosa, papel de Emily Watson, surge como uma mulher vestida de trovão, porém humana em sua aspereza protetora.

Chegando à nova casa sem saber ler nem escrever, Liesel encontra em Hans um pai e um professor. No porão, ele transforma as paredes em um dicionário gigante, onde cada palavra nova é registrada. A educação aparece como um ato de construção de identidade em um mundo que tenta desumanizar o indivíduo. Para os trabalhadores da educação, essa figura ressoa com força particular: o filme lembra que ensinar é, antes de qualquer coisa, um ato de resistência e de cuidado.

A chegada do jovem judeu Max Vandenburg ao porão dos Hubermann traz uma das cenas que ficam na memória: ele presenteia Liesel com um caderno feito por ele mesmo, pintando as páginas de um exemplar do Mein Kampf de branco e sobrepondo a ideologia do opressor com espaço para a criação individual. No caderno, apenas a dedicatória e uma palavra: escreva. O compartilhamento de narrativas é apresentado como o que nos mantém verdadeiramente humanos, uma forma de resistência que a guerra não consegue destruir.

Na vizinhança, a figura de Rudy Steiner, o melhor amigo de Liesel, complementa essa visão. Rudy representa a infância que se recusa a ser totalmente doutrinada. Sua admiração pelo atleta Jesse Owens, que o leva a pintar o corpo de carvão para correr como seu ídolo, é um ato de rebeldia inocente contra o preconceito racial do regime. A amizade entre Liesel e Rudy é o contraponto solar à escuridão do porão, mostrando que a lealdade e o companheirismo são as defesas mais eficazes contra o medo constante.

Geoffrey Rush entrega uma atuação marcante. Seu Hans Hubermann é o pai que ensina pelo exemplo, pelo afeto e pela integridade, aquele que nos faz acreditar na bondade humana mesmo quando o mundo parece desmoronar ao redor. Emily Watson constrói Rosa com camadas que o roteiro não explicita: a dureza da personagem vai cedendo espaço ao afeto sem que a atriz precise anunciar essa mudança. A trilha sonora de John Williams e a fotografia em tons sóbrios completam o quadro de uma Alemanha dominada pelo ódio, reservando a cor para os momentos de respiro.

A trajetória de Liesel nos mostra que, mesmo com a Morte presente, a vida persiste através das histórias que contamos e das palavras que nos atrevemos a ensinar. Vale muito assistir.

Onde assistir: O filme está disponível no Disney+, Prime Video e Apple TV, e pode ser alugado ou comprado no Google Play

Por Antônia Rangel

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