Exposição virtual “Os Primeiros Brasileiros”: a memória que o fogo não consumiu
A dica cultural desta semana é a exposição virtual “Os Primeiros Brasileiros”, organizada pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro sob a curadoria do antropólogo João Pacheco de Oliveira. A mostra reúne fotografias, músicas, vídeos e peças etnográficas que percorrem a história e a cultura dos povos originários do Brasil, com destaque para comunidades da costa atlântica e dos sertões do São Francisco.
A exposição se organiza em quatro contextos: o primeiro encontro, a armadilha da colonização, o mundo dos povos indígenas e as formas contemporâneas de cidadania. As imagens ocupam lugar central – funcionam como gatilhos de sentido, enquanto os textos operam como referência e aprofundamento. A narrativa, no entanto, não vem pronta: cabe ao visitante tecê-la, associando imagens, textos e trilha sonora. É um convite à construção de uma leitura própria, capaz de provocar novas questões, emoções e perspectivas sobre os povos indígenas e seu lugar na história e no Brasil de hoje – nas palavras do curador.
O acervo da exposição é composto por registros que não foram atingidos pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional em 2 de setembro de 2018, data que marcou uma das maiores perdas culturais da história do país. Naquele momento, a exposição ocupava o Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. Ao reunir artefatos etnográficos, fotografias históricas e contemporâneas e registros sonoros que capturam a diversidade linguística e musical de dezenas de etnias, a mostra enfrenta o apagamento da contribuição dos povos originários para a formação do que somos hoje enquanto brasileiros, funcionando como um contraponto à história oficial que durante séculos silenciou essas vozes.
O curador João Pacheco de Oliveira é direto ao nomear o problema que a exposição enfrenta: a tendência de retratar os povos originários como pertencentes exclusivamente ao passado, associados a uma condição primitiva e inferior. “Os povos indígenas nunca foram primitivos”, afirma. Para ele, essa crença não é ingênua, é alimentada pelos interesses de quem lhes impôs dominação ou ainda hoje quer mantê-los sob tutela, apagando seu protagonismo.
Para o curador, a exposição propõe uma inversão necessária: em vez de tratar os povos originários como objeto passivo da história, é preciso reconhecê-los como criadores de cultura, portadores de conhecimentos e memórias específicas e valiosas, que construíram suas identidades em diálogo ativo com outras tradições, europeias e africanas, em ecossistemas múltiplos e situações históricas profundamente diferenciadas.
A dimensão pedagógica desta exposição é especialmente relevante para as trabalhadoras e trabalhadores da educação, já que ela oferece um recurso rico e acessível para tratar em sala de aula, ou em qualquer espaço formativo, temas como diversidade cultural, direitos dos povos originários e a pluralidade de histórias que compõem o Brasil.
Depois de ter sido visitada por mais de 250 mil pessoas e de ter passado por quase todas as capitais do Nordeste, além de Rio de Janeiro e Brasília, a mostra ganhou versão virtual e pode agora ser acessada em todo o país. A última edição física estreou em outubro de 2019 no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, e precisou encerrar as atividades em março de 2020, em razão da pandemia de Covid-19.
A exposição foi construída em parceria com a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, o que significa que os povos indígenas não estão apenas retratados na mostra, mas foram parte de sua construção.
Não há filas, deslocamento ou horário marcado. O acesso se dá pelo endereço https://osprimeirosbrasileiros.mn.ufrj.br/pt e é totalmente gratuito. Vale o clique, vale o tempo, vale o mergulho.
Por Antônia Rangel





