China desafia domínio ocidental com produção própria de máquinas para chips

A China deu mais um passo estratégico para reduzir sua dependência tecnológica do Ocidente ao iniciar a produção em massa de máquinas nacionais de litografia por ultravioleta profundo (DUV por imersão), equipamento considerado um dos elos mais sofisticados da cadeia global de fabricação de semicondutores.

O avanço, revelado inicialmente pelo portal especializado The Information e confirmado pela agência Reuters, representa uma vitória para a política chinesa de autossuficiência em semicondutores, uma das prioridades do presidente Xi Jinping diante das restrições impostas pelos Estados Unidos e seus aliados ao acesso do país às tecnologias mais avançadas do setor.

Embora os equipamentos ainda precisem passar por testes adicionais antes de competir em igualdade com os modelos da holandesa ASML, única empresa que domina esse mercado em escala global, o anúncio foi suficiente para provocar forte reação nas bolsas europeias. As ações da ASML caíram cerca de 8,5% na segunda-feira (28), enquanto empresas ligadas ao setor, como Besi e ASM International, também registraram perdas expressivas.

O que a China fez?

Ao contrário do que muitos imaginam, a notícia não trata da fabricação de novos chips, mas da produção das máquinas que fabricam os chips.

Esses equipamentos realizam um processo conhecido como litografia, responsável por “desenhar” bilhões de circuitos microscópicos sobre uma lâmina de silício. Sem eles, simplesmente não é possível produzir semicondutores modernos.

Até hoje, essa tecnologia era dominada praticamente por uma única empresa: a holandesa ASML, cujas máquinas abastecem fabricantes como a taiwanesa TSMC, maior produtora mundial de semicondutores.

São justamente esses chips que depois são utilizados por empresas como Nvidia, AMD, Apple, Qualcomm e diversas fabricantes de equipamentos eletrônicos e sistemas de inteligência artificial.

Em outras palavras, a cadeia produtiva possui várias etapas. Primeiro vêm as empresas que fabricam as máquinas de litografia. Depois, fabricantes como a taiwanesa TSMC utilizam essas máquinas para produzir os chips.

Por fim, companhias como a Nvidia transformam esses semicondutores em processadores gráficos (GPUs), fundamentais para aplicações de inteligência artificial.

Ao dominar também a fabricação das máquinas, a China passa a controlar um elo considerado estratégico dessa cadeia industrial.

Um passo além da fabricação de chips

Nos últimos anos, Pequim investiu pesadamente para desenvolver capacidade própria em praticamente todas as etapas da indústria de semicondutores.

As sanções impostas pelos Estados Unidos proibiram a venda para empresas chinesas dos equipamentos mais avançados de litografia, especialmente os modelos EUV (ultravioleta extremo) produzidos pela ASML.

Posteriormente, Washington pressionou também o governo dos Países Baixos a restringir exportações de modelos DUV mais sofisticados.

A resposta chinesa foi acelerar os investimentos domésticos.

Segundo a Reuters, a produção está sendo liderada pela estatal Shanghai Aishengna Electronic Technology Group, criada em 2023 com capital de cerca de 7 bilhões de yuans (US$1 bilhão) e formada a partir da incorporação de equipes de empresas chinesas especializadas em litografia, como a SMEE e a Yuliangsheng.

As primeiras máquinas deverão ser entregues ainda neste ano para fabricantes chinesas como SMIC, Hua Hong Semiconductor e ChangXin Memory Technologies (CXMT). A expectativa é produzir cerca de cinco unidades em 2026 e aproximadamente vinte em 2027.

Mais autonomia diante das sanções

Especialistas ocidenteais observam que as máquinas chinesas ainda estão atrás dos equipamentos da ASML em precisão, produtividade e confiabilidade, o que significa que a liderança tecnológica da empresa holandesa permanece preservada no curto prazo.

Mesmo assim, o desenvolvimento possui grande relevância estratégica.

Caso Estados Unidos e Europa ampliem as restrições à exportação ou ao suporte técnico dos equipamentos estrangeiros, fabricantes chinesas passarão a contar com uma alternativa nacional para manter sua produção.

Mais do que substituir imediatamente a tecnologia ocidental, a iniciativa reduz um dos principais pontos de vulnerabilidade da indústria chinesa de semicondutores.

Num contexto em que inteligência artificial, computação de alto desempenho e soberania digital se tornaram elementos centrais da disputa geopolítica, dominar a fabricação das próprias máquinas de litografia representa um avanço importante para a estratégia chinesa de independência tecnológica e fortalecimento de sua capacidade industrial.

Por Lucas Toth

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