João Cândido e a Revolta da Chibata
A dica cultural desta semana é o livro João Cândido e a Revolta da Chibata, do escritor e professor Alcy Cheuiche, publicado pela L&PM Editores. A obra reconstrói, de forma romanceada e acessível, a trajetória de uma das principais lideranças negras da história do Brasil e recoloca em debate um episódio que atravessa as questões de trabalho, racismo e cidadania que ainda estruturam o país.
O autor da obra, Alcy Cheuiche, nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1940, e é veterinário, professor e escritor, com seis décadas dedicadas à literatura. Autor de romances históricos sobre episódios marcantes do passado brasileiro, como Nos Céus de Paris, o romance da vida de Santos Dumont, e Ana Sem Terra, tem obras traduzidas para vários idiomas. Em 2010, Cheuiche já havia publicado João Cândido, o Almirante Negro, também pela L&PM. O novo romance, João Cândido e a Revolta da Chibata, não é uma reedição da obra anterior, mas uma nova narrativa, com ilustrações de Gilmar Fraga que recriam os navios e os confrontos na Baía de Guanabara.
A narrativa parte de um cenário de desigualdade herdada da escravidão. Filho de pessoas escravizadas, João Cândido Felisberto nasceu em 1880 e ingressou na Marinha ainda muito jovem, onde se tornou exímio navegador. Apenas 22 anos haviam se passado desde a Abolição quando, em novembro de 1910, no Rio de Janeiro, então capital federal, marinheiros em sua maioria pretos e pobres se levantaram contra os castigos físicos impostos pela corporação. Sob o comando de João Cândido, cerca de 2 mil homens tomaram os navios de guerra ancorados na Baía de Guanabara e apontaram os canhões para a cidade, exigindo o fim de um sistema de punições que humilhava e mutilava.
As reivindicações iam além do fim da chibata e da palmatória. Os marinheiros pediam a substituição de superiores autoritários, o aumento dos soldos, a redução da jornada, melhores condições de alimentação e, também, de qualificação e de educação. Essa pauta de trabalho, que unia jornada e qualificação, aproxima a revolta de 1910 das lutas que as trabalhadoras e os trabalhadores da educação sustentam no presente.
Os castigos corporais foram oficialmente abolidos. A promessa, no entanto, não se converteu em justiça. Poucos dias depois do acordo, os revoltosos foram perseguidos, presos, mortos ou enviados para seringais na Amazônia. João Cândido foi internado em instituição psiquiátrica, sob falsa alegação de insanidade e, mesmo absolvido judicialmente, acabou expulso da Marinha. A traição do compromisso firmado ilustra como as conquistas sociais são, com frequência, interrompidas pela repressão e pelo esquecimento deliberado.
A memória do Almirante Negro, apelido que a imprensa da época lhe atribuiu, permaneceu viva na cultura popular. Ele foi imortalizado na canção O Mestre Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc. Nas últimas décadas, o nome de João Cândido voltou ao centro do debate público, com a proposta de sua inscrição no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria e com decisões recentes da Justiça que reconhecem a perseguição que sofreu. A disputa em torno de sua memória mostra que lembrar é um ato político também.
Ao resgatar essa trajetória, Alcy Cheuiche dialoga com os princípios que orientam a luta das trabalhadoras e trabalhadores da educação em defesa de relações de trabalho dignas, da igualdade racial, da educação pública e da valorização profissional. A leitura ajuda a compreender que a luta por direitos, dentro e fora da escola, se constrói sobre a memória daqueles que enfrentaram a opressão e sobre a recusa de aceitar a injustiça como destino.
Referência:
CHEUICHE, Alcy. João Cândido e a Revolta da Chibata. Ilustrações de Gilmar Fraga. 1. ed. Porto Alegre: L&PM Editores, 2026. 200 p.
Por Antônia Rangel
