A porta aberta por dentro: organizações terroristas, viralatismo e a Monroe 2.0

Na última quinta-feira (28), o secretário de Estado americano Marco Rubio anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras. A medida entra em vigor no dia 5 de junho. Em Brasília, o Itamaraty reagiu com indignação. Em Washington, Flávio e Eduardo Bolsonaro comemoraram.

Em setembro de 2025, após classificar os grupos criminosos venezuelanos Tren de Aragua e o Cartel de Los Soles como terroristas, os Estados Unidos lançaram a Operação Southern Spear — a maior presença militar americana no Caribe desde a Crise dos Mísseis de Cuba. Porta-aviões nuclear, drones, mais de dez mil tropas. Foram 52 ataques contra embarcações e 178 mortos. O ápice foi em janeiro de 2026, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cília Flores.

O mesmo padrão se repetiu em outros países. Após designar grupos locais como terroristas, as Forças Armadas e agências de inteligência dos EUA realizaram intervenções militares, ataques com drones e missões de treinamento na Palestina, no Afeganistão, no Iêmen, na Somália, na Síria, no Iraque, na Nigéria, Camarões e outros países.

Casos semelhantes, mesmo que de menor proporção, aconteceram no México e no Equador. Na teoria, a classificação visa restringir o fluxo financeiro desses grupos ditos “terroristas”. Na prática, serve para abrir a porteira jurídica para asfixia financeira, operações de inteligência, intervenções e invasões contra os países.

Monroe 2.0

Em 1823, o presidente norte americano James Monroe declarou que o continente americano não estava mais disponível para novas colonizações europeias, o que foi chamado de Doutrina Monroe. Era, em tese, uma doutrina defensiva. Em 1904, o presidente Theodore Roosevelt acrescentou o Corolário que a transformou em algo bem diferente: se países latino-americanos não cumprissem suas “obrigações internacionais”, os EUA teriam o direito de intervir militarmente. A doutrina de proteção virou doutrina de policiamento e de justificativa para o imperialismo.

O que estamos vendo agora é a versão 2.0 desse corolário — com uma diferença estrutural decisiva. Roosevelt precisava de pretextos diplomáticos; Trump usa o enquadramento antiterrorista. Ao classificar facções criminosas como terroristas, os EUA não estão apenas aplicando sanções financeiras, mas estão construindo a arquitetura jurídica que transforma qualquer ação posterior em legítima defesa contra o terrorismo.

A ascensão da China e a expansão dos BRICS reposicionam o Sul Global e mostram que o mundo unipolar que emergiu do fim da Guerra Fria está em dissolução. O cenário cria um ambiente em que os EUA precisam reafirmar sua hegemonia de forma mais explícita e mais agressiva. A América Latina, quintal histórico do império, é o território onde essa reafirmação acontece com menos custo político internacional. O que vemos, portanto, é a Doutrina Monroe 2.0, uma resposta à multipolaridade.

Contudo, a classificação do PCC e do CV pelos EUA não surgiu do nada, mas foi anunciada dois dias após uma reunião entre Marco Rubio e Flávio Bolsonaro em Washington. Flávio havia se encontrado com Trump na Casa Branca no dia anterior, acompanhado do irmão Eduardo (que fugiu aos EUA após participar ativamente da tentativa de golpe de 2022).

Foi uma articulação deliberada. Existe uma palavra precisa para descrever a postura de quem não apenas aceita a subordinação a uma potência estrangeira, mas a busca ativamente, a celebra e a oferece como serviço político: viralatismo. Não no sentido cultural banal — o complexo de quem acha o produto importado sempre melhor. Mas no sentido político mais grave: a postura de quem leva o osso para o dono antes de ser pedido.

Mas o viralatismo político não vem de ingenuidade. A família Bolsonaro espera vantagem eleitoral, legitimidade externa, e — em caso de vitória — um ambiente internacional favorável à agenda que não conseguiram implementar completamente entre 2019 e 2022.

Em uma lógica não tão complexa, Flávio Bolsonaro precisa ser presidente não apenas para satisfazer ambição pessoal ou familiar, mas para que os planos da extrema direita e dos EUA encontrem a porta aberta. Um governo alinhado não precisa ser invadido, sancionado ou pressionado, ele faz o trabalho por conta própria e apresenta a subordinação como “inserção inteligente” na ordem global.

Algo similar pode ser observado no Oriente Médio: a Arábia Saudita e o Irã possuem riquezas igualmente estratégicas em petróleo. Mas enquanto o Irã acumula décadas de sanções, ameaças e isolamento, a Arábia Saudita é parceira. A diferença é de alinhamento, e não moral. Um governo subserviente sai mais barato para o império do que uma intervenção militar. É esse o modelo que a extrema direita brasileira está oferecendo ao governo Trump.

A classificação do PCC e do CV como terroristas têm efeitos jurídicos imediatos dentro da jurisdição americana: bloqueio de ativos, sanções financeiras, vedação de transações com o sistema bancário dos EUA. Para as facções em si, o impacto direto é limitado. O impacto real é outro: criar o enquadramento narrativo e legal que justifique escaladas futuras.

O governo Lula resistiu e reafirmou a soberania brasileira. O Itamaraty rejeitou a classificação e o presidente declarou que “essa guerra é nossa, não dos Estados Unidos”, lembrando da Lei Antifacção aprovada recentemente. O Brasil tem peso econômico, tradição diplomática de não-alinhamento, instituições com capacidade real de resistência e uma sociedade civil que não abaixa a cabeça facilmente.

A diferença entre ter que forçar a entrada e ter a porta aberta por dentro é enorme. É exatamente essa porta que a extrema direita brasileira está, pública e ativamente, oferecendo abrir. E é a principal diferença entre o governo Lula – que resiste na defesa da soberania, uma das principais diretrizes de sua gestão – e um que não apenas cede, mas antecipa, facilita e celebra a própria diminuição.

Por Andressa Schpallir

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