O valor da mercadoria: por que o professor brasileiro virou alvo?
90% dos professores já sofreram censura. A desvalorização do mestre não é acaso: é a face mais cruel de um sistema que trata o saber como lucro e o educador como descartável
*Por Railton Nascimento Souza
O professor brasileiro vive sob um cerco que não se limita aos muros da escola. Ameaças, perseguições e censuras não são episódios fortuitos; são a engrenagem mais cruel de um sistema que transformou a educação em negócio e o saber em lucro.
Não se trata de um desvio local. Trata-se de um projeto gestado nos anos 1970, imposto pelo Consenso de Washington e intensificado no Brasil após o golpe de 2016. Temer e Bolsonaro aprofundaram a destruição de direitos sociais e trabalhistas, criando o ambiente perfeito para o avanço da mercantilização – a educação deixando cada vez mais de ser direito para se tornar mercadoria.
Por trás do medo que atravessa as salas de aula, há um processo de concentração de poder econômico que poucos enxergam. Estudos recentes mostram que menos de 2% das mantenedoras do ensino superior já concentram quase metade de todas as matrículas do país – e, na rede privada, a situação é ainda mais extrema, com pouco mais de 1% das instituições detendo mais da metade dos estudantes. Esse movimento não é acidental: é fruto de dezenas de fusões e aquisições que, só no primeiro semestre de 2026, reconfiguraram o setor educacional. A lógica é clara: o lucro como norte. E, quando o lucro é o norte, qualidade pedagógica, autonomia docente e condições de trabalho viram obstáculos a serem removidos. O professor, antes visto como mestre, passa a ser tratado como custo. A sala de aula, antes espaço de construção do conhecimento, torna-se linha de produção. E é nesse terreno – de concentração de riqueza e desumanização do trabalho – que florescem o assédio, a sobrecarga e a perseguição.
Esse processo de financeirização vem acompanhado de uma enxurrada de ataques à dignidade do professor. A reforma trabalhista e a reforma da previdência enfraqueceram os sindicatos e retiraram a proteção de quem adoece. O trabalho docente, antes respeitado como missão, virou alvo de desvalorização sistemática. Salas superlotadas, jornadas exaustivas, planos de carreira inexistentes – tudo isso compõe o cenário de um magistério em frangalhos.
Esse cenário de instabilidade e sobrecarga é o terreno fértil para o assédio e a perseguição. E os números, colhidos pela pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE – UFF/MEC, 2025), são estarrecedores: 90% dos educadores sofreram, presenciaram ou souberam de perseguição e censura. Na educação básica, 61% foram vítimas diretas. Mais de 65% sofreram agressões físicas ou verbais – o Brasil lidera esse ranking na OCDE. Cinquenta e nove por cento se sentem vigiados; 41% temem pela própria segurança; 39% têm medo de perder o emprego. Entre as professoras, 75% não se sentem seguras dentro da sala de aula. A violência, portanto, tem gênero: atinge principalmente as mulheres, maioria da categoria.
A violência, porém, não se resume a agressões físicas. Ela entra pela porta da sala com o nome de humilhação, desqualificação, acusações de “doutrinação”. O assédio moral, denunciado pelo Brasil de Fato, tornou-se norma: mais de 60% dos docentes já o sofreram. Há ainda a sobrecarga invisível – o trabalho que se estende para casa, a correção de provas, a preparação de material, o atendimento a pais, a tutoria em EAD, tudo isso sem a devida remuneração. O resultado é uma epidemia de estresse, ansiedade, depressão e burnout. A Organização Internacional do Trabalho já alertou: riscos psicossociais causam 840 mil mortes por ano no mundo. E a docência está entre as profissões mais estressantes.
O verdadeiro alvo, contudo, vai além do corpo e da saúde mental do professor. É o pensamento crítico que se quer silenciar. O movimento “Escola sem Partido” criou um clima de suspeição permanente. Deputados da extrema-direita como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO) tratam professores como “inimigos”. Os temas mais perseguidos são política (73%), gênero e sexualidade (53%), religião (48%), negacionismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%). O homeschooling é promovido não como alternativa pedagógica, mas como ferramenta política contra a escola pública. O resultado é o medo de ensinar. Estudos do Inep e do Jornal da USP já alertaram para o risco de um apagão no magistério – o déficit projetado de professores até 2040 é de 235 mil.
O Estado, longe de proteger, torna-se cúmplice e protagonista da truculência. A militarização das escolas, que o pesquisador Fernando Cássio (USP) documenta, saltou de 48 unidades em 2014 para 1.389 em 2026 – crescimento de 2.800%. O fenômeno atinge 862 municípios. Em Goiás, o caso é emblemático: o estado já tem 82 colégios da Polícia Militar, atendendo 75 mil alunos, com 39 unidades em implantação. Não há evidência científica de que esse modelo reduza violência ou melhore a aprendizagem. Na prática, ele intimida professores, cerceia o pensamento crítico e prepara o terreno para a privatização.
Essas perseguições têm nome, sobrenome e desdobramentos jurídicos. Em 2024, no Sesi-PE, professores que cobraram o cumprimento do acordo coletivo foram perseguidos; uma dirigente sindical e uma professora gestante foram demitidas – e os processos na Justiça do Trabalho seguem em tramitação. Em 2026, a Justiça de Minas Gerais condenou a Associação de Pais do Colégio Loyola a indenizar um dirigente sindical por difamação. Em 2021, pais do Colégio Santo Inácio, no Rio, exigiram que a direção monitorasse as redes sociais dos professores – o sindicato repudiou e abriu canal de denúncias. Em 2025, o professor Waldeck Carneiro, coordenador do Fórum Estadual de Educação do Rio, sofreu ameaças e difamações por defender a educação pública; registrou boletim de ocorrência por injúria, calúnia e difamação. A perseguição, portanto, não é exceção: é método.
Mas não basta denunciar. É preciso enfrentar. E o enfrentamento exige um conjunto de ações coordenadas, que atuem em várias frentes. A primeira delas é a valorização profissional e a garantia de condições dignas de trabalho: planos de carreira, piso salarial nacional, limite de alunos por turma (presencial e virtual) e reconhecimento da hora-atividade extraclasse – tudo o que já é direito no serviço público e precisa ser estendido à rede privada, onde a precarização avança sem freios.
A segunda frente é seguir exigindo a regulação da educação a distância, com o definitivo fim das salas virtuais superlotadas – em cumprimento ao que ordena o Decreto 12.456/2025 quanto ao limite de alunos por docente – e a exigência de que a formação de professores seja prioritariamente presencial, com qualidade e pesquisa, não como mera máquina emissora de diplomas. Luta que se soma ao combate à pejotização e à uberização do trabalho docente para que todos os trabalhadores em educação tenham vínculo empregatício formal com todos os direitos trabalhistas e previdenciários.
A terceira frente é a defesa intransigente da liberdade de ensinar e do pensamento crítico, com o monitoramento e a denúncia de toda forma de censura, patrulhamento ideológico e perseguição política. É preciso que o Estado garanta, na lei e na prática, que o professor possa exercer sua função sem medo, e que a escola seja um espaço de debate, diversidade e construção democrática do conhecimento.
A quarta frente é a luta contra a militarização das escolas, exigindo o fim da progressiva substituição da gestão democrática por modelos autoritários e hierárquicos, que não têm base científica e servem apenas para intimidar professores e preparar a privatização.
Por fim, a quinta frente – e talvez a mais fundamental – é a articulação internacional. A ofensiva contra a educação e contra os educadores não é um fenômeno isolado brasileiro. Ela é global, alimentada pelo avanço do capital financeiro e da extrema-direita na Europa, nos Estados Unidos e, com força preocupante, na América Latina. Por isso, a luta política e sindical precisa ser internacionalizada: fortalecer os sindicatos e movimentos sociais, trocar experiências, construir redes de solidariedade e pressionar organismos como a OIT para que a perseguição ideológica e a violência contra educadores sejam reconhecidas como violações do direito ao trabalho decente. Denunciar políticos que colaboram para o avanço do retrocesso.
A educação virou campo de batalha. O conhecimento, antes ferramenta de emancipação, é tratado como subversão. O professor, antes mestre, é visto como inimigo por muita gente envolvida nessa campanha difamatória. Os dados provam inequivocamente as consequências disso: 90% de censura, 65% de agressões, 75% das professoras inseguras. Isso não é um conjunto de acidentes – é um estado de exceção permanente contra a educação. E todo estado de exceção só se sustenta enquanto houver silêncio. Denunciar é o primeiro ato de resistência. Organizar-se é o segundo. E lutar, com a força de quem sabe que a educação não é mercadoria, é o caminho.
Referências
BRASIL. Decreto nº 12.456, de 19 de maio de 2025. Institui o Marco Regulatório da Educação a Distância no ensino superior. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 jun. 2025.
BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Estudo sobre pejotização no Brasil: análise do período 2022-2024. Brasília, DF: MTE, 2025.
CÁSSIO, Fernando. Levantamento sobre escolas militarizadas no Brasil (2014-2026). São Paulo: Universidade de São Paulo (USP), 2026. Dados preliminares.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA – INEP. Censo da Educação Superior 2024. Brasília, DF: INEP/MEC, 2025.
JORNAL DA USP. Brasil poderá ter carência de 235 mil professores de educação básica até 2040. São Paulo: USP, 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br. Acesso em: 28 jul. 2026.
OBSERVATÓRIO NACIONAL DA VIOLÊNCIA CONTRA EDUCADORAS/ES – ONVE. Um estudo quantitativo da perseguição a educadores no Brasil (2010-2024). Niterói: Universidade Federal Fluminense (UFF), 2025. Em parceria com o MEC.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO – OIT. Riscos psicossociais no trabalho: estimativas globais de mortalidade e anos de vida saudável perdidos. Genebra: OIT, 2026.
*Railton Nascimento Souza é Coordenador-Geral da Contee





