Dia Mundial das Telecomunicações: conectividade em disputa
O que significa ter direito à conexão num país de dimensões continentais, onde a internet ainda não chegou a todos os territórios, a todas as escolas, a todas as comunidades? O 17 de maio, Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade da Informação, instituído pela ONU em referência à fundação da União Internacional de Telecomunicações em 1865, é a data que nos leva a fazer essa pergunta.
O Brasil avançou. Dados do Índice Brasileiro de Conectividade (IBC), divulgados pela Anatel em abril de 2026, mostram que o Brasil está mais conectado. A média nacional subiu de 52,4 pontos em 2024 para 55,35 pontos em 2025. O IBC considera o avanço de aspectos como cobertura de telefonia móvel, densidade de acessos à internet fixa e móvel, competitividade entre operadoras e infraestrutura de transporte de dados em municípios e estados brasileiros. São avanços concretos, que provam que conectividade é política pública, é escolha, é disputa.
No campo da educação, o programa Escolas Conectadas, coordenado pelos Ministérios da Educação e das Comunicações no âmbito da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (ENEC), alcançou 94 mil das 138 mil escolas cadastradas, 68,7% da meta de universalização prevista para o fim de 2026. O país já ultrapassou 99 mil escolas públicas com acesso à internet. Somente em 2025, foram contratados serviços para outras 16,7 mil unidades que ainda permaneciam desconectadas.
A expansão da conectividade também se faz com distribuição de equipamentos, formação e presença do Estado onde o mercado não chega. O programa Computadores para Inclusão, que recondiciona equipamentos eletrônicos e os destina a escolas, associações e projetos sociais, já realizou cerca de 75 mil doações e emitiu mais de 80 mil certificações. A Carreta Digital, laboratório móvel de tecnologia que percorre o país, formou mais de 11 mil jovens em situação de vulnerabilidade em 2025, com meta de ultrapassar 20 mil capacitações em 2026. Somam-se a esses esforços o programa Norte Conectado e os investimentos para levar internet a regiões remotas.
Mas os números não apagam a distância que ainda separa mundos. Enquanto estudantes de redes conectadas acessam bibliotecas digitais, plataformas de aprendizado e ferramentas de criação, outros copiam do quadro negro o mesmo conteúdo de sempre. A exclusão digital segue a mesma lógica da exclusão histórica: atinge com mais força as periferias, as zonas rurais, os territórios onde o Estado sempre chegou por último.
Conectar escolas é condição necessária, mas não suficiente. O que circula pelas redes importa tanto quanto o acesso a elas, e por isso o debate sobre regulação das plataformas digitais precisa ser acompanhado com atenção crítica pela educação. Em 2026, o governo federal avançou nessa direção: discute marcos para a proteção de dados e o combate à desinformação, com medidas que incluem prazos para remoção de conteúdos nocivos e mecanismos de responsabilização das grandes corporações de tecnologia.
As trabalhadoras e os trabalhadores da educação atuam num cenário em que a tecnologia avança sobre a sala de aula muitas vezes sem debate pedagógico e sem a participação da categoria. No Brasil e no mundo, redes públicas de ensino têm adotado plataformas privadas, sistemas de monitoramento algorítmico e soluções tecnológicas que substituem ou precarizam, em vez de apoiar, o trabalho docente. A inteligência artificial, especificamente, não é neutra: carrega visões de mundo e interesses econômicos que podem aprofundar desigualdades quando não submetidas ao controle social e à regulação democrática. Cabe à escola ensinar a usar a tecnologia, e também a questioná-la.
A data de 17 de maio celebra a cooperação internacional que tornou possível a interconexão entre povos e continentes. Mas comemorar implica também enfrentar as desigualdades que persistem no acesso, na qualidade e na soberania sobre dados e algoritmos. Garantir conectividade nas escolas, regular plataformas digitais e defender a autonomia pedagógica integram uma mesma luta: por uma educação que forme pessoas capazes de compreender e transformar o mundo em que vivem. Esse enfrentamento precisa ser permanente.
Por Antônia Rangel




