Barretão: uma filmografia que é a própria história do cinema brasileiro
A dica cultural desta semana é sobre Luiz Carlos Barreto, que morreu, aos 98 anos, na madrugada desta quarta-feira (22) no Rio. O homem que todos chamavam de Barretão deixou uma vasta filmografia. Não dá para falar de audiovisual no Brasil sem passar por ele. Sua trajetória de mais de sessenta anos ajuda a entender como o cinema brasileiro se tornou o que é hoje.
Ele nasceu em Sobral, no Ceará, em 1928. Aos 19 anos, desembarcou no Rio e foi ser repórter fotográfico nos Diários Associados, passou pela O Cruzeiro e pela A Cigarra. Essa origem no fotojornalismo explica muita coisa: Barreto tinha o olho treinado para o que era real, para a crueza do país, registrava o Brasil que estava escondido. Primeiro fez isso como diretor de fotografia, para depois seguir para a produção.
Em 1963 fundou a L.C. Barreto Produções Cinematográficas, ao lado da mulher, Lucy Barreto, criando uma produtora influente. Foi por ela que passaram títulos importantes do Cinema Novo, movimento que Barreto ajudou a sustentar financeira e criativamente num momento em que fazer cinema autoral no Brasil era, antes de tudo, um ato de resistência.
Para quem quer conhecer essa trajetória pelas telas, deixamos aqui alguns pontos de partida. “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha, contaram com sua produção e com sua fotografia, dois marcos que definem a estética árida e política do Cinema Novo. “Garrincha, Alegria do Povo” (1962), sobre o craque da seleção campeã de 1958 e 1962, mostra outra faceta de Barreto: a atenção ao Brasil popular, ao futebol como linguagem de povo, tema ao qual voltaria em “Isto É Pelé” (1974), documentário que também dirigiu.
A carreira dele teve de tudo. Teve o experimentalismo premiado de Brasil Ano 2000 (1969), vencedor do Urso de Prata em Berlim, e foi um estouro comercial. Em 1976, ele produziu Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido pelo filho, Bruno Barreto, com Sônia Braga como protagonista. O filme se tornou, por décadas, a maior bilheteria da nossa história. Barreto provou que o cinema brasileiro podia ser sofisticado e popular ao mesmo tempo. Anos depois, os dois voltariam a trabalhar juntos em “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), sobre o sequestro do embaixador americano pela guerrilha durante a ditadura, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
A parceria com os filhos é, aliás, outro fio condutor dessa história. Além de Bruno, Barreto também foi pai do cineasta Fábio Barreto (1957-2019), diretor de “O Quatrilho” (1995), primeiro longa brasileiro indicado ao Oscar em mais de trinta anos, e de “Lula, o Filho do Brasil” (2009), sobre a juventude do nosso atual presidente.
Não podemos deixar de citar Bye Bye Brasil (1979) e Memórias do Cárcere (1984). O primeiro é um retrato melancólico de um país que estava mudando rápido demais; o segundo, adaptação do livro de Graciliano Ramos sobre sua experiência na prisão durante o Estado Novo, outro exemplo de como Barreto usava o cinema para tensionar a memória política do país.
Ao longo de sua carreira, Barreto participou de dezenas de produções, número que varia entre 80 e mais de 100, a depender da fonte. Muitas vezes também emprestou seu talento como diretor de fotografia e, ocasionalmente, como roteirista, caso de “O Assalto ao Trem Pagador” (1962), que escreveu ao lado de Roberto Farias, e de “Casa de Areia” (2005), dirigido por Andrucha Waddington, do qual assinou a ideia original.
Hoje, boa parte dessa filmografia está espalhada pelo Globoplay, Telecine, plataformas dedicadas ao cinema nacional, além do acervo da Cinemateca Brasileira. Ver os filmes do Barretão é ver como a gente aprendeu a se olhar no espelho. Ele foi um dos homens que segurou o espelho para nós por quase um século, nos deixando uma enorme herança.
Por Antônia Rangel





