Lula defende soberania em artigo para Washington Post: “o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros”

O presidente Lula publicou neste domingo (26/7) um artigo no Washington Post classificando as novas tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros como um “erro estratégico” e reafirmando que o país não vai aceitar interferência externa em seus assuntos internos nem será subserviente. No mesmo fim de semana, por telefone, Lula conversou por mais de uma hora com o presidente chinês Xi Jinping, reforçando a aproximação política e econômica com Pequim.

O artigo no Washington Post

Lula relembra que, há um ano, foi surpreendido por uma carta de Donald Trump anunciando tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. O primeiro parágrafo já citava o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado — o que deixava evidente a motivação política da medida. Apesar de negociações que amenizaram essa primeira versão do tarifaço, o governo americano decidiu neste mês aplicar novas tarifas, que vão de 12,5% a 37,5% sobre produtos brasileiros.

O presidente cita no texto que a Global Trade Alert, entidade suíça independente, aponta Brasil e Turquia como os países mais tarifados pelos EUA depois da China, mesmo com os americanos mantendo superávit de 428 bilhões de dólares no comércio bilateral acumulado em quinze anos. Ele considera a taxação um erro estratégico que pode prejudicar a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil.

Em tom mais duro, Lula afirma que tentativas de impor amarras ideológicas à relação bilateral ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais não se sustentam, classifica como inédita a postura de um secretário de Estado americano ao chamar o Brasil de país “não-amigo” e rebate diretamente as justificativas usadas por Washington para o tarifaço — liberdade de expressão nas redes, o sistema Pix e a política ambiental brasileira.

Fecha com defesa da soberania e da democracia e um apelo por parceria hemisférica baseada em investimento e combate ao crime organizado, e não em “porta-aviões” ou punições tarifárias, citando como exemplos históricos positivos a Política de Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt e a inclusão de países latino-americanos no G20 por George W. Bush durante a crise de 2008.

Ingerência nas eleições presidenciais

Ainda que não cite as eleições de outubro, o artigo de Lula é uma resposta não apenas às consequências econômicas do tarifaço, mas às suas motivações políticas. O texto foi publicado no rastro de uma semana marcada por tentativas de ingerência por parte do governo norte americano.

O Itamaraty confirmou no sábado (25/7) a negativa de visto a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA: o subsecretário para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, Riley Barnes, e o subsecretário adjunto Samuel Samson. Segundo o governo brasileiro, os dois pretendiam conversar com autoridades eleitorais para discutir liberdade de expressão relacionada às eleições de outubro.

O que chamou atenção das autoridades brasileiras foi o momento do pedido: ele veio na sequência do discurso golpista de Flávio Bolsonaro em evento com diplomatas. O senador e pré-candidato à presidência repetiu o discurso de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que levanta suspeitas sobre as urnas eletrônicas. O governo tratou a visita como instrumentalização política do contexto eleitoral e negou a entrada.

O episódio dos vistos não é isolado. Em audiência no Senado americano no início de junho, Marco Rubio já havia colocado o Brasil fora do grupo de países considerados alinhados aos interesses de Washington, ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela. A fala é anterior ao tarifaço mais recente, mas mostra que a tensão vem se acumulando há meses.

Depois que Lula, em discurso na convenção do PDT em 20 de julho, desafiou Rubio a “montar um comitê” caso quisesse apoiar uma candidatura de Flávio Bolsonaro, o Departamento de Estado respondeu por meio de porta-voz, em 23 de julho, afirmando que os Estados Unidos mantêm interesse histórico na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

A ligação com Xi Jinping

Segundo nota da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Lula e Xi conversaram por telefone na noite de domingo (26/7), mesmo dia da publicação do artigo, por mais de uma hora. O eixo foi a cooperação em áreas estratégicas — inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes —, além do avanço nas tratativas para um acordo entre Mercosul e China.

A nota registra também que os dois líderes trataram da agenda internacional: lamentaram a proliferação de conflitos e seus efeitos sobre a segurança alimentar e energética, cobraram resposta do Conselho de Segurança da ONU diante das restrições à navegação em Ormuz e Bab el-Mandeb e da crise humanitária em Gaza, e defenderam papel do Grupo de Amigos da Paz na guerra da Ucrânia. Por fim, reiteraram o compromisso conjunto com o multilateralismo e a coordenação entre Brasil e China na ONU, no BRICS e em outros fóruns.

Algumas horas depois, o governo da China divulgou nota dizendo que apoia o Brasil “na defesa de sua soberania e independência e opõe-se à interferência externa”.

Confira o artigo de Lula, publicado no Washington Post, na íntegra:

As tarifas dos EUA contra o Brasil são um erro estratégico

Há um ano, fui surpreendido pela publicação, em uma plataforma digital, de carta do presidente Donald Trump que impunha tarifa de 50% a produtos brasileiros. A menção, logo no primeiro parágrafo, ao ex-presidente Jair Bolsonaro — condenado no ano passado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado no Brasil — deixava explícita a motivação política da medida.

Nos diálogos que mantive com Trump desde então ressaltei que não é necessário compartilhar as mesmas visões de mundo para buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, somos líderes das duas maiores democracias e economias das Américas. Negociações entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do tarifaço.

Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%. Como resultado, a Global Trade Alert, organização independente baseada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são hoje os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, depois apenas da China. E isso apesar do superávit norte-americano no comércio bilateral de bens e serviços, que ao longo de quinze anos consecutivos acumula 428 bilhões de dólares.

Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil. Diversos segmentos industriais dos Estados Unidos dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e vários outros produtos chegarão mais caros ao consumidor norte-americano. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o menor patamar desde 1997.

Na comparação entre os primeiros 6 meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA recuou 12,8%, enquanto o comércio com a União Europeia cresceu 6,1% e com a China aumentou 15,9%. No médio prazo, essas tarifas vão levar à desorganização de cadeias produtivas que hoje se encontram densamente integradas e as empresas brasileiras vão substituir fornecedores norte-americanos por outros parceiros. Isso diz muito da inconsistência entre os interesses dos EUA anunciados em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que adota em relação ao Hemisfério Ocidental.

A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões rondando suas águas nem de punições tarifárias. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Neste momento em que os EUA isolam seu mercado, outros países se apresentam como alternativas, oferecendo uma agenda positiva, capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.

Estou convicto de que a união de esforços em torno de iniciativas concretas de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir para superar as mazelas que afligem um hemisfério que é de todos nós.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos. Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington soube ser um parceiro à altura de nossos interesses de desenvolvimento.

O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou uma política de Boa Vizinhança que tinha como objetivo substituir o uso da força pela diplomacia em sua política externa para a região. Essa postura contribuiu de forma decisiva com os primórdios da industrialização no Brasil. O presidente George W. Bush, ao enfrentar a crise financeira de 2008, incluiu 3 países latino-americanos na primeira reunião de líderes do G20.

Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado. Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não se sustentam.

Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras. As alegações do Presidente Trump contra o Brasil, na tentativa de justificar as tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade nas plataformas de redes digitais — não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas.

Nosso sistema de pagamentos, o Pix, não discrimina empresas norte-americanas e é uma referência internacional de infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.

Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para assegurá-la. Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência.

Por Andressa Schpallir

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