Flipei: a oitava edição da Festa Literária Resistência Cultural em São Paulo
Em um cenário em que a extrema-direita intensifica sua ofensiva, a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes, a Flipei, chega à sua 8ª edição entre os dias 5 e 9 de agosto, em São Paulo, consolidando-se como um dos principais espaços de circulação de pensamento crítico e produção editorial independente do país. Criada em 2018, em Paraty, como alternativa à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o evento migrou para a capital paulista e se transformou, ano após ano, em grandes encontros gratuitos de literatura, política e cultura popular do Brasil, chegando a reunir mais de 50 mil visitantes em sua edição mais recente.
Nesta edição, a Flipei ocupa cinco espaços na região central de São Paulo: o Galpão Cultural Elza Soares e o Café Colombiano, nos Campos Elíseos, além do bar Sol y Sombra, do Central 1926 e do Prato do Dia, no Bixiga. Mais de 150 editoras independentes confirmaram presença na feira de livros, que segue com entrada gratuita e política de descontos ao longo dos cinco dias de evento.
A programação reúne dezenas de mesas sobre temas como Palestina, tarifa zero, saúde mental, feminismo, violência racial, América Latina, soberania nacional, Sul Global e lutas populares. Entre os confirmados estão Txai Suruí, Cida Bento, Jamil Chade, Luiza Erundina, Michel Alcoforado, Rita Von Hunty e Rincon Sapiência, além dos internacionais Ruth Wilson Gilmore, referência em abolicionismo penal, o jornalista Gideon Levy, autor de O Massacre de Gaza, a ativista Medea Benjamin, cofundadora do Code Pink, e a poeta israelense Tal Nitzán. A curadoria da edição 2026 é assinada por Cidinha da Silva, Jéssica Balbino, Pedro Silva e Marcos Morcego.
Como novidade, o festival incorpora o esporte à sua proposta política e cultural: em ano de Copa do Mundo, a Flipei promove partidas de pebolim, jogo criado pelo poeta anarquista espanhol Alejandro Finisterre, e oficinas de boxe popular, pensadas como ferramentas de autodefesa e cuidado coletivo. A programação infantil, batizada de Zona Piratinhas, acontece no sábado e no domingo, com contação de histórias, oficinas e uma programação especial para o Dia dos Pais, em parceria com o projeto Kindezi de acessibilidade, que inclui intérpretes de Libras, audiodescrição e equipe de apoio a pessoas com deficiência. O evento também prevê distribuição de livros a estudantes e professores da rede pública e ações formativas em cidades do interior paulista, como Sorocaba, Carapicuíba, São Carlos e Mairiporã. Em 2026, a Flipei foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (PROAC) do governo estadual.
Desde que se firmou em São Paulo, a Flipei constrói sua identidade em torno do enfrentamento ao avanço conservador. A própria organização do evento descreve o festival como um “território de resistência cultural” e já se autodenominou o “terror da extrema direita” por promover, gratuitamente, diálogos e autores ligados a diferentes correntes do pensamento crítico, de movimentos sociais a intelectuais latino-americanos, passando por lideranças indígenas, negras e do campo popular. Essa vocação política é também o que, segundo os organizadores, explica o rompimento de contrato pela Prefeitura de São Paulo às vésperas da edição de 2025.
Em agosto de 2025, cinco dias antes da abertura da 7ª edição, a Fundação Theatro Municipal (FTM), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), cancelou unilateralmente o contrato que cedia a Praça das Artes para a realização do festival. Em nota, a fundação justificou a decisão citando o que classificou como conteúdo “de apelo ideológico, com indisfarçável viés eleitoral” na programação, e mencionou também o transtorno que o evento causaria durante o período de retorno às aulas na região. No mesmo período, a Casa Civil da prefeitura suspendeu emendas parlamentares de três vereadores destinadas à infraestrutura da feira.
Impedida de ocupar o espaço público, a Flipei se reorganizou em poucos dias e migrou para uma rede de espaços culturais e comunitários da região central, entre eles o Galpão Cultural Elza Soares, ligado ao MST, que se tornaria a sede principal do festival. Segundo a organização, a mudança forçada teve efeito contrário ao pretendido: a edição de 2025 bateu recorde de público, com cerca de 50 mil visitantes, e registrou vendas históricas para as editoras participantes.
A 8ª edição da Flipei manteve, em 2026, os mesmos endereços conquistados na reorganização de emergência do ano anterior, e a organização tem descrito a edição atual como mais “combativa”, reafirmando o compromisso do festival com a produção editorial independente e com espaços de formação política fora da lógica dos grandes conglomerados culturais e editoriais. O episódio de 2025 segue como referência na forma como a Flipei constrói sua narrativa pública: a de um festival que, ao ser alvo de tentativa de interdição, ganhou ainda mais visibilidade e se consolidou como um dos principais pontos de encontro da cultura crítica e popular na cidade de São Paulo.
Por Antônia Rangel


