Honestino: memória e resistência nos cinemas
A dica cultural desta semana é o filme Honestino, dirigido por Aurélio Michiles e estrelado por Bruno Gagliasso, com estreia nacional em 13 de agosto de 2026. A obra mistura documentário e ficção para narrar a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração de 1968, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e aluno de Geologia da Universidade de Brasília (UnB). O longa-metragem é um registro sobre a resistência política no Brasil.
Nascido em Itaberaí (GO), em 28 de março de 1947, Honestino mudou-se com a família para a recém-inaugurada Brasília e, em 1965, conquistou o primeiro lugar geral no vestibular de Geologia da UnB. Sua militância no movimento estudantil resultou em sucessivas prisões ao longo dos anos 1960, e, após a invasão militar do campus da UnB em agosto de 1968, foi detido novamente e entrou na clandestinidade, abandonando o curso no último semestre. O filme detalha esse período em que o líder estudantil viveu na clandestinidade, entre 1968 e 1973, até ser sequestrado pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), aos 26 anos, em outubro daquele ano, e tornar-se um desaparecido político.
A família só recebeu um atestado de óbito em 1996, vinte e três anos depois, mas o documento estava incompleto, sem indicação da causa da morte. O reconhecimento oficial de que Honestino morreu em decorrência de violência sofrida sob custódia do Estado brasileiro só veio com sua anistia, em 20 de setembro de 2013. Seu corpo, até hoje, jamais foi localizado. Em um gesto de reparação histórica, a UnB entregou o diploma póstumo de geólogo à sua família em 2024, revertendo simbolicamente a expulsão sofrida décadas antes.
O filme é construído com dramatizações protagonizadas por Bruno Gagliasso, enquanto o fio condutor da narrativa vem das cartas e dos poemas deixados pelo próprio Honestino e das lembranças de quem conviveu com ele, como Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Betty Almeida, professora aposentada e autora do livro “Paixão de Honestino”. Aurélio Michiles, ex-colega de universidade do líder, define: “Nosso propósito é não deixar o personagem congelado numa fotografia antiga, mas torná-lo tangível, vivo. O ontem é hoje e o hoje pode ser o futuro”. Com isso, devolve a Honestino e à sua família a presença que a história lhes tomou.
O filme tem valor histórico e pedagógico como documento de memória e ferramenta de análise sobre os riscos do autoritarismo. Essa dimensão ganha relevância adicional em um ano eleitoral, na medida em que a obra convida à reflexão sobre o papel da escola, da universidade e do movimento estudantil na defesa da democracia, da justiça social e dos direitos humanos.
Depois de “Marighella”, de Wagner Moura (2021), “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles (2024), e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho (2025), o cinema brasileiro segue revisitando o período da ditadura militar. É esse esforço de dar “vitalidade e atualidade” a uma história de décadas atrás, como resume Michiles, que faz de Honestino um convite a olhar para o presente através da memória de quem dedicou a vida à luta por um país mais justo e democrático.
Ficha técnica: documentário/ficção, 85 minutos, direção e roteiro de Aurélio Michiles (roteiro também assinado por André Finotti), produção de Nilson Rodrigues (Mercado Filmes), distribuição da Pandora Filmes.
Onde assistir: Verifique nos cinemas de sua cidade ou no site da Pandora Filmes ou ingresso.com.
Por Antônia Rangel





