Setembro Amarelo na escola: o que os números dizem sobre o sofrimento psíquico dos trabalhadores da educação

Nesta quinta-feira (10), Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, o Setembro Amarelo chega à sua data mais simbólica em meio a um cenário que os trabalhadores da educação conhecem de perto. Falar de suicídio entre professores e entre técnicos administrativos é reconhecer que o conjunto de quem sustenta o funcionamento das escolas, dentro e fora da sala de aula, vem passando por um processo de adoecimento que tem, na saúde mental, seu capítulo mais silencioso.

Trabalhadores que adoecem mais do que se fala sobre isso

Os estudos disponíveis, apesar de escassos, mostram um cenário preocupante. Uma pesquisa do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina (Sinte-SC), feita em parceria com núcleos de pesquisa da UFSC e divulgada em julho de 2025, mostrou que 28% dos professores da rede estadual catarinense que atravessaram algum sofrimento mental entre 2021 e 2024 relataram ideação suicida no período. O mesmo levantamento associou esse quadro ao desgaste físico e emocional, citado por 83% dos respondentes, e aos conflitos com estudantes, apontados por 68%.

Em Minas Gerais, o retrato não é menos alarmante. O Projeto ProfSMinas, estudo longitudinal sobre as condições de saúde e trabalho de professores da rede estadual, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva no início deste ano, ouviu 1.907 docentes e encontrou uma prevalência de ideação suicida de 5,6%.

A pesquisa aponta maior risco entre homens, professores sem companheiro ou companheira e aqueles com diagnóstico prévio de depressão. O retrato reforça como o sofrimento psíquico docente se acumula sobre vulnerabilidades pessoais já existentes, sem que a escola, como ambiente de trabalho, ofereça amparo.

No plano do sofrimento mental mais amplo, que precede e alimenta o risco de ideação suicida, os números da Apeoesp, sindicato dos professores da rede estadual paulista, também impressionam. Pesquisa divulgada pela entidade em maio deste ano constatou que 97,6% dos profissionais da educação em São Paulo associam algum grau de sofrimento emocional às condições de trabalho. Entre os sintomas mais citados estão ansiedade, síndrome do pânico, depressão e distúrbios do sono. A mesma entidade já havia registrado que mais de 65% dos professores brasileiros afirmam ter sofrido alguma forma de agressão em sala de aula ou no ambiente escolar, um fator que se soma à sobrecarga como gatilho de adoecimento.

Embora sem pesquisas específicas, os técnicos administrativos estão expostos aos mesmos fatores de risco. Tanto entre professores quanto entre técnicos administrativos, jornadas longas, pressão constante e ambientes de trabalho precários vêm produzindo níveis alarmantes de estresse, ansiedade e depressão.

Os técnicos administrativos convivem com sobrecarga em setores como secretaria, finanças, biblioteca, laboratórios, limpeza, manutenção e alimentação escolar, além de assédio moral hierárquico e funcional e da pressão por metas de produtividade, num cenário agravado pelo enxugamento de equipes nas instituições privadas.

O ensino privado e a corrida contra o tempo da NR-1

Em 26 de maio deste ano, entrou em vigor a atualização do Capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas, pela primeira vez de forma expressa, o gerenciamento dos riscos psicossociais relacionados ao trabalho, ao lado dos riscos físicos, químicos e ergonômicos já regulamentados.

Para o setor privado de ensino, a mudança tem peso concreto. Um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), divulgado no fim de 2025 a partir do cruzamento de dados do INSS com o Observatório de Saúde e Segurança do Trabalho, identificou que ansiedade, depressão e reações ao estresse figuram entre as principais causas de afastamento ocupacional e previdenciário de professores.

Segundo o levantamento, na educação infantil a totalidade dos afastamentos por transtorno mental está associada a quadros de ansiedade generalizada e síndromes reativas ao estresse crônico, enquanto entre docentes que atuam em turmas de jovens e adultos do ensino fundamental os afastamentos se dividem entre ansiedade (75%) e depressão (25%). Essa distribuição, segundo os pesquisadores, reflete a complexidade de lecionar para públicos em maior vulnerabilidade social, sem que a estrutura de apoio às escolas acompanhe essa exigência.

A nova redação da NR-1, cuja aplicação é acompanhada de perto pela Contee e por sindicatos filiados, obriga agora as instituições privadas a identificar e registrar esses riscos no Inventário de Riscos Ocupacionais, elaborar planos de ação com medidas concretas de prevenção e garantir a participação dos próprios trabalhadores nesse processo, com direito a anonimato em consultas e pesquisas internas.

Na prática, isso significa que a sobrecarga de trabalho, apontada por 83% dos docentes como principal fator de desgaste segundo o próprio estudo do IESS, deixa de ser tratada como um problema privado de cada trabalhador para se tornar, ao menos no papel, uma responsabilidade que recai também sobre mantenedoras e gestores escolares.

Falar é o primeiro passo, mas não deve ser o único

O Setembro Amarelo tem o mérito de romper, ano após ano, um pouco mais do silêncio que ainda cerca o suicídio. Mas para professores e técnicos administrativos, essa conversa só se sustenta se vier acompanhada de mudanças estruturais nas condições de trabalho: redução de turmas, combate ao assédio institucional, valorização salarial, equipes administrativas dimensionadas com respeito à carga real de trabalho e, agora, a aplicação efetiva da gestão de riscos psicossociais prevista na NR-1.

Cuidar de quem sustenta a escola, em sala de aula ou por trás dela, não é uma pauta de bem-estar corporativo. É condição para que a escola, pública ou privada, continue sendo um lugar onde se pode ensinar e aprender.

Atenção, se você está passando por um momento de sofrimento psíquico, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br.

Por Andressa Schpallir

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