Anatomia do Caos: a CPI da covid como memória coletiva de graça no YouTube

A dica cultural desta semana é o documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira. Depois de treze semanas nos cinemas, o filme ganhou uma janela gratuita: desde 16 de outubro, está disponível na íntegra no YouTube, em uma rede de canais independentes. A exibição vai até domingo, 25 de outubro, dia do segundo turno das eleições presidenciais.

Em abril de 2021, a cineasta baiana, codiretora de Meu Nome é Gal, foi a Brasília e começou a registrar sozinha, com a própria câmera, a rotina da CPI da Covid no Senado. Acompanhou os trabalhos até o relatório final, em outubro daquele ano. Esse acesso aos corredores e bastidores sustenta o primeiro ato. Nos seguintes, o filme recorre a imagens da TV Senado, a reportagens e a relatos de familiares de vítimas. Não há narração nem reconstituição: a imprensa funciona como narradora coletiva, e a aposta está no peso do arquivo.

O que organiza o filme, mais do que a cronologia, é um contador que sobe. Na instalação da comissão, fala-se em quase 400 mil mortos. No depoimento de Nise Yamaguchi, em quase 463 mil. Na sessão de Osmar Terra, em 502 mil. Nos relatos das famílias, em mais de 600 mil. Na cartela final, em mais de 700 mil. A CPI durou seis meses, e o número cresceu junto com ela: a comissão investiga enquanto o país conta.

As cenas que ficam são as da linguagem burocrática produzindo catástrofe. Mandetta descreve um papel sem timbre sobre a mesa de uma reunião no terceiro andar: o rascunho de um decreto presidencial para mudar a bula da cloroquina na Anvisa. Nise Yamaguchi cita a Fundação Henry Ford como prova e ouve de um senador que o estudo foi encerrado sem demonstrar os resultados que ela afirmava. O mesmo senador lembra que, na primeira epidemia de Sars-CoV, em 2003, o tratamento foi isolamento e máscara.

Em Manaus, o filme contrapõe a versão oficial de que o oxigênio faltou por dois ou três dias ao que senadores e testemunhas descreveram, mais de 20 dias de colapso, num estado que chegou a 2 mil mortes por milhão de habitantes. Carlos Wizard responde “permaneço em silêncio” quando lhe perguntam se integra um grupo de empresários que financia campanhas a favor do presidente e com que vacina se imunizou nos Estados Unidos. E há o desfile de blindados no Eixo Monumental, que o filme enquadra como intimidação.

Na frente da corrupção, o caso central é o da Covaxin: 20 milhões de doses, R$ 1,6 bilhão, R$ 80,70 a unidade, quatro vezes o preço da vacina da Fiocruz, e a Precisa Medicamentos como intermediária. É ali que o deputado governista Luiz Miranda conta ter levado ao presidente, ao lado do irmão servidor do Ministério da Saúde, as suspeitas sobre o contrato e, pressionado pelos senadores, confirma o nome que ouviu: o do então líder do governo, Ricardo Barros. Barros nega, e o filme lhe dá espaço: o presidente nunca afirmou nada, diz ele, e não havia o que desmentir. A compra foi suspensa apenas depois das revelações da comissão.

O momento mais duro é o depoimento da advogada Bruna Morato, que representa médicos denunciantes da Prevent Senior. Ela relatou à CPI que, em UTIs, pacientes internados havia mais de dez ou catorze dias teriam a oxigenação reduzida para liberar leitos, e que a expressão repetida era “óbito também é alta”. A operadora nega as acusações.

Depois vêm as famílias, e o filme muda de registro. Filhos que perderam pai e mãe com 14 dias de diferença. Um pai que reconheceu o corpo do filho dentro de um saco e não pôde lhe dar o último abraço. Cruzes de um protesto retiradas e recolocadas por um pai que perdeu o filho de 25 anos. “Ele não era um número”, diz um dos familiares. É aqui que o filme deixa de ser registro político e vira luto coletivo.

A tese de Dandara é que o desastre não foi apenas incompetência: decisões deliberadas e a ausência de respostas adequadas moldaram a crise. É a leitura do relatório final da CPI, aprovado em 26 de outubro de 2021, que pediu o indiciamento de 78 pessoas e duas empresas e atribuiu ao menos nove crimes ao então presidente Jair Bolsonaro, entre eles crimes contra a humanidade. A montagem deixa ver quem sustentou essa tese e quem tentou rebatê-la. Parlamentares governistas acusam a CPI de investigação seletiva e de “palco” eleitoral. Osmar Terra defende suas previsões. Luciano Hang fala em liberdade de expressão. O filho do ex-presidente, hoje candidato no segundo turno, chama de “peça de ficção” a possibilidade de o pai ser indiciado.

Vale registrar o que veio depois, porque é aí que o filme se torna mais desconfortável. A Polícia Federal encerrou o inquérito da Covaxin sem sugerir o indiciamento de Bolsonaro. A PGR pediu o arquivamento de sete apurações preliminares abertas a partir da CPI, e, no caso de Ricardo Barros, o STF arquivou o procedimento a pedido da própria PGR, que não viu elementos mínimos para uma investigação criminal. Os senadores recorreram. Sobre a Prevent Senior, o Ministério Público e a Polícia Civil de São Paulo abriram investigações por suspeitas de homicídio e falsidade ideológica.

O epílogo nomeia os personagens e conta o que foi feito deles. Nise Yamaguchi disputou uma vaga de deputada em 2022 e não foi eleita. Eduardo Pazuello foi eleito, um dos mais votados do Rio. Ricardo Barros foi reeleito. Luiz Miranda, depois de denunciar suspeitas de corrupção, recebeu ameaças e deixou o país com a família. Bolsonaro, derrotado na reeleição de 2022, foi condenado em 2025 a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. A condenação não decorre da pandemia, e essa distinção importa: as conclusões da comissão foram graves e não se converteram em responsabilização criminal pela gestão da crise sanitária. É esse descompasso que a última cartela resume: mais de 700 mil mortos, nenhuma condenação, nenhuma prisão, nenhum pedido de desculpas.

Para a diretora, democracia também é memória, e esquecer uma tragédia não é superá-la. Assistir agora, na semana do segundo turno, é medir a distância entre o que foi apurado e o que foi punido. Anatomia do Caos é um filme sobre o passado e também um aviso. Quem minimizou o vírus, atacou a vacina e ameaçou as instituições, com blindados no Eixo Monumental enquanto a CPI investigava, não pode voltar a ser o rosto do poder. No domingo, vote com a memória de quem não pôde votar. A democracia que esse filme defende só existe enquanto houver quem lute por ela.

Ficha técnica: direção de Dandara Ferreira; Brasil, 2025, lançado em 2026; cerca de 1h29; distribuição Descoloniza Filmes; classificação 12 anos; estreia nos cinemas em 2 de julho de 2026.

Onde assistir: YouTube, gratuito, de 16 a 25 de outubro, nos canais Amado Mundo, ICL Notícias, Mídia Ninja, Cine Ninja, Revista Fórum, Fala Muka, Calma Urgente, Normose e Desaparecidos.

Por Antônia Rangel

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