Outubro Rosa e o direito à saúde das trabalhadoras da educação
O Outubro Rosa nasceu nos Estados Unidos, em 1985, como mês nacional de conscientização sobre o câncer de mama. O laço rosa, símbolo da campanha, passou a ser distribuído pela Fundação Susan G. Komen na Corrida pela Cura, em Nova York, no início dos anos 1990, e se consolidou como marca global a partir de 1992. No Brasil, as primeiras ações ocorreram em 2002, e a campanha foi oficializada pela Lei nº 13.733, de 2018, que prevê atividades anuais em outubro, entre elas a iluminação de prédios públicos em rosa. A cor, porém, só tem sentido se vier acompanhada de políticas que funcionem nos outros onze meses do ano.
Os números mostram a dimensão do problema. O INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026-2028, um risco de 71,57 para cada 100 mil mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o câncer mais incidente entre as brasileiras e causou 20.165 mortes em 2023. Para o câncer do colo do útero, a estimativa é de 19.310 casos novos em 2026, o que reforça a necessidade de manter a vacinação contra o HPV e o rastreamento como políticas permanentes.
A detecção precoce é decisiva, e houve mudança recente na orientação oficial. Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde padronizou o rastreamento populacional no SUS para mulheres de 50 a 74 anos, a cada dois anos, ampliando uma faixa que antes terminava aos 69. As mulheres de 40 a 49 anos não estão impedidas de fazer o exame: a Lei nº 15.284, de 2025, assegura a mamografia a partir dos 40 anos, com periodicidade definida pelas diretrizes do Ministério da Saúde, e o rastreamento por demanda pode ser feito por avaliação com o profissional de saúde. Em 2024, o SUS realizou 4,4 milhões de mamografias. Ampliar a oferta no papel, no entanto, não garante o acesso: o tempo até o resultado, a disponibilidade de equipamentos e a distância do serviço especializado dependem de onde a mulher mora.
É aqui que a saúde encontra a pauta da educação. As mulheres são maioria entre quem trabalha nas escolas. Somente na docência da educação básica, são quase oito em cada dez, 78,8% do total, segundo o Censo Escolar 2025. E as trabalhadoras da educação, em todas as funções, enfrentam um cuidado com a saúde que costuma ficar em segundo plano, com consultas e exames disputando espaço com jornadas extensas, deslocamentos e responsabilidades de cuidado. Quando o adoecimento chega, é tratado como problema individual, embora tenha dimensão coletiva e exija resposta institucional das escolas, das mantenedoras e do poder público.
A saúde de quem trabalha na educação precisa ser tema de negociação coletiva, com pontos como liberação garantida para consultas e exames, sem desconto e sem a obrigação de repor aulas, readaptação funcional com acompanhamento e programas estruturados de saúde ocupacional nas escolas e redes de ensino.
Ao poder público cabe ampliar o investimento no SUS, reduzir o tempo de espera por diagnóstico e fortalecer a atenção básica nos territórios onde as escolas estão. Cabe também garantir perícias médicas ágeis, no INSS e nas juntas médicas oficiais.
Como espaço de circulação de informação, a escola tem ainda um papel a cumprir: pode combater a desinformação sobre exames e tratamentos, em projetos construídos com profissionais da saúde e com as trabalhadoras. A educação não substitui a política de saúde, mas pode ajudar estudantes e famílias na prevenção, a conhecer seus direitos e a saber onde buscar atendimento.
O Outubro Rosa de 2026 acontece num país com cerca de 78,6 mil novos casos por ano. A saúde é direito, não mercadoria, e o cuidado com as trabalhadoras da educação deve ser pauta em todos os meses do ano.
Por Antônia Rangel





