Após perder maioria no parlamento, Netanyahu contesta eleições em Israel e acusa fraude

Lideranças políticas israelenses apontam 'derrota esmagadora' e denunciam tentativa do premiê de deslegitimar resultados; com 90% dos votos apurados, coalizão governista obteve 53 cadeiras, oposição 48 e partidos árabes 19

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, intensificou a contestação dos resultados das eleições legislativas realizadas na terça-feira (27/10), após seu bloco não conquistar as 61 cadeiras necessárias para formar uma maioria no Parlamento israelense (Knesset). O partido governista Likud acusa as legendas que representam os cidadãos palestinos de Israel de terem fraudado a votação, enquanto lideranças da oposição denunciam uma tentativa de deslegitimar o resultado eleitoral.

Com 99% dos votos apurados, o Comitê Central Eleitoral de Israel anunciou que apuração para as eleições parlamentares de 2026 foi concluída. A coalizão de Netanyahu conquistou 53 das 120 cadeiras do Knesset, contra 48 dos partidos de oposição e 19 das legendas árabes.

Cerca de 77,7% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas, foi a maior participação popular desde 1999, segundo a Comissão Central de Eleições. O órgão eleitoral afirmou que os resultados oficiais serão publicados na quarta-feira (04/11), após uma revisão adicional da integridade das eleições.

A participação dos palestinos de Jerusalém Oriental foi a maior desde a ocupação e anexação da parte oriental da cidade por Israel, em 1967. Mais de 10 mil eleitores compareceram às urnas em apoio à Lista Conjunta, triplicando o comparecimento registrado no pleito anterior. Segundo estimativas divulgadas pelo Haaretz, apenas entre 5% e 7% dos palestinos de Jerusalém Oriental possuem cidadania israelense e, portanto, direito a voto nas eleições para o Knesset.

Netanyahu acusa fraude após derrota

Após perder a maioria do Parlamento, Netanyahu divulgou em suas redes sociais um comunicado de seu partido, o Likud, denunciando uma suposta fraude eleitoral envolvendo as legendas árabes. “O caso Ra’amgate é um terremoto. Roubaram as eleições em Israel!”, afirma o texto. O Likud alega que organizações responsáveis pela mobilização do eleitorado árabe teriam recebido recursos estrangeiros, supostamente provenientes do Catar e da Turquia, para influenciar a votação, para promover a “islamização de Israel”. Os governos de ambos os países rechaçaram as acusações.

A legenda também condenou qualquer cooperação com os partidos árabes. “Após a revelação de que entidades estrangeiras tentaram assumir o controle do Knesset, fica claro que nenhum partido sionista deve cooperar com Ra’am e a Lista Conjunta, substituir o presidente do Knesset por meio de votos comprados e formar um governo que seja perigoso para Israel”, diz o texto.

Em discurso realizado na quarta-feira (28/10), Netanyahu defendeu um governo de direita forte e abordou o tema.”É simplesmente proibido colocar Israel em perigo e formar um governo que se baseie em partidos árabes antissionistas”, afirmou. Ele classificou as legendas como “partidos que se opõem à nossa própria existência [de Israel], que veem o Hamas como uma organização de caridade, que chamam nossos soldados de criminosos de guerra”.

A eleição parlamentar foi a primeira no país desde a guerra contra Gaza e considerada um referendo sobre o governo Netanyahu. Sua derrota é agravada pelo fato de a composição do novo Parlamento colocar as legendas árabes no centro das negociações para a formação do próximo governo israelense. A eventual aliança entre a oposição sionista à Netanyahu e os partidos da Lista Conjunta e o Ra’am ameaça diretamente a permanência do premiê israelense no poder.

Oposição sionista

Diante das alegações de fraude levantadas pelo partido de Netanyahu, o presidente do Comitê Central de Eleições e juiz da Suprema Corte, Noam Sohlberg, determinou que o serviço de inteligência interna, Shin Bet, investigasse suspeitas de financiamento estrangeiro e compra de votos durante o processo eleitoral. Anteriormente, o próprio diretor do Shin Bet, David Zini, havia garantindo que o processo eleitoral transcorria normalmente.

A polícia israelense também declarou inicialmente que não existiam provas capazes de sustentar as acusações de fraude eleitoral apresentadas pelo Likud. Posteriormente, no entanto, o comissário Daniel Levy assegurou que “qualquer denúncia recebida e qualquer suspeita de prática de delito relacionado à integridade das eleições será examinada e investigada de forma completa e imparcial”.

O líder do Yashar, Gadi Eisenkot, principal adversário de Netanyahu nas eleições, não se opôs às investigações. “Israel deve fazer tudo ao seu alcance para salvaguardar a integridade das eleições contra qualquer tentativa de interferência, distorção ou manipulação, e investigar minuciosamente todas as denúncias”, declarou. Mas, ponderou: “ao mesmo tempo, não se pode permitir que atores políticos explorem a situação para influenciar a data da posse da 26ª Knesset.”

Já o presidente do partido Democratas, Yair Golan, acusou Netanyahu de tentar desacreditar o resultado das urnas por meio de uma campanha direcionada especialmente contra os eleitores árabes. “Netanyahu sofreu uma derrota democrática esmagadora. O público o demitiu, e ele se recusa a aceitar o veredito dos eleitores”, afirmou em publicação na rede social X. “Agora ele está tentando minar os resultados das eleições por meio de uma campanha repugnante de deslegitimação contra a vontade do público, e contra o público árabe em particular”, acrescentou.

‘Vocês perderam, vão para casa’

O dirigente da Lista Conjunta, Yousef Jabareen, afirmou, que o Parlamento israelense (Knesset) deve tomar posse na data prevista em lei. “Netanyahu foi derrotado nas urnas”, declarou. Ele acusou o premiê israelense de se recusar a aceitar que “o público árabe votou, influenciou e decidiu”.

Jabareen relatou que mais da metade do material de campanha divulgado pelo Likud no dia da votação tinha como alvo os eleitores árabes, inclusive com informações falsas disseminadas com o uso de inteligência artificial. “A Lista Conjunta defenderá a voz e os direitos de seus eleitores e agirá para concretizar a decisão da maioria parlamentar de remover os racistas do poder”, afirmou.

Pela manhã, o dirigente do Balad, Sami Abou Shehadeh, partido integrante da Lista Conjunta, também acusou o premiê israelense de não reconhecer o resultado eleitoral. “Netanyahu e seus parceiros são pessoas perigosas que estão construindo uma narrativa para justificar a recusa em aceitar os resultados de uma das eleições mais decisivas que este país viu em décadas”, declarou.

“Em qualquer democracia funcional, aqueles que perdem uma eleição assumem a responsabilidade e voltam para casa. Em Israel, o lado perdedor fabrica uma calúnia racista e incita as agências de segurança a usar a força para anular os resultados da eleição”, afirmou. Shehadeh, que foi impedido de disputar as eleições pelo Comitê Central de Eleições, alertou ainda para o risco de novas eleições serem convocadas com base em acusações infundadas: “vocês perderam, vão para casa”.

Em paralelo, quatro ativistas do Ra’am foram presos pelas forças israelenses sob suspeita de oferecerem dinheiro em troca de votos. A legenda confirmou que os detidos eram integrantes do partido mas rechaçou qualquer acusação.

As conclusões da investigação serão apresentadas no prazo de uma semana, antes de 4 de novembro, data-limite prevista pela legislação israelense para a certificação dos resultados.

Fonte
Opera Mundi

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