Brô MC´s, o rap indígena que fala em primeira pessoa

A dica cultural desta semana é o Brô MC’s, considerado o primeiro grupo de rap indígena do Brasil. O grupo foi criado oficialmente em 2009 por quatro indígenas Guarani-Kaiowá: Bruno Veron (Bruno VN), Clemerson Batista (Tio Creb), Kelvin Peixoto (Kelvin Mbaretê) e Charlie Peixoto (CH). Eles vivem nas aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados (MS), e formam duas duplas de irmãos. O nome vem de brothers: nas palavras de Kelvin, são todos irmãos.

A história começa em 2006. Na Escola Municipal Indígena Araporã, o diretor pediu aos alunos um trabalho sobre meio ambiente fora dos moldes acadêmicos. Bruno respondeu rimando guarani e português ao ritmo do hip hop. Os integrantes conheceram o gênero por um programa de rádio e, em 2009, formaram o grupo. Bruno conta que as lideranças da aldeia não aceitaram o rap de início, até entenderem que as letras tratam da realidade dos povos indígenas.

As músicas alternam guarani e português e abordam demarcação de terras, afirmação da identidade indígena, drogas e álcool nas aldeias e os altos índices de suicídio. O contexto é concreto: o líder guarani-kaiowá Marcos Veron, referência da família de Bruno e Clemerson, foi assassinado em 2003 por causa da questão fundiária. “Lutamos pelo direito de existir”, resume Bruno.

Em 2022, o grupo lançou o EP Rap Indígena, que reúne faixas como Eju Orendive, e o single Demarcação, em parceria com a cantora Marina Peralta. O clipe de Koangagua (nos dias de hoje), lançado em 2015 e cantado totalmente em guarani, é um dos mais conhecidos. Em 2024, o grupo gravou Jarahá (vamos levando, em guarani) em O Futuro é Ancestral, álbum do DJ Alok que reúne artistas de oito etnias.

O álbum mais recente é Retomada, primeiro disco de estúdio do grupo, lançado nas plataformas em 8 de agosto de 2025, na véspera do Dia Internacional dos Povos Indígenas. Tem nove faixas, cerca de 90% das letras em guarani-kaiowá, e integra a coleção Som Nativo, do Instituto Alok. O título remete às retomadas, as ocupações indígenas de terras ancestrais. O disco trata de luta pela terra, preservação cultural e resistência.

O grupo já subiu a palcos de peso. Em setembro de 2022, foi o primeiro grupo de rap indígena a se apresentar no Rock in Rio, no palco Sunset, a convite do rapper Xamã. Em março de 2024, fez show no Grammy Museum, em Los Angeles, na pré-estreia do álbum O Futuro é Ancestral. Em novembro do mesmo ano, estreou no Grammy Latino, em Miami, apresentando Jarahá ao lado do DJ Alok. Em julho de 2026, participou da faixa OKE, que encerra o álbum Equilibrivm II, de Anitta, ao lado da rapper indígena Katú Mirim. Em 2026, o grupo completa 17 anos desde a formação oficial.

A dica chega em um momento de intensificação da ofensiva contra os povos indígenas no Brasil, no contexto do processo eleitoral. A pressão sobre territórios tradicionais, os ataques a direitos garantidos pela Constituição e a tentativa de deslegitimar a demarcação de terras colocam as comunidades Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul entre as mais atingidas do país, em um estado marcado por conflitos fundiários e por violência no campo. Nesse cenário, o rap do Brô MC’s funciona como registro e como denúncia. As letras nomeiam o que a violência tenta tornar invisível e devolvem aos jovens indígenas um lugar de fala próprio, sem intermediação.

Para as trabalhadoras e os trabalhadores da educação, o Brô MC’s é material de sala de aula. Permite trabalhar língua guarani, história dos povos originários, território e juventude a partir de uma linguagem que os estudantes já consomem. São artistas que falam em primeira pessoa, e levar essa voz para a escola é uma escolha pedagógica e política.

Onde ouvir

Retomada e os demais álbuns da coleção Som Nativo estão nas plataformas de streaming. Os clipes, como Koangagua, estão no YouTube.

Por Antônia Rangel

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