Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas: o futuro é ancestral

Neste 7 de fevereiro, o Brasil é chamado a silenciar para escutar a terra, os rios, as florestas e as vozes ancestrais que sustentam a história dos povos originários. Celebrar o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas é reconhecer que a existência indígena sempre foi, e continua sendo, um ato permanente de resistência.

A data foi instituída em 2008 em memória de Sepé Tiaraju, liderança guarani assassinada em 1756, na região das Missões, ao enfrentar os colonizadores portugueses e espanhóis. Seu corpo tombou, mas sua luta permaneceu. Sepé tornou-se semente, símbolo de um povo que jamais aceitou ser arrancado de sua terra, de sua língua, de sua espiritualidade e de sua forma própria de existir no mundo.

Hoje, quase três séculos depois, essa luta segue viva. Em 2026, os povos indígenas enfrentam desafios urgentes. A demarcação de terras, a defesa dos territórios contra invasões, grilagem e mineração ilegal, o enfrentamento ao desmatamento e às mudanças climáticas, além da ampliação da representação política nos espaços de poder, seguem no centro das reivindicações. A pressão dos interesses econômicos aprofunda vulnerabilidades e ameaça modos de vida que, há milênios, ensinam ao Brasil como cuidar da vida.

Nesse cenário, a criação do Ministério dos Povos Indígenas representa uma conquista histórica. À frente da pasta, a ministra Sonia Guajajara fortalece a presença indígena na formulação das políticas públicas, atuando na proteção territorial, na gestão ambiental e na valorização das línguas, culturas e saberes tradicionais. É a política sendo reconstruída a partir da ancestralidade.

Mas a luta indígena não se escreve apenas em decretos, leis e relatórios. Ela também se escreve em versos.

Na poesia Silêncio Guerreiro, a escritora, ativista e educadora indígena Márcia Kambeba traduz, em palavras, a sabedoria que atravessa gerações:

Silêncio Guerreiro
Márcia Kambeba

No território indígena
O silêncio é sabedoria milenar
Aprendemos com os mais velhos
A ouvir, mais que falar.

No silêncio da minha flecha
Resisti, não fui vencido
Fiz do silêncio a minha arma
Pra lutar contra o inimigo.

Silenciar é preciso,
Pra ouvir com o coração
A voz da Natureza,
O choro do nosso chão.

O canto da mãe d’água
Que na dança com o vento
Pede que a respeite
Pois é fonte de sustento.

É preciso silenciar
Para pensar na solução
De frear o homem branco
E defender o nosso lar
Fonte de vida e beleza
Para nós, para a nação.

Mulher Ticuna, nascida em território indígena, mestre em Geografia, doutoranda em Linguística pela Universidade Federal do Pará, poeta, ensaísta, fotógrafa e ouvidora da capital paraense, Márcia Kambeba constrói uma trajetória marcada pela força do conhecimento. Sua obra revela que a expressão indígena transcende a arte. É denúncia, memória, identidade e projeto de futuro.

Quando escreve “Resisti, não fui vencido”, sua voz carrega a força coletiva de uma nação inteira. O silêncio que ela convoca não é submissão. É escuta profunda e preparação para a luta. É o silêncio que antecede a defesa do território, da vida e da dignidade.

Nesse mesmo caminho, o pensador indígena Ailton Krenak, imortal da Academia Brasileira de Letras, afirma que o futuro é ancestral. Para ele, não há saída para a crise ambiental, social e civilizatória sem ouvir os povos que aprenderam, ao longo de milênios, a viver sem destruir. A lógica do consumo e da exploração, que ameaça florestas e comunidades, precisa ser substituída por uma ética do cuidado, do pertencimento e da coletividade.

O futuro, ensina Krenak, não está na ruptura com o passado, mas na reconexão com ele.

Celebrar o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas é reafirmar um compromisso com a vida. É reconhecer que os povos originários são guardiões da memória, da biodiversidade e da esperança.

Quando um território é demarcado, uma floresta respira.
Quando uma cultura é respeitada, uma sociedade se humaniza.
Quando um povo é ouvido, o país amadurece.

Neste 7 de fevereiro, a Contee se soma a essa luta, em defesa dos direitos, da democracia, da justiça social e da dignidade humana. A entidade reafirma que não há educação libertadora nem futuro sustentável sem o reconhecimento pleno dos povos originários.

Que o silêncio guerreiro de Márcia, a lucidez de Krenak e a coragem de Sepé sigam ecoando, como rios que nunca deixam de correr, na construção de um Brasil mais justo, plural e verdadeiramente ancestral.

Da Redação Contee

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