Do Brasil para o mundo: trabalhadores de 23 países na luta contra a informalidade
Encontro internacional na sede da CUT debate direitos, precarização e estratégias de organização coletiva no mundo do trabalho
Trabalhadores informais de 23 países se reuniram nesta segunda-feira (2), em São Paulo, para compartilhar experiências e fortalecer a organização coletiva diante da precarização do trabalho.
O encontro, realizado na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), contou com a participação de catadores, ambulantes, motoristas e entregadores por aplicativo, além de trabalhadoras domésticas e em domicílio, evidenciando que a informalidade é um fenômeno global e estruturante da economia.
Os debates mostraram que os desafios da informalidade vão muito além da ausência de contratos formais: envolvem desigualdades de gênero, insegurança social e falta de reconhecimento político e econômico. Para os participantes, a negociação coletiva e a articulação internacional são instrumentos essenciais para transformar direitos em realidade concreta.
Informalidade em números
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que mais de 2 bilhões de pessoas — cerca de 60% da força de trabalho mundial — vivem na informalidade. Em algumas regiões da África e da América Latina, esse índice ultrapassa 80%.
No Brasil, aproximandamente de 40 milhões de trabalhadores atuam na informalidade, pouco mais de 43% da força de trabalho. Segundo o IBGE, 6 em cada 10 brasileiros que trabalham por conta própria estão na informalidade, evidenciando a dimensão do fenômeno. Apenas no trabalho doméstico, são aproximadamente 7 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres negras. Outros grupos, como ambulantes e trabalhadores por aplicativos, ainda carecem de levantamento oficial, reforçando a invisibilidade estatística do setor.
Vozes que denunciam a precarização
Lucía Fernández, da Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing (WIEGO), ressaltou que as mulheres são maioria no trabalho informal e destacou a importância da articulação internacional: “As interfaces entre os níveis local, nacional e internacional são fundamentais para fortalecer o movimento dos trabalhadores”.
Cida Marcondes de Oliveira,da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), chamou atenção para a dificuldade de organizar trabalhadores que atuam em domicílios privados: “Não é impossível, mas é muito difícil”.
Gilson Negão, da União Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Unicab), enfatizou sobre o peso econômico da informalidade: “Nós geramos a economia e as pessoas não nos respeitam. Só queremos direito ao trabalho e à vida”.
Carina Trindade, presidenta do Sindicato dos Motoristas por Aplicativo do Rio Grande do Sul, abordou os desafios específicos das mulheres na categoria, incluindo assédio e violência: “Somente mulher pode falar por mulher. Queremos continuar trabalhando, mas com respeito”.

Unidade como estratégia
A experiência da Intersetorial Nacional brasileira, que reúne diferentes categorias da economia informal, foi apresentada como exemplo de articulação bem-sucedida. Para Edileuza Guimarães, presidenta da Associação de Trabalhadores em Domicílio (ATEMDO), a união de setores distintos tem permitido avanços importantes, mesmo que lentamente: “Para nós, trabalhadores sem direitos, tudo é muito demorado”. Entre as conquistas, estão a criação de uma mesa interministerial e da Frente Parlamentar em Defesa dos Trabalhadores da Economia Informal.
Solidariedade global e democracia
Claire Ruppert, diretora adjunta do Escritório de Atividades dos Trabalhadores (ACTRAV) da Organização Internacional do Trabalho (OIT), reforçou a dimensão humana da informalidade: “Esses números não são abstratos. Eles têm rosto, têm história, têm nome. Sem organização coletiva, trabalhadores e trabalhadoras permanecem invisíveis. Sem solidariedade, não há poder para transformar direitos em realidade”.
Mirai Chatterjee, presidenta do Conselho da WIEGO, compartilhou cinco décadas de experiência em sindicatos e cooperativas de mulheres: “Elas se tornam donas do próprio trabalho, gestoras do próprio negócio”.
Iván González, da Confederação Sindical das Américas, alertou para a ligação entre precarização e retrocessos democráticos: “Se os sindicatos mais fortes não abrirem espaço para quem hoje não consegue negociar direitos, não haverá avanço real”.
Mística e visibilidade
O encontro também contou com uma mística do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos, reunindo relatos de catadores, ambulantes e trabalhadoras do cuidado. A intervenção expôs a invisibilidade, os riscos e a precarização enfrentados diariamente. Em coro, os participantes afirmaram: “Não somos invisíveis”, transformando a experiência cotidiana em resistência coletiva.
Contee: debater a informalidade é urgente
Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), colocar a informalidade e a precarização no centro do debate é essencial. A entidade ressalta que ataques trabalhistas, desigualdades e ausência de políticas efetivas atingem milhões de trabalhadores e também impactam o setor da educação.
“A informalidade não é apenas um problema econômico, é social e político. Discutir esses temas é fundamental para avançar na construção de direitos universais e garantir justiça social”, afirma a Contee.

Com informações da CUT
Por Romênia Mariani




