Educação ambiental e justiça: sete anos de Brumadinho, a lama ainda devasta famílias
No Dia Mundial da Educação Ambiental, a tragédia ainda fere: impactos sociais, econômicos e ambientais persistem, reforçando a urgência de educação crítica e de leis mais rígidas para prevenir novos desastres
Celebrado em 26 de janeiro, o Dia Mundial da Educação Ambiental propõe uma reflexão sobre a relação entre sociedade e natureza, a proteção dos bens comuns e a responsabilidade coletiva frente aos impactos do modelo de desenvolvimento predatório vigente no país.
No Brasil, a data ganha um significado ainda mais forte ao se conectar à memória do crime ambiental de Brumadinho, que completou sete anos ontem, e ainda causa dor, adoecimento, sangra injustiça.
Em 25 de janeiro de 2019, o rompimento da barragem da Vale na Mina Córrego do Feijão matou 272 pessoas, destruiu comunidades inteiras e contaminou a bacia do Rio Paraopeba. Sete anos depois, o que se vê é uma realidade marcada pela reparação lenta, pela persistência da contaminação ambiental, por perdas econômicas vultosas e por uma população que segue traumatizada.
Dados divulgados no fim de 2025 por uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) confirmam aquilo que os atingidos relatam há anos: 70% dos domicílios de Brumadinho registraram algum tipo de adoecimento físico ou mental após a tragédia. Ansiedade, depressão, estresse crônico, insônia e hipertensão tornaram-se parte da rotina. Mais da metade da população adulta precisou recorrer a atendimento psicológico ou psiquiátrico desde o rompimento.
O sofrimento não se limita ao município onde ocorreu o crime. Comunidades ribeirinhas ao longo do Rio Paraopeba tiveram seus modos de vida interrompidos. A impossibilidade de pescar, plantar ou criar animais, somada ao medo constante da contaminação da água e do solo, desestruturou economias familiares, hábitos alimentares e vínculos sociais. Em muitos casos, a insegurança ambiental se converteu em transtornos de saúde mental crônicos.
À dimensão humana soma-se o impacto econômico. Estimativas indicam que Brumadinho poderá deixar de gerar bilhões de reais em riqueza no longo prazo, mesmo após o acordo de reparação firmado em 2021. Pequenos produtores rurais perderam mercados, o custo de vida aumentou e programas emergenciais de renda, criados para mitigar os danos imediatos, foram encerrados sem que a reparação integral tivesse sido efetivamente concluída.
Para as famílias que perderam seus entes queridos, a dor se mistura à sensação de revolta diante da impunidade. Sete anos depois, ninguém foi preso. O processo judicial avança lentamente, enquanto mães, pais, irmãos e filhos continuam convivendo com o luto e a ausência. Para essas pessoas, não há compensação financeira capaz de reparar a perda de uma vida. A única reparação possível é a responsabilização efetiva dos culpados.
Essa discussão se torna ainda mais premente com o novo episódio ocorrido em Minas Gerais, justamente no sétimo aniversário do desastre de Brumadinho. Na madrugada de 25 de janeiro de 2026, um dique pertencente à Vale se rompeu no distrito de Pires, na divisa entre os municípios de Congonhas e Ouro Preto, provocando uma enxurrada de lama que atingiu construções e instalações industriais da região.
O vazamento aconteceu nas primeiras horas da manhã. Os rejeitos avançaram rapidamente sobre áreas mais baixas, invadindo oficinas, almoxarifados e estruturas operacionais. Em alguns pontos, a lama alcançou cerca de um metro e meio de altura, interrompendo atividades e gerando pânico entre trabalhadores e moradores. Como medida preventiva, aproximadamente 200 pessoas foram evacuadas, e houve relatos de pessoas temporariamente ilhadas até a chegada das equipes de resgate.
Apesar de não haver registro oficial de vítimas até o momento, o episódio reacendeu o medo coletivo e trouxe à tona memórias ainda recentes. Defesas Civis municipais, órgãos estaduais e equipes técnicas foram mobilizados para monitorar a situação e avaliar riscos, enquanto se aguardam esclarecimentos da mineradora sobre as causas do rompimento e a extensão dos danos ambientais e materiais.
O caso também evidencia a complexidade territorial da região da Serra dos Pires, onde limites administrativos historicamente sobrepostos fazem com que impactos da mineração atinjam simultaneamente diferentes municípios e populações. Mais do que um detalhe cartográfico, essa sobreposição amplia os desafios de fiscalização, prevenção e responsabilização.
O que mais chama atenção é o fato de o novo rompimento ocorrer exatamente no período em que o país relembra Brumadinho, evidenciando que, mesmo após uma das maiores tragédias socioambientais da história brasileira, o modelo mineral segue operando sob estruturas frágeis, fiscalização insuficiente e riscos recorrentes.
Diante desse cenário, o Dia Mundial da Educação Ambiental não pode se limitar a discursos simbólicos. Ele precisa ser entendido como um instrumento de transformação social. Educação ambiental é formar cidadãos críticos, capazes de compreender que a natureza não é mercadoria, que rios não são depósitos de rejeitos e que comunidades não podem ser sacrificadas em nome do lucro. É também fortalecer a participação popular, exigir transparência e defender leis mais rígidas, fiscalização permanente e punições exemplares para crimes ambientais.
Brumadinho ensina, com dor, que os impactos de um crime ambiental não se encerram no momento do rompimento. Eles atravessam anos, adoecem territórios, destroem economias e corroem a confiança nas instituições. Sete anos depois, a lama já não ocupa o mesmo espaço nas manchetes, mas invade novos cenários, segue presente no corpo, na mente e na memória de milhares de pessoas.
Reafirmar a educação ambiental neste 26 de janeiro é reiterar o compromisso com a memória, a justiça e a vida. Sem educação crítica, sem responsabilização e sem mudança estrutural, a lama continuará devastando sonhos, aniquilando direitos e destruindo famílias e comunidades inteiras.
Com informações de agências
Por Romênia Mariani





