Em busca de Iara
A dica cultural desta semana é o documentário Em Busca de Iara, de Flávio Frederico. Em 91 minutos, o filme reconstitui a trajetória de Iara Iavelberg (1944-1971), psicóloga e professora universitária nascida em uma família judia tradicional de São Paulo, que deixou o conforto e a carreira para aderir à luta armada contra a ditadura nos anos 1960. Iara integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e tornou-se companheira de Carlos Lamarca.
A força do filme está no ângulo de investigação pessoal: o roteiro é assinado por Mariana Pamplona, sobrinha de Iara, que divide a produção com o diretor. Essa proximidade familiar dá ao documentário um tom que foge do relato histórico distante. Imagens de arquivo, documentos e depoimentos de familiares, amigos e companheiros de militância se organizam como uma linha do tempo e uma investigação que tenta reabrir um caso que o Estado deu por encerrado.
E é exatamente esse o núcleo do filme: contestar a versão oficial de que Iara, morta em 20 de agosto de 1971 em Salvador, teria cometido suicídio, tese que a família sempre rejeitou. Com base em perícia, documentos e depoimentos, o documentário defende que ela foi assassinada por agentes da repressão. Em 2003, a exumação do corpo levou o legista Daniel Muñoz a concluir que a hipótese de suicídio era improvável, um dado que reforça o questionamento que o filme sustenta.
Lançado em 2013 e exibido nos cinemas em março de 2014, quando se completavam 50 anos do golpe de 1964, o documentário recebeu menção honrosa na competição de longas-metragens brasileiros do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, foi exibido no Festival do Rio, na mostra Première Brasil, e integrou o FIPA, festival internacional de programas audiovisuais de Biarritz, na França. Para quem quiser conferir, está disponível gratuitamente na Tela Brasil, plataforma pública de streaming do audiovisual brasileiro mantida pelo governo federal, com acesso pela conta gov.br.
Neste ano, a morte de Iara completa 55 anos. E é impossível assistir ao filme sem notar o quanto ele fala do presente: a democracia brasileira, reconquistada com a Constituição de 1988, é uma conquista recente e ainda em construção. Direitos como o voto, a organização sindical e a livre manifestação foram assegurados contra a violência do Estado. Por isso, a obra é uma ótima oportunidade de aproximar as novas gerações de uma página da história nacional que não pode ser esquecida.
Rever a história de Iara a poucos dias das eleições gerais de 4 de outubro, num país onde as narrativas sobre esse passado seguem em disputa, não é coincidência: é lembrar que o compromisso com a verdade, a justiça e a memória é um valor que se renova a cada eleição e que depende da participação consciente de cada eleitora e de cada eleitor.
Ficha técnica
Documentário; Brasil, 2013; direção de Flávio Frederico; roteiro de Mariana Pamplona; produção de Flávio Frederico e Mariana Pamplona, pela Kinoscópio; fotografia de Carlos André Zalasik; montagem de Vítor Alves Lopes e Flávio Frederico; música de Jonas Tatit; duração de 91 minutos; classificação indicativa de 12 anos.
Por Antônia Rangel





