Feminicídios no CEFET-RJ e a violência estrutural silenciada pela imprensa
Os assassinatos de duas servidoras do CEFET-RJ, no campus Maracanã, revelam uma ferida profunda que atravessa a educação brasileira: a violência de gênero naturalizada nos ambientes de trabalho e a dificuldade das instituições e da imprensa em reconhecer sua dimensão estrutural. O que ocorreu não é um fato isolado; é expressão de um padrão que ainda autoriza, silenciosamente, que mulheres sejam eliminadas quando ocupam posições de liderança, quando afirmam sua autonomia ou quando contrariam expectativas baseadas no controle e na obediência.
No dia 28 de novembro de 2025, Allane de Souza Pedrotti Mattos, diretora da Divisão de Acompanhamento e Desenvolvimento de Ensino, e Layse Costa Pinheiro, psicóloga da instituição, foram assassinadas a tiros por um colega de trabalho. Em seguida, o agressor tirou a própria vida. O crime ocorreu dentro de uma instituição federal tradicional, em pleno horário de expediente, provocando medo, pânico e profunda tristeza entre estudantes e trabalhadores.
A dimensão de gênero desse crime não pode ser apagada. Diversos relatos nas redes, incluindo análises de especialistas e jornalistas, apontam que o agressor não aceitava ser chefiado por uma mulher. Esse dado, por si só, evidencia o caráter de feminicídio: a violência cometida contra mulheres pelo fato de serem mulheres, dentro de uma estrutura social que, historicamente, ensinou que o corpo feminino pode ser punido quando desafia o controle masculino. Não se trata de crime passional, nem de reação individual; trata-se da reprodução de uma cultura patriarcal arraigada, que se expressa de forma extrema quando mulheres ocupam cargos de poder.
A jornalista Cristina Fibe chamou atenção para outro aspecto preocupante: a forma como a imprensa cobriu o crime. O principal jornal do Rio não mencionou os assassinatos na capa e relegou a matéria a um rodapé da editoria local, com título em voz passiva e sem nomear o feminicídio. Outro grande jornal do país dedicou apenas três linhas ao caso. Essa escolha editorial não é neutra. Invisibilizar a violência contra mulheres significa reforçar a lógica de que esses crimes são pontuais, inevitáveis ou desprovidos de contexto, quando na verdade são expressão de um problema estrutural que exige resposta pública urgente.
A violência que matou Allane e Layse também revela fragilidades nas políticas de proteção às mulheres nos locais de trabalho. A educação, espaço que deveria promover direitos, igualdade e emancipação, não está imune à misoginia, ao assédio, à violência psicológica e, como vimos, à violência letal. Ignorar esse recorte impede que escolas, institutos e universidades construam ambientes realmente seguros, democráticos e capazes de prevenir agressões.
Por isso, é fundamental que o CEFET-RJ e todas as instituições educacionais assumam responsabilidade institucional diante do ocorrido. Isso significa implementar protocolos claros de prevenção ao assédio e à violência de gênero, garantir canais de denúncia eficazes, acolher servidoras e estudantes, formar equipes para lidar com conflitos e rever práticas hierárquicas que permitam que comportamentos misóginos se mantenham sem enfrentamento.
Como entidade sindical nacional, a CONTEE reafirma que não há democracia, igualdade ou qualidade na educação enquanto mulheres seguirem expostas a ambientes de risco, vulnerabilidade e silenciamento. O feminicídio é a expressão extrema de uma cadeia de violências que começa no cotidiano: no desrespeito, no descrédito da autoridade feminina, na naturalização do assédio moral e na tentativa de reduzir mulheres a funções subalternas.
Allane e Layse não podem ser lembradas apenas pela violência que sofreram. Suas mortes devem mobilizar o país a enfrentar com seriedade a misoginia estrutural que atravessa as instituições públicas e privadas de ensino. Nomear o feminicídio, reconhecê-lo enquanto fenômeno social e exigir políticas de prevenção e proteção são passos indispensáveis para que nenhuma mulher trabalhadora, estudante ou gestora tenha sua vida ameaçada por exercer sua autonomia ou sua autoridade.
A CONTEE presta solidariedade às famílias, colegas, estudantes e à comunidade do CEFET-RJ e reitera sua luta por ambientes de trabalho seguros, igualitários e livres de violência contra as mulheres.
Por Antônia Rangel





