Flávio Bolsonaro, o candidato que entrega o Brasil aos EUA
Falas próprias revelam uma pré-candidatura que vende a soberania nacional, defende pressão externa contra o Brasil e ofende as instituições
A partir do encadeamento das próprias declarações, o perfil que emerge do pré-candidato à presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, é o de um ator político marcado por pragmatismo. Para ele, a soberania nacional não tem valor e aparece como moeda de negociação, combinada a uma dependência de legitimação externa — especialmente na busca de apoio dos Estados Unidos — e a uma visão geopolítica hierárquica, que aceita o Brasil como subalterno.
Ao mesmo tempo, internamente, revela personalidade forte e hostil contra as instituições nacionais, sobretudo ao STF (Supremo Tribunal Federal) e a figuras como o ministro Alexandre de Moraes, sempre com uma disposição retórica para soluções de exceção, como o “uso da força”, como instrumentos legítimos da ação política.
Pelas declarações públicas, Flávio Bolsonaro desenha um percurso que dispensa interpretações: ele mesmo explica como imagina o exercício do poder e, sobretudo, como enxerga o lugar do Brasil no mundo.
No palco da CPAC, no Texas, em março de 2026, diante da plateia da direita norte-americana, ele pediu intervenção nas eleições. “o que nós queremos agora é que os Estados Unidos façam pressão diplomática para que as eleições brasileiras sejam ‘livres’ (SIC)”. E insistiu: “Precisamos de pressão diplomática dos Estados Unidos dentro do Brasil”. Não se trata de um comentário lateral, mas de uma formulação reiterada: “que aplique pressão diplomática para que as nossas instituições voltem a funcionar adequadamente”.
O convite foi explícito: “Monitorem a liberdade de expressão do nosso povo”. Ou seja, ele difama a higidez das eleições nacionais e despreza a correção do sistema eleitoral e das instituições que o diplomaram como deputado e senador.
A construção se completa com o entreguismo. No mesmo evento, apresentou o país como um ativo estratégico para a política externa de Donald Trump: “o Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”. A ênfase geopolítica foi clara: “sem esses componentes, a produção do sistema militar avançado que mantém a superioridade norte-americana cai nas mãos dos adversários”. Concluiu elevando o argumento à escala global: “quando os Estados Unidos ficam vulneráveis, todo o mundo livre fica vulnerável”. O Brasil, nesse raciocínio, não é um sujeito soberano, mas um fornecedor de segurança estratégica para outra potência.
Essa lógica de troca — apoio externo por interferências internas — reaparece de forma direta nas redes sociais em dezembro de 2025. Ao comentar a política tarifária de Trump, Flávio escreveu: “Presidente Donald Trump faz um gesto gigantesco pela anistia no Brasil… um primeiro passo para que a relação Brasil/EUA volte à normalidade democrática”. Ele amarrou a consequência desejada sem rodeios: “vamos votar o projeto de lei da anistia… e, sendo aprovada, não tenho dúvidas de que os EUA retirarão totalmente as sobretaxas dos produtos brasileiros. A bola está com a gente”. A frase sintetiza o mecanismo: a chantagem pela anistia a Jair Bolsonaro vinculada a um alívio tarifário de uma potência estrangeira.
O desrespeito às instituições
Quando o tema é o Supremo Tribunal Federal, o tom torna-se de confronto. Em entrevistas e declarações públicas em 2025, ao projetar cenários onde decisões do Congresso fossem barradas pela Corte, ele afirmou: “estamos falando da possibilidade de uso da força, de interferência direta entre os Poderes”. A provocação à legitimidade física e institucional dos magistrados também é recorrente. Em falas gravadas, o senador já questionou: “O que é o STF? Tira o poder da caneta da mão de um ministro… o que ele é na rua? Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter manifestação popular?”.
Em atos públicos do bolsonarismo, com a bandeira norte-americana presente, como o ocorrido em Copacabana em 2025, o discurso manteve a direção. Diante de apoiadores, afirmou sobre Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Bolsonaro e outros pela tentativa de golpe: “ele tem traços de psicopatia”. No mesmo ato, reafirmou o objetivo central de afrontar uma decisão judicial: “o texto que nós vamos apresentar vai ser para anistiar todos aqueles perseguidos… nós não vamos admitir uma anistia que não atenda também o presidente Bolsonaro”.
Em entrevistas à imprensa em 2025, ao comentar pressões externas, recorreu a uma analogia extrema: “se você olhar para a Segunda Guerra Mundial, o que os Estados Unidos fizeram com o Japão? Lançam uma bomba atômica em Hiroshima para demonstrar força… depois uma segunda bomba em Nagasaki”. Concluiu: “essa situação tem que ser encarada como uma negociação de guerra… cabe a nós evitar que caiam duas bombas atômicas aqui no Brasil”. A fala descreve o Brasil como a parte fraca que deve ceder para evitar a aniquilação.
Essa naturalização da submissão aparece até em interações informais. Em 2025, ao comentar uma operação envolvendo forças dos EUA contra o tráfico marítimo, Flávio escreveu: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro… você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando?”. Embora coloquial, a frase sugere que forças estrangeiras poderiam atuar em território nacional, ignorando as Forças Armadas brasileiras.
O conjunto dessas declarações forma um padrão coerente: o pedido de interferência estrangeira, a oferta de minérios para fins militares estrangeiros de potência externa, a barganha tarifária pela anistia e a cogitação do uso da força contra o Judiciário. O 01 de Jair Bolsonaro apresenta o Brasil como um objeto passível de ser usado como moeda de troca desde que o clã Bolsonaro assuma o poder.
Ao fim, resta o choque com a realidade institucional: ao assumir o cargo, o presidente-eleito deve prestar o compromisso constitucional previsto no Artigo 78, jurando “manter, defender e cumprir a Constituição” e “sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”. É a Soberania Nacional, inscrita como o primeiro dos fundamentos da República no Artigo 1º, inciso I, que o mandatário deve proteger. É sobre esta Constituição, e não a dos Estados Unidos, que se presta o juramento.
Por Davi Molinari





