Machismo na CPI da Covid: a saga das senadoras para participarem e serem ouvidas

Silenciadas, interrompidas ou taxadas como “nervosas”; o comportamento que desqualifica as mulheres na CPI é comum

Os 11 titulares e os sete suplentes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid são todos homens. As senadoras que eventualmente intervêm podem se manifestar, mas não têm o poder decisório. Essa prerrogativa foi estabelecida após um acordo entre os senadores.

Na ocasião, Ciro Nogueira (PP-PI) se opôs à participação das senadoras. Ele afirmou que se foi um erro das lideranças não indicarem as mulheres, “a culpa não é nossa”.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS), líder da bancada feminina no Senado, enfrentou o senador: “Privilégios são inadmissíveis e as mulheres nunca irão pleitear, prerrogativa é diferente. Pedimos ao plenário desta comissão ontem para ter direito de fala na lista dos titulares e dos suplentes”.

Ainda, das vezes que participam, no entanto, a CPI da Covid se transforma na CPI do Machismo, como bem explicitou recentemente a historiadora Lilia Schwarcz.

A seguinte cena tornou-se comum: uma senadora está falando e, antes mesmo de terminar, é interrompida por outro senador, que passa a explicar a mesma ideia. Em outras ocasiões, quando uma senadora discursa com um tom de voz um pouco mais alto, logo é taxada de nervosa, agressiva e rude.

Nas palavras de Maíra Kubik, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), esse comportamento dos homens em relação às mulheres não é alheio à sociedade, uma vez que dela fazem parte, nem às questões de gênero. Pelo contrário, partem de um lugar e se configuram como um padrão, já que estruturam as relações de gênero.

“Isso é bem comum em qualquer espaço da política institucional. Por trás disso há uma disputa pelo poder e pelo protagonismo. E, então, a maneira de colocar as mulheres em uma posição hierarquicamente inferior é essa: interromper, fazer pouco caso do que estão dizendo, apelar para discursos biologizantes, como atribuir uma característica de nervosismo, visto como um descontrole que seria típico das mulheres”, explica Kubik.

A quantidade de exemplos desse comportamento é vasta. Ainda em abril, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que também não faz parte da composição fechada da comissão, desqualificou o trabalho realizado pelas senadoras.

“Acho que as mulheres já foram mais respeitadas e mais indignadas, né? Estão fora da CPI e não fazem nem questão de estar nela, se conformam em acompanhar os trabalhos à distancia”, afirmou o senador.

Em resposta, Eliziane Gama (Cidadania-MA) disse que nenhuma das senadoras irão aceitar “ironia machista”. “Estamos aqui, vamos participar ativamente e teremos o nosso protagonismo nesta Casa. Nenhum homem, nem aqui e em lugar nenhum, enquanto houver as mulheres presentes, que, aliás, são a maioria da população brasileira, vai tentar calar a voz de uma mulher.”, completou a senadora maranhense.

Também na primeira semana de CPI, o senador Ciro Nogueira interrompeu e impediu Gama de terminar seus questionamentos. Na semana seguinte, foi a vez das senadoras Kátia Abreu (PP-TO) e Leila Barros (PSB-DF): o parlamentar Marcos Rogério (DEM-RO) pediu que se acalmassem para que não ficassem nervosas.

Mais recentemente, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), pediu para que Eliziane Gama parasse de gritar e, em seguida, se retirou da sala enquanto a parlamentar discursava.

Segundo a professora, existe uma patologização atribuída às mulheres que são colocadas naturalmente nesse lugar de passionalidade. A pesquisadora lembra, no entanto, que a realidade evidencia o contrário: “Os homens têm protagonizado na CPI enfrentamentos, elevado o tom e falado coisas de baixo calão que demonstram obviamente que têm pessoas ali que não dão conta de controlar essas emoções e que também não têm nem decoro para estar naquele espaço”.

Para além dos casos já citados, Kubik lembra do embate entre Renan Calheiros (MDB-AL) e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Na ocasião, este último chamou o senador alagoano de “vagabundo”.

Fora da CPI, o comportamento se repete “quando Bolsonaro aglomera, sai sem máscara, faz pouco caso das 450 mil mortes ou quando Mário Frias anda pelo Ministério (da Cultura) armado. Isso é muito violento”, acrescenta a professora.

A diferença é que enquanto esse comportamento masculino é, frequentemente, celebrado e visto como “vigoroso” e “perseverante”, quando a relação envolve uma mulher, essa passa pelo olhar do machismo. “Como a gente está em uma sociedade que existe uma exploração, uma dominação dos homens sobre as mulheres, isso obviamente também acontece na política institucional e em especial nesse lugar que é de disputa de poder”, afirma Kubik.

“Esse comportamento é um padrão na política institucional, porque a política institucional não é considerada um lugar para as mulheres. As mulheres ainda são estranhas a esse espaço, são amplamente minoritárias nesse espaço”, acrescentou a especialista.

A “demonstração mais cabal de que esse não é um espaço feminino”, de acordo com Kubik, é que até 2016 não havia banheiro feminino no plenário do Senado Federal. Naquele ano, dos 81 parlamentares, 12 foram mulheres, cerca de 15% do total. Hoje, após uma eleição de senadores, os números são os mesmos.

Brasil de Fato

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