MST completa 42 anos de resistência, produção e educação no campo brasileiro
Movimento celebra história de luta pela terra em um modelo de desenvolvimento sustentável que une agroecologia e justiça
Nesta quinta-feira (22), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) completa 42 anos. Considerado uma das maiores forças populares do Brasil, o movimento foi fundado oficialmente em 1984, voltado à organização de trabalhadores do campo e à luta pelo devido acesso ao solo, além da produção de alimentos sem veneno e da construção de um projeto popular e sustentável.
Para os militantes Vânia Ferreira e Pablo Neri, o movimento e seu legado são essenciais na construção de uma visão comprometida com a dignidade humana.
“O MST me proporcionou essa visão de mundo nos intercâmbios, nas trocas de experiências, nas vivências, nos encontros. O MST é meu maior educador, meu maior professor, minha maior escola”, diz Ferreira, dirigente nacional histórica do MST pelo Maranhão e, este ano, pré-candidata à Assembleia Legislativa do estado.
Pablo Neri, que também concorrerá em 2026 ao cargo de deputado estadual no Pará, ressalta que a militância não é um evento isolado, mas uma postura permanente diante da existência. Segundo ele, nestes 42 anos, a organização convida a sociedade a adotar valores coerentes.
“Devemos reafirmar que lutar não é uma questão pontual, mas uma posição diante da vida. O movimento convoca a sociedade a se posicionar de forma coerente e comprometida com valores que nos levarão para uma vida melhor e para um estágio de dignidade humana. A convocação do movimento é para lutarmos pela vida que queremos”, disse Neri.
Histórico do movimento
O MST surgiu no final do período de ditadura militar no Brasil, fundado oficialmente a partir do primeiro Encontro Nacional, em Cascavel (PR), de onde saíram três objetivos principais: lutar pela terra, lutar pela reforma agrária e lutar por mudanças sociais no país. Hoje o movimento conta com 450 mil famílias assentadas e outras 100 mil em acampamentos espalhados por 24 estados.
A estratégia de ocupação de terras improdutivas como principal forma de pressão política foi adotada desde o início do movimento camponês, buscando fazer cumprir a função social da terra prevista na Constituição.
Em sua trajetória, enfrentou e enfrenta forte repressão estatal e conflitos violentos no campo, incluindo massacres como o de Eldorado do Carajás (1996), que assassinou 21 camponeses e se tornou símbolo global da luta agrária.
Para o movimento, a disputa pela terra também é tecnológica e ambiental. Ao contrário do agronegócio convencional, que depende de agrotóxicos e sementes modificadas, o modelo defendido pelos sem-terra aposta na agroecologia, na recuperação de solos e no desenvolvimento de máquinas adequadas à escala camponesa, combatendo a lógica das grandes empresas de tecnologia que tentam controlar os dados da natureza.
Um exemplo prático dessa filosofia é a produção de arroz orgânico na região metropolitana de Porto Alegre. Com mais de mil famílias envolvidas, o MST tornou-se o maior produtor desse grão sem veneno em toda a América Latina.
Além disso, quase duas mil associações e centenas de cooperativas e agroindústrias permitem que o MST sustente cadeias produtivas de leite, feijão, café e hortifrutis em larga escala. São 185 cooperativas, 120 agroindústrias, 1900 associações, 450 mil famílias assentadas e 100 mil famílias acampadas, segundo o MST.
O movimento demonstra ainda que sua organização vai muito além da conquista do solo. Uma das frentes paralelas de atuação é a ambiental, com a meta de plantar 100 milhões de árvores, já tendo alcançado a marca de 25 milhões nos últimos anos.
No campo educacional e cultural, há frutos igualmente positivos. O MST construiu duas mil escolas públicas que atendem cerca de 200 mil pessoas e já alfabetizou mais de 100 mil brasileiros.
Através do seu Coletivo de Cultura, o movimento promove festivais que atraem centenas de milhares de visitantes, utilizando a arte para contrapor os valores do agronegócio e difundir o estudo e a cooperação.
Durante a crise sanitária da covid-19, essa rede de solidariedade foi fundamental, com a doação de nove mil toneladas de alimentos e milhões de refeições para famílias em situação de vulnerabilidade urbana.
Nos assentamentos e acampamentos, as famílias organizam-se em núcleos que discutem as necessidades de cada área.
“Nesses núcleos, são escolhidos os coordenadores e as coordenadoras do assentamento ou do acampamento. A mesma estrutura se repete em nível regional, estadual e nacional. Um aspecto importante é que as instâncias de decisão são orientadas para garantir a participação das mulheres, sempre com dois coordenadores/as, um homem e uma mulher. E nas assembleias de acampamentos e assentamentos, todos têm direito ao voto: adultos, jovens, homens e mulheres”, explica o site do movimento.
As comunidades estabelecidas pelo movimento promovem também uma reconfiguração social do espaço geográfico onde se instalam, integrando-se à dinâmica local por meio da implementação de Escolas do Campo e do fortalecimento de saberes populares voltados à saúde.
Editado por: Nathallia Fonseca





