Muito além do petróleo: por que Trump quer submeter a Venezuela aos EUA
Se o ataque à Venezuela é o ensaio para Trump retomar a ideia “da América para os norte-americanos”, os caminhos futuros não estão desenhados
A nova face imperialista dos Estados Unidos (EUA) na América Latina está sintetizada nas 33 páginas da recém-lançada Estratégia de Segurança Nacional. Ao incorporar a retórica do presidente Donald Trump, o documento atualiza a bicentenária Doutrina Monroe – primeira política de Estado a dizer, abertamente, que a América deveria ficar sob o domínio norte-americano.
Trinta dias separam a divulgação do texto pela Casa Branca, em 4 de dezembro passado, e o ataque que resultou no sequestro ilegal do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, no último sábado (3). Não é coincidência.
“A América nunca mais permitirá que potências estrangeiras nos roubem ou ameacem nossa soberania em nosso próprio hemisfério”, disse Trump no sábado, horas depois da captura de Maduro. “Sob nossa nova Estratégia de Segurança Nacional, a dominância norte-americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada.”
“Acesso contínuo”
Um dos eixos da Estratégia de Segurança Nacional lançada por Trump é ampliar a “presença militar global” dos EUA – com foco na América Latina –, “para enfrentar ameaças urgentes em nosso Hemisfério”. Além das cantilenas pouco convincentes sobre controle migratório e combate às drogas, a Casa Branca fala em “estabelecer ou ampliar o acesso em locais de importância estratégica”.
Esta é uma das chaves para entender a ofensiva estadunidense no Mar de Caribe, que culminou no cerco a Maduro. Em termos de localização, a Venezuela sobressai justamente por ser uma das principais conexões entre as Américas do Sul, Central e do Norte, bem como entre o Mar do Caribe e o Oceano Atlântico.
O país sul-americano tem mais de 2.800 quilômetros de costa e diversos portos, como La Guaira e Puerto Cabello. Suas fronteiras privilegiadas – com o Brasil e a Colômbia, por exemplo – ligam o território à Amazônia, à região andina e ao Oceano Pacífico. É um acesso privilegiado a diversas rotas globais críticas. Além do mais, a navegação da Venezuela até a Flórida, na costa norte-americana, dura poucos dias.
“Queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, afirmamos e aplicaremos um ‘corolário Trump’ à Doutrina Monroe”, aponta o documento. “Os Estados Unidos traçarão seu próprio rumo no mundo e determinarão seu próprio destino, livres de interferência externa”.
Petróleo e terras raras
O boicote norte-americano à COP30, realizada em novembro, na cidade de Belém (PA), passa não apenas pelo negacionismo ou pelo desdém ambiental do trumpismo. Na primeira vez que uma Conferência do Clima das Nações Unidas ocorreu na região amazônica, os Estados Unidos não enviaram autoridades “de alto nível” para as negociações climáticas. Além de atender ao lobby da indústria de combustíveis fósseis, Trump deixou ainda mais claro que é contrário ao Fundo Amazônia e que trata a maior floresta tropical do mundo como um empecilho ao desenvolvimento.
Se o presidente estadunidense concretizar a promessa de passar a “governar” a Venezuela, essa visão predatória se estabelecerá sobre suas riquezas naturais, a começar pelo petróleo. É no território venezuelano que se localiza a maior reserva global do produto, estimada em 303 bilhões de barris, bem à frente de Arábia Saudita (267 bilhões), Irã (208 bilhões) e Canadá (159 bilhões).
O país tem igualmente grandes reservas de gás natural (a maior da América Latina), ouro, ferro, bauxita e coltan (um mineral estratégico usado na indústria eletrônica, em aplicações militares e em capacitores). Não bastasse essa diversidade, estudos geológicos recentes indicaram a presença de nióbio, tântalo, ítrio e lantânio em regiões remotas na Serra dos Pardaos, no Escudo das Guianas.
Esses minérios são conhecidos como “terras raras” e servem como base para tecnologias avançadas de inúmeros segmentos industriais – de produtos eletrônicos a mísseis militares, passando por turbinas eólicas e baterias. Ao lado de outros minerais estratégicos, as terras raras ajudaram a fundamentar, em 2016, a criação da Zona de Desenvolvimento Estratégico Nacional no Arco Mineral do Orinoco, com potencial estimado em US$ 2 trilhões.
Embora o Serviço Geológico dos EUA (USGS) não valide os dados oficiais da Venezuela sobre essas descobertas, o governo Trump quer “pagar para ver”. Até o momento, tais riquezas seguem praticamente inexploradas – faltam estradas, redes de energia e outras estruturas que viabilizem sua mineração. A Venezuela tampouco tem expertise nos processos de extração, separação e refino de terras raras, dependendo de parcerias com outros países. Quaisquer passos adiante demandam investimentos bilionários.
Por tudo isso, ao tentar subordinar a Venezuela à sua Estratégia de Segurança Nacional, Trump olha o petróleo como uma questão central, mas não absoluta. Há mais interesses em jogo.
O que dizem as petrolíferas dos EUA
Mesmo com um quinto das reservas mundiais de petróleo em seu solo, a Venezuela enfrenta limitações. Seu óleo é do tipo pesado e ácido, o que torna a extração e o refino mais complexos, encarecendo demais os custos. A situação é agravada por fatores conjunturais. Os ataques e as sanções à Venezuela nos últimos anos, somados ao fim do “boom de commodities”, afetaram a produção local, que despencou à metade. De 3 milhões de barris por dia registrados em 1999, a cifra caiu a 1,5 milhão em 2024.
Nesse período, o “fator China” ganhou força. É para o país asiático que a Venezuela exporta hoje 80% de seu petróleo – eram 68% em 2023. Como quase 90% das receitas venezuelanas de exportação se devem ao petróleo, os chineses se tornaram aliados estratégicos da Venezuela.
No sábado, Trump afirmou que os EUA farão o petróleo venezuelano “fluir”, elevando a produção com o apoio das gigantes norte-americanas. “Vamos levar nossas grandes empresas petrolíferas – as maiores do mundo – para investir bilhões de dólares, consertar a infraestrutura destruída e voltar a gerar riqueza para o país”, disse Trump.
Reportagem da Bloomberg mostra que a retórica trumpista é irrealista. Embora tenha prometido até que as companhias serão “reembolsadas”, a expectativa do setor está distante do paraíso. “Um esforço desse tipo para reconstruir a indústria do petróleo seria praticamente sem precedentes, e Trump deixou muitas questões cruciais sem resposta”, diz a Bloomberg. “Não está claro quão dispostas gigantes do setor como Exxon Mobil, Chevron, ConocoPhillips e outras estariam a investir somas substanciais em um país governado por uma administração temporária apoiada pelos EUA, sem regras legais e fiscais consolidadas.”
Conforme a reportagem, “além dos desembolsos bilionários por anos, os baixos preços do petróleo são outro fator de desestímulo para as companhias, segundo especialistas, sobretudo pelo nível de investimento que pode ser necessário. As próprias empresas já comunicaram essas preocupações a autoridades do governo Trump”.
Se o ataque à Venezuela é o ensaio para Trump retomar a ideia “da América para os norte-americanos”, os caminhos futuros não estão desenhados. Investimentos empresariais se tornam mais escassos quando não há segurança jurídica nem estabilidade política. Ainda assim, o imperialismo conquistou trunfos na Venezuela e já começam a ameaçar a Colômbia. As garras dos EUA querem petróleo – e muito mais.





