Na ONU, Lula defende a soberania e sobe o tom contra o imperialismo

Na abertura da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), o presidente Lula fez um discurso histórico. Em sua fala — a décima na abertura da Assembleia Geral, desde 2003 — denunciou de forma contundente as interferências imperialistas no Brasil e em outras nações, e defendeu a democracia e a soberania dos povos.

Sem citar o presidente estadunidense nominalmente, Lula resumiu sua posição numa frase que pode ser considerada a síntese do discurso: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A afirmação, aplaudida pela plateia, partiu da constatação de que a proximidade geográfica entre a América Latina e o que chamou de “maior potência militar do mundo” tem produzido, em suas palavras, tentações hegemônicas recorrentes na região.

No que qualificou como “concessões a lei do mais forte”, o presidente criticou a postura inerte da ONU frente as guerras e aos investimentos na corrida armamentista. “Somos chamados a optar entre multilateralismo ou unilateralismo; democracia ou extremismo; soberania ou subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de objetivos. Isso é o que se espera de um Estadista.”

O presidente tratou diretamente da ingerência em processos eleitorais. Ao descrever o momento latino-americano, disse que a democracia está “novamente em xeque” e que o continente voltou a conviver com interferências externas nas urnas, ligando esse fenômeno à disputa por recursos estratégicos e a posturas que classificou como anacrônicas. A crítica não se limitou ao Brasil. Lula defendeu também a autodeterminação de Venezuela e Cuba, afirmando que o povo venezuelano tem o direito de decidir seu próprio destino e chamando o embargo americano à ilha cubana de punição coletiva contra dez milhões de pessoas.

Na parte final do discurso, ao tratar das eleições brasileiras, Lula falou ao eleitorado e, de forma indireta, a quem ele descreveu como interessado em associar candidatos brasileiros a agendas estrangeiras. Disse que o país terá um pleito transparente e competitivo, com ampla liberdade de expressão para todos os candidatos, mas alertou que alguns abusam dessa liberdade para se aproximar de interesses contrários ao país.

A frase mais dura veio em seguida. O presidente afirmou que, sob a vigilância de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, o Brasil não permitirá que “inimigos da democracia, internos e externos atentem contra a vontade popular”. A fala foi uma declaração de que a legitimidade do processo eleitoral brasileiro não depende de validação externa.

A soberania voltou ao centro do discurso quando Lula tratou do combate ao crime organizado. Ele recusou qualquer intervenção militar estrangeira em território brasileiro, afirmando que o país não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”. Também afirmou que a cooperação necessária diz respeito ao fluxo internacional de armas e dinheiro que sustenta o crime, não à presença de forças externas. Essa proposta, segundo o presidente, já foi entregue pessoalmente ao governo norteamericano, o que mostra que a resistência retórica não impede o Brasil de buscar canais de negociação direta com Washington.

Por Andressa Schpallir

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