O adeus a Luiz Pinguelli Rosa: um patriota que defendeu e iluminou o Brasil

Professor Emérito da UFRJ, Pinguelli foi presidente da Eletrobrás, lutador contra as privatizações e condutor do programa “Luz Para Todos”, do governo Lula. Ele nos deixou nesta quinta-feira (3)

O professor e físico Luiz Pinguelli Rosa morreu aos 80 anos nesta quinta-feira no Rio de Janeiro. Pinguelli se graduou em física em 1967. Dois anos depois, tornou-se mestre em engenharia nuclear na Coppe. Em 1974, concluiu um doutorado em física na PUC-Rio. Foi professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente da Eletrobrás.

Mais do que um professor, Pinguelli Rosa consagrou-se como um grande patriota e um defensor ardoroso do desenvolvimento soberano do Brasil. Em 9 de abril de 2013 foi-lhe concedido o título de professor emérito pela UFRJ. Primeiramente no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e depois na Coppe, despontou como um dos principais críticos das propostas de privatização dos serviços públicos de energia elétrica.

ORGANIZADOR DE PROGRAMA DE GOVERNO

Junto com Ildo Sauer, Roberto D´Araújo, Joaquim Francisco de Carvalho, Leslie Afranio Terry, Luiz Tadeu Siqueira e João Eduardo Golçalves, Pinguelli publicou em 2003 o livro “A Reconstrução do Setor Elétrico Brasileiro”, que serviu de base para o plano de reconstrução e fortalecimento da Eletrobrás e do sistema elétrico brasileiro após o apagão de FHC no final dos anos 90. A obra foi elaborada como uma proposta de programa energético para o novo governo que assumiria em 2003.

No início do primeiro governo Luís Inácio Lula da Silva, foi nomeado presidente da Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), assumindo o comando da empresa em 14 de janeiro de 2003, em substituição ao engenheiro Altino Ventura Filho. Durante sua gestão, a Eletrobrás instituiu linha de crédito para financiamento e subvenção de projetos no âmbito do Programa Luz para Todos e buscou renegociar contratos com produtores independentes de energia em condições mais favoráveis para empresas do grupo.

Em março de 2004, a Eletrobrás foi retirada do PND pela Lei nº 10.847, que redefiniu o marco regulatório do setor elétrico, juntamente com a Lei nº 10.848, promulgada na mesma ocasião. Pinguelli destacou essa decisão como principal ponto positivo do novo modelo institucional setorial, lamentando, entretanto, a descaracterização da proposta original do governo. Divergindo da então ministra de Minas e Energia, Pinguelli deixou o comando da Eletrobrás em 12 de maio de 2004.

Voltou a lecionar na Coppe em 2004, assumindo em setembro desse ano o cargo de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Em agosto de 2006, iniciou novo mandato como diretor da Coppe.

CONTRA BOLSONARO

Em 2019, tive a oportunidade de participar, junto com professor Ildo Sauer, de um seminário na Coppe, na UFRJ intitulado “Impacto tecnológico da privatização do setor de Energia”. Lá estava Luiz Pinguelli Rosa na mesa, fazendo o que sempre fez: defendendo o Brasil dos ataques, desta vez do desgoverno Bolsonaro. “Isto aqui não é apenas um debate, é um ato de resistência contra o desmonte do setor energético patrocinado por este governo”, disse ele ao iniciar sua participação no evento.

PARA ILDO SAUER, PINGUELLI É INSPIRAÇÃO, EXEMPLO DE COERÊNCIA E DE LUTA

“Pinguelli foi uma grande inspiração para mim como mestre, como cientista e depois como amigo e companheiro de lutas pela transformação do país. Com ele aprendi a encarar com humildade as raras vitórias na luta por um país justo, fraterno e igualitário, e com serenidade as muitas derrotas, e a buscar nelas o estímulo para intensificar os esforços e a luta”, disse Ildo Sauer.

“A trajetória do Professor Luiz Pinguelli Rosa é um marco para a vida brasileira no campo da ciência, tecnologia e para formação de cientistas e de educadores”, prosseguiu Ildo.

“Como cientista engajado, foi um exemplo, pelo rigor na construção da ciência e tecnologia, e uma inspiração permanente pela luta para a sua apropriação em favor da transformação do Brasil num País mais justo, fraterno e igualitário”, acrescentou.

Para o professor Ildo Sauer, Pinguelli “contribuiu para a formulação e implementação de políticas públicas no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, na apropriação sustentável dos recursos naturais, com ênfase, na área da energia, para promover transformação econômica e social do País. Esteve sempre ao lado da defesa do patrimônio público nacional, e, ainda agora, contra a entrega da Eletrobrás”.

“Seu exemplo e inspiração permanecem para acalentar o sonho de uma sociedade fraterna, acolhedora, justa nestes tempos sombrios para luta atual e para as gerações futuras”, destacou Sauer.

FERNANDO SIQUEIRAPINGUELLI FOI UM GRANDE BRASILEIRO

O dirigente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), Fernando Siqueira, falou sobre Pinguelli e a parceria na luta em defesa do Brasil. “O Pinguelli era um grande brasileiro. profundo conhecedor da área de energia, foi presidente da Eletrobrás, diretor da COPPE, onde comandou um grande desenvolvimento de tecnologia”, disse Fernando. “Era competente, sério, além de mostrar com atos e atitudes um grande amor pelo Brasil. Foi um grande parceiro da Aepet na defesa da Petrobrás e da soberania nacional”, completou Siqueira.

UFRJ DECRETOU LUTO DE TRÊS DIAS

A UFRJ decretou luto oficial de três dias pela morte do professor. “Foi com profundo pesar que a Reitoria teve ciência do falecimento do professor emérito Luiz Pinguelli Rosa. A Reitoria declarou luto oficial de três dias pela partida de Pinguelli”, disse, em nota.

“A Reitoria da UFRJ lamenta profundamente a partida de Pinguelli, defensor nato da universidade brasileira e da difusão da ciência e da tecnologia. Seu compromisso por uma universidade de qualidade que transpira pesquisa deixará uma lacuna entre nós e um aprendizado permanente. Transmitimos força aos familiares, amigos e à comunidade acadêmica neste momento de consternação.”

Ao longo da carreira Pinguelli foi também secretário-geral da Sociedade Brasileira de Física (SBF), de 1977 a 1979 e de 1985 a 1987, membro do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), em 1987 e em 1994, do Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC), de 1998 e 2001, e do Conselho Mundial do Pugwash Conferences on Science and World Affairs, de 1999 a 2001. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em junho de 2003.

Segue histórico sobre a vida deste grande brasileiro, extraído do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas.

Luiz Pinguelli Rosa

Luiz Pinguelli Rosa nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 19 de fevereiro de 1942, filho do alfaiate Avilla Rosa e de Dalva Pinguelli Rosa.

Estudou na Escola Rio Grande do Sul e no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, cursando em seguida a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em São Paulo, e a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ). Declarado aspirante-a-oficial em dezembro de 1962, ingressou em seguida no Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro, onde iniciou curso de engenharia elétrica. Entre 1964 e 1965 fez o curso de ciência e tecnologia nucleares da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Bacharel em física pela UFRJ em 1967, desligou-se do Exército no mesmo ano, passando a trabalhar como pesquisador no Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), no Rio de Janeiro. Em 1969 concluiu o curso de mestrado em engenharia nuclear da Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ. No ano seguinte, iniciou carreira docente na Coppe e no Instituto de Física da UFRJ. Entre 1972 e 1974, foi pesquisador no Centro Internacional de Física Teórica, em Trieste, Itália. Em 1974, concluiu o curso de doutorado em física da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.

Em 1975, integrou a comissão especial da Sociedade Brasileira de Física (SBF) que elaborou relatório sobre o processo de transferência de tecnologia previsto no Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, celebrado em junho daquele ano. Em 1976, tornou-se professor titular do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe. Além de cursos para engenheiros da Empresas Nucleares Brasileiras (Nuclebrás), participou de projetos tecnológicos para a usina nuclear de Angra I.

Em junho de 1979, em depoimento à comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado sobre o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, criticou a concepção e a forma de execução do programa nuclear brasileiro, questionando, entre outros pontos, as projeções superestimadas de crescimento do mercado de energia elétrica do país e a subestimação da possibilidade de atendê-lo com fontes não nucleares, em especial a hidreletricidade; os custos das centrais nucleares previstas no acordo; a escolha da tecnologia de enriquecimento de urânio pelo processo de jato centrífugo e dos reatores com água leve pressurizada (PWR); e a possibilidade efetiva de transferência de tecnologia. Criada para verificar denúncias de corrupção no programa nuclear brasileiro, a CPI encerrou suas atividades sem maiores resultados.

Eleito diretor da Coppe em 1986, exerceu o cargo até 1989. Nesse período, participou de estudos de uma comissão da SBF que resultaram na revelação da construção de instalações militares na Serra do Cachimbo (PA) para a realização de testes com artefatos nucleares. A existência dessas instalações com as características típicas de um campo de provas para explosões nucleares foi noticiada em junho de 1986 pelo jornal Folha de S. Paulo, causando grande repercussão. Na época, o governo José Sarney desmentiu categoricamente a denúncia. Posteriormente, o presidente Fernando Collor reconheceria a existência do projeto para fazer uma explosão nuclear subterrânea no local, lacrando o poço de Cachimbo.

Aposentado em 1990, Pinguelli coordenou o Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ até 1993, quando retornou à Coppe por concurso público. Em maio de 1993, juntamente com o sociólogo Herbert de Sousa, conhecido como Betinho, contribuiu para a criação do Comitê de Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida (Coep), posteriormente aberto também à participação de empresas privadas. Professor titular do Programa de Planejamento Energético, voltou a ocupar o cargo de diretor da Coppe entre 1994 e 1997. Foi vice-diretor da Coppe nos anos seguintes, sendo reconduzido ao cargo de diretor da instituição em fevereiro de 2002.

Primeiramente no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e depois na Coppe, despontou como um dos principais críticos das propostas de privatização dos serviços públicos de energia elétrica. Na campanha de Lula de 2002, coordenou a equipe responsável pela elaboração do documento Linhas e diretrizes de ação para o setor elétrico brasileiro, divulgado pelo Instituto Cidadania, do PT.

No início do primeiro governo Luís Inácio Lula da Silva foi nomeado presidente da Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), assumindo o comando da empresa em 14 de janeiro de 2003, em substituição ao engenheiro Altino Ventura Filho. Durante sua gestão, a Eletrobrás instituiu linha de crédito para financiamento e subvenção de projetos no âmbito do Programa Luz para Todos e buscou renegociar contratos com produtores independentes de energia em condições mais favoráveis para empresas do grupo. Defendeu com afinco a retirada da Eletrobrás do Programa Nacional de Desestatização (PND), a redução das metas de superávit primário estabelecidas pelo governo para a estatal e a ampliação de seus investimentos em geração e transmissão. Em março de 2004, a Eletrobrás foi retirada do PND pela Lei nº 10.847, que redefiniu o marco regulatório do setor elétrico, juntamente com a Lei nº 10.848, promulgada na mesma ocasião. Pinguelli destacou essa decisão como principal ponto positivo do novo modelo institucional setorial, lamentando, entretanto, a descaracterização da proposta original do governo.

Deixou o comando da Eletrobrás em 12 de maio de 2004, sendo substituído pelo engenheiro Silas Rondeau Cavalcante Silva, que vinha exercendo o cargo de presidente da Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte). Além das divergências com a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, principal responsável pela formulação do novo modelo institucional do setor elétrico, a saída de Pinguelli foi motivada pela preocupação do governo Lula em fortalecer sua base de apoio no Congresso e as relações com partidos aliados, notadamente o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), mediante a cessão de cargos em empresas estatais.

Voltou a lecionar na Coppe em 2004, assumindo em setembro desse ano o cargo de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Em agosto de 2006, iniciou novo mandato como diretor da Coppe.

Ao longo da carreira foi também secretário-geral da Sociedade Brasileira de Física (SBF), de 1977 a 1979 e de 1985 a 1987, membro do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC), em 1987 e em 1994, do Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC), de 1998 e 2001, e do Conselho Mundial do Pugwash Conferences on Science and World Affairs, de 1999 a 2001. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) em junho de 2003.

Publicou diversos trabalhos científicos em revistas nacionais e estrangeiras. Foi autor, co-autor e organizador de vários livros sobre política energética no Brasil, entre os quais: Energia, tecnologia e desenvolvimento: energia elétrica e nuclear (1978); Energia e crise (1984); A política nuclear e o caminho da bomba atômica (1986); Estado, energia elétrica e meio ambiente: o caso das grandes barragens (1995); A reforma do setor elétrico no Brasil e no mundo: uma visão crítica (1998); A reconstrução do setor elétrico (2003)

Foi casado com a professora Mariza Lomba Pinguelli Rosa, com quem teve dois filhos. Casou-se pela segunda vez com a engenheira Suzana Khan Ribeiro, com quem teve um filho. Seu irmão, Sérgio Rosa, presidiu a Federação Nacional dos Trabalhadores em Processamento de Dados (Fenadados) entre 1991 e 1995 e foi diretor do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), empresa pública vinculada ao Ministério da Fazenda, no período de junho de 2003 a junho de 2006.

Fonte: CPDOC/FGV

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