O Agente Secreto é nosso, é nordeste, é ouro democrático da Bahia!

O Agente Secreto, filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou, no último domingo, 11, em Los Angeles (EUA), o Globo de Ouro em duas categorias. O protagonista baiano, Wagner Moura, levou o prêmio de Melhor Ator de Drama, e o longa foi eleito Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Um duplo golaço do cinema brasileiro.

Qual o peso de ouro dessa bola nordestina na rede cinematográfica rumo ao Oscar? É o peso do direito à cultura respeitado: revoluciona, faz emergir talentos do anonimato, transforma trajetórias e projeta o Brasil no mundo.

Ambientado no Recife da década de 1970, com destaque para os conflitos de 1977, o filme não apenas expõe feridas abertas do período ditatorial, que ainda sangram, mas também evidencia a cultura como direito fundamental. Valoriza a arte como respiro solar da verdade, capaz de recompor e preservar a história, além de funcionar como remédio imbatível contra o estado de amnésia e desconhecimento, indicado aos pacientes, de quadros leves aos mais agudos.

No momento da premiação, o artista baiano consagrado traduziu essa percepção em um discurso contundente. Disse Wagner Moura:

“O Agente Secreto é um filme sobre a memória, ou a falta dela, e um trauma geracional. Eu acho que, se o trauma puder ser passado de geração em geração, os valores também podem ser transmitidos. Então, esse prêmio vai para aqueles que estão ali, seguindo seus valores em um momento difícil, para os nossos filhos, para a minha mulher e para todo mundo no Brasil. Viva o Brasil, viva a cultura brasileira.”

A fala lúcida do ator revela um Brasil que se reconhece em O Agente Secreto, capaz de enxergar um passado violento que reverbera no presente e exige resistência para não se repetir no futuro. Embora ancorado nos anos 1970, o filme espelha episódios recentes, como os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos três Poderes foram atacadas e sucateadas.

O enredo também reflete políticas contemporâneas elitistas e segregadoras, como a defesa de escolas cívico-militares em São Paulo pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e medidas privatistas que transferem a gestão de escolas públicas estaduais para o capital.

Lembrar é imperativo. Não para reviver a dor, mas para impedir recorrências. É preciso tratar os traumas nas entranhas; paliativos apenas camuflam os sintomas do mal-estar da civilização, adiam soluções e postergam o amanhã progressista. A cura só é possível com consciência política, (re) visitando os acontecimentos e recusando o silêncio diante das atrocidades. O Agente Secreto faz isso com sagacidade, equilíbrio e exuberância, temperando o drama com doses precisas de humor.

O filme escancara o sofrimento dos anos de chumbo, marcados pela higienização política, quando dissidentes eram perseguidos, torturados e destinados ao cálice da morte. Tudo isso é apresentado com leveza, sarcasmo e bizarrices que, paradoxalmente, mantêm a densidade dramática exigida pelo tema, tornando a obra genial e única na forma de narrar e compor as cenas da memória histórica brasileira, que também são universais.

É impossível não se encantar e rir com o jeito autêntico e espontâneo de Dona Sebastiana, protetora dos refugiados e injustiçados, interpretada pela potiguar Tânia Prado. A atriz iniciou a carreira já na maturidade, aos 72 anos, provando que os sonhos não envelhecem e que a luta é permanente. Um achado de Kleber Mendonça Filho. Dona Tânia começou como figurante em Bacurau e agora desponta como possível indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2026, reforçando a excelência do cinema brasileiro no cenário internacional.

Como não se intrigar com a perna cabeluda — amputada, viva e bélica — que percorre a cidade atacando transeuntes, nocauteando inocentes e jorrando sangue por toda parte? A passagem macabra remete ao célebre conto satírico O Nariz, de Nikolai Gógol, publicado em 1836. Nele, o assessor colegial Kovaliov acorda sem o nariz, que depois é encontrado por um barbeiro dentro de um pão recém-assado. Em seguida, o nariz ganha vida própria, veste-se como funcionário público de alto escalão e chega a ocupar um cargo superior ao de seu antigo dono.

Assim como Gógol utiliza o absurdo para satirizar a burocracia russa e a obsessão por status, aparência e poder, Kleber Mendonça Filho dá corpo e autonomia à perna cabeluda para ridicularizar o autoritarismo, a necropolítica e as estruturas antidemocráticas, manipuladoras e abusivas, capazes de qualquer artifício para se manter no topo da pirâmide social.

Esse elo entre história e contemporaneidade reforça a potência da arte como bálsamo de esperança, que imortaliza caminhos, atravessa as “pedras no meio do caminho”, cuida da saúde mental e aquece o debate neste Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre os cuidados emocionais e psicológicos.

Por tudo isso, pela sensibilidade, pela denúncia das mazelas e por muito mais, O Agente Secreto é joia de altíssimo quilate. Nada tem de discreto: brilha longe, reluzindo brasilidades. Como dizia o poeta maranhense Ferreira Gullar, “a arte existe porque a vida não basta”. E Kleber Mendonça Filho só pôde contar essa história densa e impactante graças às políticas públicas de incentivo à produção audiovisual, graças ao Brasil-sertão-mundo que aposta no cinema nacional e acredita na cultura como alimento da vida, indispensável na cesta básica.

O Agente Secreto é nosso, é nordeste, é ouro democrático da Bahia.

Não vai virar besouro: é tesouro do Brasil verde-anil. Aquarela. Que orgulho!

 Por Romênia Mariani

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