“O salário-mínimo é um farol de dignidade”, afirma Adriana Marcolino em entrevista à Contee

Há instituições que atravessam o tempo como trincheiras de conhecimento a serviço da classe trabalhadora. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) é uma delas. Em seus corredores, os números nunca caminharam sozinhos: sempre estiveram acompanhados de histórias, lutas e projetos de país.

É nesse ambiente que atua a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese. Com trajetória iniciada na entidade em 1998, ela articula pesquisa, formação e ação sindical, sempre em diálogo com as demandas concretas da classe trabalhadora.

Nos últimos anos, esteve vinculada ao Fórum das Centrais Sindicais, contribuindo para a elaboração de plataformas e pautas unitárias nacionais e para o fortalecimento da unidade sindical.

Em entrevista à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), Adriana reflete sobre um direito que atravessa gerações e estrutura a vida de mais de 62 milhões de brasileiros: os 90 anos do salário-mínimo.

 

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O salário-mínimo: farol de dignidade

Para Adriana Marcolino, falar do salário-mínimo é tratar de um dos pilares mais simbólicos da proteção social no país. “O salário-mínimo estabelece uma referência nacional. Ele traça uma linha no chão”, afirma. “É um piso de dignidade, abaixo do qual nenhum trabalhador ou trabalhadora deveria estar.”

Previsto na Constituição para trabalhadores urbanos e rurais, independentemente do vínculo, o mínimo vai além do mercado formal. “Mesmo num país com alta informalidade, ele funciona como farol para toda a estrutura salarial”, destaca.

Dados das pesquisas domiciliares mostram que os reajustes impactam tanto trabalhadores com carteira assinada quanto informais, além de pressionarem positivamente os pisos das categorias próximas ao mínimo. “Se o Brasil não tivesse o salário-mínimo, com a estrutura histórica de desenvolvimento que temos, veríamos um contingente ainda maior de pessoas recebendo abaixo desse piso”, explica.

O salário diante do custo da sobrevivência

 

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Segundo cálculos do Dieese, para cumprir plenamente sua função constitucional, o valor deveria estar hoje em torno de R$ 7 mil. “Hoje, o salário-mínimo não cobre o custo real da vida. Ele não garante sequer a alimentação de uma família inteira”, alerta.

Em São Paulo, a cesta básica já ultrapassa os R$ 845. Em Campina Grande, gira em torno de R$ 782 — valor suficiente apenas para alimentar uma pessoa por mês. “As famílias são obrigadas a fazer escolhas difíceis, reduzir proteínas, legumes e verduras, porque muitas vezes esses alimentos se tornam inacessíveis”, observa.

Adriana argumenta que defender o mínimo é reconhecer sua centralidade histórica. “Ao longo desses 90 anos, o que vemos é uma disputa permanente pela renda no Brasil”, afirma. “Talvez seja o direito trabalhista mais simbólico dessa disputa entre capital e trabalho, porque não é setorial. É nacional.”

Ela lembra que, em diferentes períodos, setores do mercado financeiro resistiram à valorização do mínimo sob o argumento de impactos macroeconômicos. “Mas a história mostra que o salário-mínimo sempre esteve no centro da luta por justiça social”, destaca. “Ele é instrumento de proteção, de desenvolvimento e de projeto de país.”

 

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Memória, pesquisa e resistência em forma de livro

Como parte das reflexões sobre os 90 anos do salário-mínimo, Adriana Marcolino comenta sobre coletânea que está sendo organizada pelo Dieese e pelo Ministério do Trabalho e Emprego. A obra reúne 18 artigos, abordando diferentes temas relacionados ao salário-mínimo articulando economia, política, história e relações sociais.

O livro recupera o percurso histórico do salário-mínimo no Brasil a partir de pesquisa em arquivos e documentos da época, evidenciando como esse direito sempre esteve no centro das disputas entre capital e trabalho. A publicação será disponibilizada em breve em formato digital (PDF) e também contará com uma tiragem impressa inicial, estimada em cerca de 2 mil exemplares, avaliados pelo Ministério do Trabalho e Emprego como suficientes para o primeiro momento de distribuição.

Um dos períodos mais emblemáticos analisados na obra é o da ditadura civil-militar, marcado por forte arrocho salarial. Segundo Adriana, naquele contexto, a repressão política caminhou lado a lado com uma política macroeconômica deliberada de contenção dos salários e de retirada de direitos. “Havia violência política para coibir os movimentos sociais, populares e os partidos progressistas, mas também um objetivo econômico claro das elites”, explica.

Foi durante a ditadura que o salário-mínimo passou por um dos processos mais intensos de desvalorização. A crise dos anos 1980 aprofundou esse quadro, e apenas na segunda metade da década de 1990 o mínimo voltou a ter algum reajuste real. Já nos últimos 20 anos, observa Adriana, o salário-mínimo praticamente dobrou seu valor real, refletindo períodos de maior valorização do trabalho no país.

Valorizar o mínimo move a economia

Ao revisitar os arquivos históricos, o livro também revela a persistência de posicionamentos contrários à valorização do salário-mínimo ao longo das décadas. Durante a ditadura, assim como hoje, o discurso dominante era de que reajustes provocariam inflação. Em 1940, quando o salário-mínimo foi criado, os jornais já estampavam previsões de demissões em massa, aumento da informalidade e quebra de empresas.

“Essa disputa atravessa toda a história dos 90 anos do salário-mínimo”, afirma Adriana. E os dados concretos mostram que as catástrofes anunciadas não se confirmam. Nos períodos de valorização do mínimo, não houve explosão inflacionária, nem aumento significativo do desemprego ou da informalidade.

Ao contrário, o salário-mínimo se mostra um instrumento poderoso de dinamização da economia. Estimativa do Dieese sobre o reajuste previsto para 2026 aponta um incremento de R$ 81,7 bilhões na renda circulando na economia. Como a maior parte dos trabalhadores não realiza poupança, esse recurso é imediatamente direcionado ao consumo, impulsionando o comércio, fortalecendo pequenos negócios e melhorando as condições de vida da população.

Além de ampliar o acesso à alimentação e à segurança alimentar, a valorização do salário-mínimo gera efeitos positivos em cadeia. “Quando olhamos para os momentos concretos em que houve política de valorização do salário-mínimo, o Brasil experimentou ganhos econômicos e sociais”, destaca Adriana. Assim, mais do que um custo, o mínimo se posiciona como um investimento no desenvolvimento e na justiça social.

Juros altos, freio baixo para o desenvolvimento

 

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Ao analisar a atual política monetária, Adriana Marcolino critica a manutenção da taxa básica de juros em patamares elevados, hoje em 15%.

Para ela, o país segue preso a um modelo que utiliza quase exclusivamente a elevação dos juros como instrumento de controle da inflação, ignorando seus impactos sociais e produtivos. “É uma política que aposta na retração da economia como forma de controle inflacionário”, afirma. “Ela reduz investimentos, freia o crescimento e aumenta o desemprego para conter salários e consumo.”

De acordo Adriana, trata-se de uma estratégia que transfere sistematicamente os custos do ajuste para a população trabalhadora. “Na prática, é um modelo que amplia o desemprego e precariza a vida de pessoas que já consomem o mínimo para sobreviver”, avalia. “Desconsidera dimensões básicas como segurança alimentar e bem-estar.”

Para a diretora técnica do Dieese, o Brasil dispõe de outros instrumentos para enfrentar a inflação, especialmente por meio do fortalecimento da produção, da ampliação do abastecimento e da melhoria das cadeias de logística e distribuição. “Quando esse ciclo de alta dos juros começou, não havia gargalos relevantes de oferta”, lembra. “Havia capacidade ociosa na indústria e espaço para atender a demanda.”

Ela destaca ainda que os dados do PIB indicavam investimentos na ampliação da capacidade produtiva, movimento que acabou sendo interrompido pela política monetária restritiva. “Os juros elevados frearam investimentos, comprometeram a geração de empregos de qualidade e afetaram a renda”, observa.

Banco Central e o distanciamento do projeto eleito

Adriana também critica a autonomia do Banco Central, que, em sua avaliação, aprofunda o distanciamento entre a política monetária e o projeto de desenvolvimento definido nas urnas. “Estamos falando de uma política central para o desenvolvimento econômico e social, mas dissociada de um governo eleito com mandato popular”, pontua.

Imposto de Renda e justiça social

Para Adriana Marcolino, o debate sobre tributação no Brasil está diretamente vinculado à distribuição da renda e à disputa sobre como a riqueza produzida no país é repartida entre salários, Estado e políticas públicas. Trata-se, segundo ela, de uma dimensão basilar da luta social: quanto fica com a classe trabalhadora por meio do trabalho e quanto retorna à sociedade na forma de direitos, serviços e proteção social.

A socióloga lembra que, a partir da década de 1990, o país passou a adotar uma política sistemática de não reajuste da tabela do Imposto de Renda, sem reposição das perdas inflacionárias. Esse processo fez com que trabalhadores com rendas cada vez menores fossem incorporados à base de contribuintes, aprofundando a injustiça do sistema tributário brasileiro.

Isenção de IR para quem ganha até 5 mil

Nesse contexto, Adriana avalia como extremamente relevante a política de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais. A medida, em sua opinião, recompõe quase integralmente as perdas acumuladas desde 1996 para essa faixa de renda. “Não é pouca coisa. É um passo muito importante”, destaca.

A diretora técnica do Dieese considera a iniciativa uma das políticas mais significativas desde os anos 1990 no campo da distribuição de renda. Embora programas como o Bolsa Família sejam fundamentais no combate à pobreza, ela diferencia políticas de caráter emergencial das medidas estruturais. “A redistribuição de renda é estrutural”, afirma, ressaltando que mudanças no sistema tributário têm impacto duradouro na redução das desigualdades.

Para Adriana, a isenção do Imposto de Renda para salários mais baixos é um marco histórico na disputa pela renda no Brasil. E destaca que, apesar de ser um debate complexo, a sociedade tem demonstrado compreensão e adesão ao tema da justiça tributária. “A população entendeu o que isso significa”, observa.

 

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Duas décadas de valorização, exceto sob Temer e Bolsonaro

Para Adriana Marcolino, a política de valorização do salário-mínimo representa um dos pilares mais importantes para a classe trabalhadora nos últimos 20 anos. Segundo ela, a medida permitiu dobrar o valor real do mínimo em duas décadas, mesmo diante de períodos de recessão, pandemia e interrupções na política.

“Em abril de 2002, durante o último reajuste do governo Fernando Henrique, o salário-mínimo equivalia, em termos reais, a cerca de R$ 810 em valores atuais. Hoje, o mínimo chega a R$ 1.621. Conseguimos dobrar o valor real do salário-mínimo em 20 anos”, sinaliza Adriana.

Ela ressalta que essa conquista não foi linear. Entre avanços e retrocessos, a política de valorização enfrentou golpes de descontinuidade, crises econômicas e desafios sociais. Ainda assim, o resultado é considerado histórico e fundamental para reduzir desigualdades e fortalecer a renda da população trabalhadora.

Adriana defende que é chegado o momento de acelerar essa política. “Se conseguimos dobrar o salário-mínimo em duas décadas, mesmo diante de tantos obstáculos, é possível projetar uma valorização mais consistente e acelerada nos próximos 10 anos, para que o piso nacional alcance, no mínimo, o valor equivalente ao primeiro salário mínimo criado em 1940”, sublinha.

Previdência: dignidade não se desvincula

 

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Na percepção de Adriana Marcolino, desvincular o salário-mínimo de benefícios previdenciários seria um retrocesso gigantesco. “O salário-mínimo ainda não é suficiente para garantir uma vida digna aos trabalhadores. Ele não cobre plenamente saúde, educação, moradia, alimentação e transporte, conforme prevê a Constituição. As pessoas fazem arranjos ao longo do mês para conseguir suprir essas necessidades. Desvincular o mínimo significaria que aposentados e beneficiários da Previdência poderiam viver abaixo do piso necessário — o que não faz sentido”, alerta.

A socióloga ressalta ainda que os efeitos econômicos da política de valorização do salário-mínimo são mais amplos do que se imagina. Parte significativa dos recursos transferidos pelo Estado retorna na forma de arrecadação previdenciária e impostos sobre consumo, gerando impacto positivo no crescimento econômico e no PIB. Nos municípios, por exemplo, o gasto com reajustes do salário-mínimo retorna em maior valor do que o investido, enquanto nos estados há praticamente equilíbrio entre gasto e arrecadação. Para a União, o gasto federal não é integralmente compensado, mas, mesmo assim, a política fortalece a economia local e garante dignidade mínima à população.

Informalidade, insegurança e desigualdade

Adriana alerta que, apesar do salário-mínimo ser um farol para trabalhadores informais, grande parte da população ainda ganha abaixo desse piso. O mercado de trabalho brasileiro permanece heterogêneo e precário, com elevada rotatividade e diversas formas de contratação — terceirização, contratos PJ, MEI, intermitentes, temporários e jornadas parciais — muitas delas agravadas pela reforma trabalhista de 2017.

“Mesmo com taxa de desemprego baixa, há uma sensação constante de insegurança”. Ela esclarece que indicadores nacionais muitas vezes não refletem as desigualdades regionais: em estados do Norte e Nordeste, a informalidade chega a 51%, e mulheres e negros são ainda mais impactados.

Segundo Adriana, é essencial olhar para outros indicadores, como subutilização da força de trabalho, taxa de informalidade e média salarial, que mostram que os avanços ainda são tímidos frente ao crescimento econômico. Para ela, a comunicação do movimento sindical precisa equilibrar a apresentação dos avanços com a conscientização sobre os desafios ainda existentes, especialmente em um ano eleitoral. “Não basta dizer que a taxa de desemprego está baixa. É preciso mostrar o que ainda precisa ser feito e mobilizar a sociedade para impor uma agenda que garanta direitos e justiça social”, conclui.

Dieese em ação: projetos em andamento

Além dos estudos históricos e econômicos, o Dieese prepara pesquisas estratégicas para 2026, voltadas para desafios contemporâneos do mundo do trabalho. Entre elas estão análises sobre pejotização, impactos da inteligência artificial e o que Adriana chama de “nova informalidade”, marcada por trabalhadores de aplicativos e de diversos setores, que diferem significativamente da informalidade registrada em estudos anteriores, como os de 2012 e 2013.

“São pesquisas que visam apoiar o movimento sindical e subsidiar as lutas sociais nos próximos anos, permitindo que o debate sobre direitos e condições de trabalho se baseie em dados concretos e na realidade atual do mercado de trabalho”, afirma Adriana.

Consciência coletiva, organização e unidade

 

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Adriana Marcolino reforça a importância de que todos os profissionais da educação estejam atentos aos debates eleitorais deste ano, tanto na esfera estadual quanto federal. “É fundamental analisar as propostas efetivas dos candidatos e observar o histórico daqueles que já exerceram mandatos. Se não apresentaram políticas que apoiaram a classe trabalhadora ou os profissionais da educação, devemos desconfiar das promessas atuais”, alerta.

Ela lembra que, desde 2023, algumas políticas significativas foram retomadas, e deram um passo significativo para garantir uma vida digna para todos os trabalhadores. “É preciso se apropriar dos debates sobre valorização do salário-mínimo, do piso da educação, das políticas de melhoria das condições de trabalho e da qualificação dos trabalhadores da educação. São medidas que podem efetivamente melhorar a vida e o trabalho da categoria”, explica.

Adriana também enfatiza a necessidade de organização sindical, sobretudo diante das diferentes formas de contratação na rede privada e pública, muitas vezes precárias. “Mais do que nunca é importante estar organizado coletivamente, sindicalmente, e olhar para essas eleições como oportunidade de garantir um programa de governo que avance nos direitos da classe trabalhadora, dando novos passos e conquistas”, conclui.

Edição: Romênia Mariani

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