O significado do ataque do governo Trump a alvos civis e militares da Venezuela
'A intervenção armada, e a reação venezuelana em curso, marcam uma inflexão nas relações internacionais em escala'
O bombardeio aéreo do governo Donald Trump, dos EUA, na madrugada deste 3 de janeiro de 2026, ao território venezuelano, para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores, a fim de forçar pelas armas uma mudança de regime, viola a soberania da América Latina e tem um profundo significado para o Brasil e o mundo. A intervenção armada, e também a reação venezuelana em curso, marcam uma inflexão nas relações internacionais em escala mundial. O governo bolivariano segue de pé.
Antes de tudo, o ataque militar na Venezuela marca uma nova etapa da guerra imperialista de intervenção e espoliação da América Latina sob o Corolário Trump. A guerra híbrida que se prolongava há mais de 25 anos culminou nessa madrugada em uma ação militar direta e sem máscaras. Consiste em uma tentativa de derrubar o projeto de independência política do povo venezuelano e representa um recado aos demais povos e governos da região de que devem se manter subordinados e dependentes de Washington pela via do terror, do medo, da instabilidade institucional promovida pelos Estados Unidos. Os alvos dos bombardeios explicitam uma tática precisa de atingir a unidade cívico-militar, principal base de sustentação do governo bolivariano.
O objetivo estratégico não está oculto. O establishment estadunidense quer atingir dois objetivos com um único movimento. Por um lado, eliminar um governo independente que dá exemplo de resistência ao imperialismo na região para apropriar-se diretamente das riquezas naturais e energéticas venezuelanas, especialmente das maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Por outro, quer impedir que a China, país eleito rival hegemônico, importe esse importante combustível e fonte de energia para o desenvolvimento, sendo que o país asiático é o destino de 80% das exportações venezuelanas.
Vejamos como a tática dos bombardeios desse dia 3 de janeiro revelam a estratégia estadunidense. Alguns dos locais foram o Forte Tiúna e a base aérea de La Carlota, o Comando-Geral da Milícia Bolivariana (ao lado do Quartel da Montanha) e o Porto de La Guaira. Esses lugares representam uma mensagem muito clara: atingir simultaneamente as bases de sustentação civil e militar do governo bolivariano da Venezuela e afetar, indiretamente, a China.
Em primeiro lugar os alvos das Forças Armadas. Os bombardeios atingiram o Forte Tiúna e a Base Aérea de La Carlota. O Forte Tiúna, principal e mais importante instalação militar da Venezuela, localizado em Caracas, sede do Ministério da Defesa, do Comando Estratégico Operacional da Força Armada, da Academia e a Universidade Militar Bolivariana, o Batalhão Ayala, a Corte Marcial e os tribunais militares. Atacar esse alvo significa que os EUA ativaram um plano para derrubar o principal centro de decisão militar estratégica do governo venezuelano. A Base Aérea de La Carlota, localizada no coração de Caracas, é um aeroporto militar e centro logístico de comando para operações para a proteção da Capital do país. É ponto de entrada e saída de equipamentos e tropas para a defesa do centro político, sendo também importante instalação de defesa da Capital. Com isso, os ataques vulnerabilizam duas das principais instalações militares da capital venezuelana.
Em segundo lugar, o Comando Geral da Milícia Bolivariana é a sede da resistência civil armada. Responsável pela defesa territorial em união cívico-militar, mobilizando a população civil em apoio às FAN regulares. A Milícia bolivariana tem mais de 4 milhões de alistados, podendo esse contingente ser duplicado, com formação em técnicas de guerra assimétrica. Sua sede fica a poucos metros do Quartel da Montanha, ou Quartel do 4F, lugar histórico para a Revolução Bolivariana. Foi de lá que Hugo Chávez liderou uma rebelião contra o neoliberalismo, em 4 de fevereiro de 1992.
Localizado no seio da mais tradicional e uma das mais populosas comunidades ou favelas caraquenhas, o complexo 23 de Janeiro, é o local que abriga os restos mortais do líder Hugo Chávez. Com vista frontal, está posicionado a menos de dois quilômetros do centro do poder político nacional venezuelano, o Palácio Presidencial de Miraflores. Esse lugar é um dos principais espaços simbólicos da resistência do povo venezuelano e também um dos pilares de sustentação popular ao governo bolivariano, abrigando população trabalhadora da Capital. Junto com os militares leais, os civis populares reverteram o golpe de estado consumado em 11 de abril de 2002.
Finalmente, em terceiro lugar destaco o bombardeio do Porto de La Guaira, distante apenas 31 quilômetros da Capital e localizado nas adjacências do principal aeroporto do país, o Aeroporto Internacional de Maiquetía. La Guaira não é o principal porto de exportação de petróleo. Sua função principal é abastecer com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados a capital venezuelana. Bombardear o Porto de La Guaira significa um recrudescimento ao bloqueio comercial e neutralização de uma fonte de abastecimento da Capital do país, que concentra o poder político, militar e social venezuelano. É um sinal que preparam condições para um asfixiamento posterior e prolongado, dando continuidade ao bloqueio e cerco que já estava em vigor, mas com maior violência.
Em pesquisas anteriores encontrei evidências históricas de que o governo bolivariano da Venezuela tem como pilar fundamental a unidade cívico-militar, representada sobretudo pelo subproletariado urbano e pelos militares bolivarianos. O ataque militar estadunidense desta madrugada atinge o coração das forças mais fundamentais de sustentação tanto civis quanto militares do governo venezuelano. É, portanto, uma tentativa armada aberta de derrubada do regime bolivariano. Mas o governo não caiu. Segue com apoio interno e externo. O presidente Maduro e sua esposa, Cília Flores, foram sequestrados e estão a caminho dos EUA. Segundo o general Dan Caine, chefe do Estado Maior estadunidense, estão sendo levados de navio para serem “julgados” por “narcoterrorismo” nos EUA, um crime não tipificado no Direito Internacional e uma flagrante ilegalidade, além de um ato brutal e imoral de violação de direitos humanos e da soberania venezuelana.
Resistência de militares e do povo
A reação e resistência venezuelana também deve ser analisada em seu significado histórico já nessas primeiras horas. Militares leais e o povo estão se mobilizando em todas as partes do país. A liderança da resistência está sendo protagonizada politicamente por uma mulher, a vice-presidenta Delcy Rodríguez, uma mulher socialista. E pelo ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, que lidera as forças militares leais.
A rede Telesur de televisão transmite os manifestos de apoio popular e militar e o pedido das ruas de devolução e regresso de Maduro e Cília ao país. É bom lembrar que o povo venezuelano protagonizou a guerra de independência no início do século 19. Entregou enorme sacrifício à causa da libertação da América e venceu. E derrotou também inúmeras tentativas de golpe de Estado. Porém, um ataque militar desta magnitude é uma novidade em mais de 100 anos de história do país. Essa violência imperialista pode representar uma inflexão histórica em toda a região.
O ataque está provocando um rechaço imediato de governos de diversos países e movimentos sociais ao redor do mundo. Todos repudiando os ataques e denunciando sua ilegalidade, que fere o direito internacional, e são atos brutais e imorais. O presidente Lula, a presidenta Claudia Sheinbaum, do México, e o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, lideram como presidentes de países latino-americanos um forte repúdio, junto com Cuba. O presidente Emmanual Macron declarou que o sequestro do presidente Maduro viola a legislação internacional. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, diz que a violação do direito internacional por parte dos EUA é inaceitável. O MST convocou manifestações de apoio ao povo venezuelano no Brasil. É momento de todos e todas defendermos a soberania do povo venezuelano e rejeitarmos firmemente a intervenção imperialista na América Latina.
* Historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.





