Pesquisa mostra avanço no número de escolas militarizadas
Pesquisador conversa com a Contee
O número de escolas militarizadas cresceu 28,9 vezes de 2014 a 2026 no Brasil. É o que mostra o levantamento do professor Fernando Cássio, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). Em 2014, eram 48 as escolas nesse modelo. Doze anos depois, o país chega a 1.389 unidades – em âmbito estadual e municipal.
É a partir de 2021 que a expansão se intensifica na esfera estadual. Foram de cem a 150 novas escolas que passaram pela transição a cada ano. Entre as municipais, o avanço teve início em 2017.

Em entrevista para o Portal Contee, Fernando Cássio explicou que sua pesquisa busca preencher uma lacuna de dados sobre as escolas militarizadas. “Temos um levantamento melhor até 2019. Mas a militarização aumentou e se diversificou de uma forma que era preciso esforço para um levantamento”, afirmou.
Até então, não se conseguia cruzar a base de dados do Inep (Instituto Nacional de Educação e Pesquisa) e a do Censo Escolar para saber quais escolas se militarizaram. “Sabemos muito pouco sobre o que essas escolas causam no sistema de ensino em relação ao acesso, à infraestrutura e ao financiamento.”
Para o pesquisador, esses dados são estratégicos para que se possa lutar contra o modelo de forma mais eficaz. “Quem defende a militarização afirma que ela melhora as escolas e os resultados das escolas. Mas o que significa isso? Quantas dessas escolas fazem processo seletivo, quantas atendem estudantes com um nível socioeconômico mais alto?”, questiona.
Militarização é pauta eleitoral
Para Cássio, o aumento do número de escolas militarizadas vai além do conservadorismo. “Claro que existe uma identificação com a pauta. Porém, Bahia e Maranhão são estados governados pela esquerda e que tiveram aumentos significativos de militarização”, analisa. Ele explica que, nesses casos, foram os governos estaduais quem militarizaram as escolas municipais com convênios e termos de cooperação.
“Quando você vê a filiação partidária dos prefeitos desses municípios, a maior parte é da direita. Ou seja, a pauta é eleitoral. No Maranhão é tão eleitoral quanto em São Paulo”, afirma.
Para ele, a cooperação com os municípios pode ajudar no resultado das eleições, mas, a médio e longo prazo, traz prejuízos para o campo progressista. “Estamos formando pessoas, gerações futuras, que vão lidar de maneira mais naturalizada com certas coisas que o militarismo escolar prega”, diz o pesquisador.
“O militarismo escolar renaturaliza o que já desnaturalizamos na educação, como o controle dos corpos, o jeito de ser menino ou menina. Isso para não falar do racismo.” Segundo Cássio, a Educação volta “20, 30, 40 anos no tempo como se nada fosse.”
Público selecionado
Cássio identificou que, como tendência, as escolas cívico-militares atendem a um perfil socioeconômico mais alto. “É um tipo de escola seletiva. Na maior parte dos casos as escolas estão em regiões centrais, com um público mais favorecido socialmente. Ela rompe com aquela universalidade que deveria caracterizar o sistema público de ensino.”
Diminuição da violência
O pesquisador afirma que não há relação lógica entre a implantação de escolas militarizadas e a diminuição da violência, apesar de essa ser uma percepção da população de forma geral. “Temos que lidar com isso do ponto de vista da educação. Educar a população para explicar que uma escola mais autoritária do que a forma escolar já é não vai resolver o problema da violência.”
“A militarização também se apoia na violência. Ela instila a violência como forma de sociabilidade, como forma de resolver conflitos. Educar crianças e adolescentes em uma escola militarizada não vai produzir adultos menos violentos.”
Qualidade
Outro senso comum é de que a escola militarizada, com regras mais duras, vai resultar em mais qualidade no ensino. “As pessoas têm a impressão de que a escola no seu tempo era sempre melhor do que a escola de hoje. Tentam resgatar princípios de disciplina, de valores tradicionais e conservadores daquela escola de antes”, explica Cássio.
Para ele, a expectativa não se sustenta. “É uma volta a um passado em que só uma pequena parte da população tinha acesso à escola digna. A escola hoje tem um alcance em termos de acesso à população muito maior, o que vai trazer mais dificuldades. Tentar resgatar esses princípios de disciplina não vai resolver problemas de qualidade.”
Por Andressa Schpallir





