Racismo ambiental e crise climática na zona da mata mineira

As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, deixaram um rastro de devastação. Segundo dados divulgados pela Agência Brasil, com base em informações da Polícia Civil e da Defesa Civil de Minas Gerais, o número de mortos chegou a 65 no município e a 72 em toda a região. Mais de 8,5 mil pessoas estão desabrigadas ou desalojadas. Bairros inteiros foram atingidos por alagamentos e deslizamentos, e inúmeras famílias perderam suas casas e pertences.

Os números evidenciam não apenas a dimensão humana da tragédia, mas o agravamento da crise climática e a persistência de desigualdades estruturais que tornam determinadas populações mais vulneráveis. Fenômenos extremos tornaram-se mais frequentes e intensos. O aumento da temperatura média global altera o regime de chuvas e amplia riscos. No Brasil, porém, seus impactos não são distribuídos de forma igual. As áreas mais atingidas costumam ser territórios ocupados por trabalhadores de baixa renda, historicamente empurrados para encostas e margens de rios.

É nesse contexto que se insere o conceito de racismo ambiental, formulado nos Estados Unidos na década de 1980 pelo sociólogo Robert Bullard. O termo descreve a distribuição desigual dos riscos ambientais, que recaem de maneira desproporcional sobre populações negras e pobres. A degradação ambiental acompanha as linhas históricas da desigualdade social.

Para o geógrafo Miguel Felippe, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora, ouvido pela Agência Brasil, as áreas que concentram maiores perdas humanas e materiais são justamente aquelas ocupadas por populações pobres, que dispõem de menor capacidade de reconstrução após desastres.

Ao analisar o padrão de ocupação urbana, Felippe ressalta: “O discurso de que as pessoas pobres não devem ocupar áreas de risco despreza o elemento mais importante: é o capital imobiliário que define quem vai morar aonde”. A avaliação reforça que a tragédia não pode ser tratada como fatalidade natural, mas como resultado de escolhas estruturais e desigualdades históricas.

No Brasil, essa lógica se repete em enchentes recorrentes, deslizamentos em áreas densamente ocupadas e ausência de saneamento básico. Quando comunidades perdem suas casas, evidencia-se a sobreposição de vulnerabilidades e a falta de políticas públicas integradas de moradia, drenagem urbana e proteção ambiental.

Diante da gravidade da situação, diferentes entidades do movimento sindical e da sociedade civil organizaram ações de solidariedade às vítimas das chuvas. Entre elas está a campanha Juntos por JF, que reúne CTB Minas Gerais, Unegro, UJS, Bloco Tô no Vermelho de Juiz de Fora, UBM, IMDC e Amigos dos Diabéticos de Lavras. A mobilização arrecada água potável, alimentos não perecíveis, cobertores, roupas, itens de higiene e materiais de limpeza, além de receber contribuições via Pix para a compra de insumos essenciais às famílias atingidas.

Também estão em curso iniciativas como a do Coletivo Sindicato Solidário da Contraf-CUT, que organizou campanha de arrecadação para Juiz de Fora e Ubá, mobilizando sindicatos e federações. O Sindicato dos Bancários de Juiz de Fora e Região, em parceria com o Fórum 8M, estruturou coleta de materiais e recursos financeiros. O Serjusmig manifestou apoio público às vítimas e atua na orientação e proteção dos direitos funcionais de servidores afetados.

Conjuntamente, essas ações demonstram que a resposta sindical e social articula solidariedade imediata e organização coletiva, reafirmando o compromisso das entidades com a defesa da vida e da dignidade dos trabalhadores e das comunidades atingidas.

Sindicatos e parceiros têm ampliado a mobilização ao divulgar a campanha entre seus filiados, o que contribuiu para o crescimento das doações. Professoras, professores e trabalhadores da educação também têm participado ativamente da iniciativa. Parte dos recursos arrecadados está sendo destinada à compra de material escolar para as famílias afetadas.

Defender os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores significa atuar nos momentos de crise e, ao mesmo tempo, cobrar e fortalecer políticas públicas estruturantes.

A recorrência de eventos extremos exige respostas permanentes. É necessário articular políticas ambientais, urbanas e educacionais, ampliar investimentos em prevenção, fortalecer a defesa civil e garantir moradia segura e infraestrutura adequada.

As vidas perdidas nesta tragédia não podem ser reduzidas a estatística. Elas exigem responsabilidade pública e ação concreta. A Contee reafirma seu compromisso histórico com a defesa da vida e dos direitos sociais, com a mobilização solidária, com o acompanhamento das políticas emergenciais e com a defesa de medidas estruturais que protejam trabalhadores, comunidades e escolas diante da emergência climática.

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