Sinpro/RS: Professor sofre ameaças em Pelotas por relacionar carne, arroz e efeito estufa

Aula do ensino médio vira polêmica e cancelamento de docente que usou dados científicos em sala de aula

Qualquer pessoa que fizer uma busca rápida no Google sobre as causas do aquecimento global encontrará entre os vários fatores dois que são bem representativos, a pecuária e a agricultura, inclusive, o plantio de arroz em larga escala. E, a partir de fontes confiáveis, o que inclui a própria Empresa Brasileira de Pesquisa em Agropecuária (Embrapa) e o Ministério da Agricultura no atual governo.

Ou seja, trata-se de uma informação científica incontestável, com metas globais e acordos internacionais para redução do efeito estufa e do aquecimento global. O mesmo vale para a questão dos Ciclos da Matéria, que envolve os impactos ambientais nos ciclos da água e do carbono. Entre os impactos está o alto consumo de água na produção de carne e arroz. Fatos conhecidos e reconhecidos em todo o mundo.

Tanto é fato que, atualmente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no âmbito do Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas (Plano ABC – Agricultura de Baixo Carbono) está organizando um levantamento de fatores de emissão de gases de efeito estufa (GEE) provenientes da agricultura brasileira.

A iniciativa, segundo a própria Embrapa, faz parte de uma ação de monitoramento dos avanços do Plano ABC, sob coordenação do Ministério, com o propósito de reunir uma coletânea de dados nacionais, e assim, dar suporte e segurança científica às políticas públicas de fomento para uma agricultura mais sustentável.

Dono da escola bota gasolina na polêmica

Mas, o proprietário e fundador da escola Mário Quintana, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, o professor Carlos Valério, alguns estudantes e pais de alunos da instituição, assim como entidades ligadas ao agronegócio da região pensam diferente.

No domingo, 24 de abril, Valério publicou do jornal Diário Popular, de Pelotas, uma nota endereçada à sociedade pelotense e aos arrozeiros da região, acusando o professor de Biologia de sua escola de ter “cometido um grave equívoco em sala de aula”.

Ele refere-se a uma aula de Biologia ministrada quatro semanas antes pelo professor e biólogo Enrico Blota, 42 anos, para o segundo ano do ensino médio da escola. Dados usados em aula como exemplos foram destacados do contexto e acabaram em linchamento moral e profissional nas redes sociais, e resultaram em ameaças ao docente.

Professor tem experiência de mais de duas décadas

Enrico Blota leciona este mesmo conteúdo há 22 anos. Tratava-se de aula preparatória para as provas do Programa de Avaliação da Vida Escolar (Pave), que serve de vestibular para acesso à Universidade Federal de Pelotas (Ufpel).

“Usei um exemplo em aula de que para um quilo de carne chegar à nossa mesa está envolvido como um todo, desde a produção até a chegada, o consumo 15 mil litros de água. Este dado é facilmente encontrado no Google. É científico e de domínio corrente”, conta o professor.

“Então, eu disse que o que estaria ao meu alcance como cidadão comum para amenizar este efeito seria reduzir o consumo destes itens. Nunca falei em boicotar carne e arroz nem contra a produção desses itens. Falei de mim. Eu próprio sou consumidor de carne e de arroz, apenas não como todos os dias da semana. Faço variações. Uma questão muito simples”, contextualiza .

“Na aula seguinte, onze minutos depois, aí sim sobre efeito estufa, usei o exemplo da flatulência do gado, que libera gases que contribuem para o efeito estufa. Quem fotografou o quadro com ambas as informações fez uma miscelânea de dados em uma foto”, explica.

“Mas nenhuma está errada, porque igualmente ao impacto com o ciclo da água, a pecuária e os arrozais emitem gases do efeito estufa. Fotografaram essas três informações: água na carne, gases da agropecuária e redução do consumo de carne e arroz e jogaram na internet como se fosse uma militância contra o agronegócio”, afirma o docente.

Politização de dados científicos

A origem teria sido um/uma estudante cuja família é ligada ao sindicato rural da região que enviou as fotos para o pai, o que teria gerado comoção entre produtores rurais que procuraram o dono da escola.

Há áudios que circularam em grupos de WhatsApp que defendem, inclusive, o uso de violência.

Além disso, o professor alega que foi ridicularizado publicamente sem que ninguém da escola o defendesse na mesma medida em que foi exposto e que uma questão sem maior importância ganhou um viés ideológico nas redes sociais, que não houve na sua aula.

“Eu não participo de movimentos, não tenho partido, nem faço qualquer tipo de militância. Meu negócio é ciência, apenas”, desabafou Enrico, que também atua em cursos pré-vestibular em Caxias, onde reside.

Sindicato saiu em defesa do docente

O professor Enrico Blota levou a denúncia ao Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro/RS), que imediatamente buscou a direção da escola.

“Tão logo o Sindicato tomou conhecimento das postagens da instituição e de internautas, iniciou contato com o professor. O profissional foi acolhido pela equipe multidisciplinar do Sinpro/RS e demonstrou estar abalado e com medo das ameaças que passou a sofrer”, relata Erlon Schuler, da direção do Sinpro/RS. Hoje, os diretores sindicais conversaram com a escola, que se mostrou reticente em reparar o dano por meio de algum comunicado”, relata

Segundo o sindicalista, o professor está em tratamento médico e não sabe quando terá condições de retornar à escola. Informação confirmada pelo docente ao Extra Classe.

“A intromissão de pessoas alheias ao campo da educação no fazer pedagógico, justificada pelo simples fato de serem pagantes das escolas, de uma forma ideológica, raivosa e desprovida de reflexão crítica, tem contaminado a saúde psicológica dos professores”, pontua o dirigente sindical. “Isso somado a ameaças e exposição nas redes sociais. O que leva ao sofrimento desses profissionais, que acabam não encontrando nas suas próprias escolas a defesa de que precisam”.

Este não é o primeiro caso ocorrido este ano. Em março, um comentário que criticava o desperdício de água por latifundiários, postado no perfil pessoal em uma rede social pelo professor Ronan Moura Franco, do Colégio Marista Sant’ana, de Uruguaiana, virou pretexto para uma campanha de ódio, difamação e ameaças protagonizada nas redes sociais por pessoas ligadas ao agronegócio, muitas delas alheias à comunidade escolar. A escola cedeu à pressão e demitiu o professor.

Direção não se posiciona

Na segunda-feira, 25, as postagens da escola que criticavam a aula e ao professor foram deletadas das mídias oficiais da instituição, depois que muitos internautas questionaram a postura do colégio. Em declaração ao jornal Diário Popular, o diretor geral da escola Mario Quintana, Kauê Valério, argumentou que a nota não era assinada pela direção da escola, mas por seu fundador e que ainda não tinha uma posição sobre o caso.

O Extra Classe entrou em contato com a escola nesta terça-feira, 26, mas até o final da tarde não houve retorno da direção da escola sobre seu posicionamento sobre o ocorrido.

Do jornal Extra Classe

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