Tempos de (in)verdades individuais

Por Adércia Bezerra Hostin dos Santos* e José Isaías Venera**

Quando a rainha do samba Dona Ivone Lara, em parceria com Délcio Carvalho, compôs o samba “A minha verdade”, de 1976, ela, na verdade, era “fruto de tanta maldade que já conhecia”. Era a forma de expressão da vida que resistia aos discursos e às práticas dominantes em um país que se via e se vê ainda atormentado pelo machismo e racismo estruturais. Aí reside uma das riquezas do samba enquanto prática de resistência.

Dos anos 70 para cá, dizer a “minha verdade” perdeu seu vínculo com a experiência de vida para se tornar uma das expressões corriqueiras, sendo, hoje, muitas vezes, usada para oprimir, como nos discursos que se acumulam do atual presidente Jair Bolsonaro, de natureza racista, xenofóbica e sexista.

O que significa hoje dizer a “minha verdade”? De programas com reality show a conselhos de YouTubers, corre solto que cada um tem que dizer a sua verdade. Tornar transparente aquilo (assim, indefinido) que constituiria uma espécie de essência do sujeito tornou-se um fetiche, independentemente se o que se tem a dizer é uma palavra de paz, amor, felicidade ou, na contramão, de racismo, xenofobia, sexismo. Transparência é o fetiche do momento.

Da transparência maquínica ao fetiche da transparência

O filósofo Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência, fez um interessante diagnóstico da atualidade: “a exigência de transparência, presente por todo lado, intensifica-se de tal modo que se torna um fetiche e um tema totalizante”. A tese central do autor é a passagem de uma sociedade da negatividade (disciplinar, repressiva) para uma sociedade positiva (controle, gozo).

Han evidencia a transparência pela via do controle da sociedade pelos algoritmos. Poderíamos dizer que a vida digitalizada se constitui de uma planificação capitalista das vidas na medida em que o modo como navegamos na internet está se convertendo em dados, servindo tanto para o controle quanto para a incitação ao consumo. A transparência assim refere-se a uma linguagem maquínica que atravessa as vidas digitais.

Diferentemente dos algoritmos e de seu aprimoramento com o aprendizado de máquinas, já podemos observar um outro efeito, a ilusão da transparência nos modos de constituição do indivíduo, com expressões cada vez mais corriqueiras, mas que de modo geral apontam para uma noção de transparência, como a de que é preciso dizer a “verdade” individual, que definiria uma espécie de essência do sujeito em sacrifício do bem comum.

Na política, dizer a “verdade” hoje tem sentido de transparência, opondo-se aos gestos que conotariam uma certa performance da área, como o de se maquiar, impostar a voz de uma certa maneira e ter controle sobre o que será dito. Lembremos a citação bíblica de Bolsonaro, “Conhecerei a verdade, e a verdade vos libertará”, como se o sagrado lhe conferisse o status de verdadeiro. Ser transparente teria esse sentido de verdadeiro, sem nada a “esconder”. Qualquer gesto de preparação pode ganhar sentido de falsidade, por isso o enquadramento de Bolsonaro comendo pão com leite condensado em uma mesa com farelos ou lavando roupa, como se a aparência de uma vida espontânea fosse a evidência de uma verdade transparente. Só que não esconder nada em um país enraizado no autoritarismo significa tornar explícito o gozo de subjugar o outro, seja por sua cor de pele, seu sexo, sua opção sexual, seu credo de matriz africana, sua classe social etc.

A expressão une-se a uma cadeia de sentidos, como ser sincero, honesto, verdadeiro. Em nome da transparência desse suposto sujeito “verdadeiro”, aquilo que antes era ouvido no set psicanalítico (fale o que vier à sua mente) agora parece ser a regra do jogo, mas sem mediação (ou sem o discurso do analista).

Sem mediação, a sociedade reproduz o autoritarismo. O exemplo máximo disso é o amplo apoio que Jair Bolsonaro alcançou nas eleições de 2018, que o elegeram à presidente da república. A tática adotada parecia ser afrontar ao máximo os direitos humanos; o resultado foi crescer nas pesquisas (sem desconsiderar o golpe jurídico que retirou o ex-presidente Lula da corrida eleitoral). Agora, diante do real da pandemia, quando o limite aparece em ato com recordes diários de mortos por Covid-19, a verdade de Bolsonaro começa a ganhar outros contornos. A transparência não passa de mais uma entre tantas ilusões.

Educação a distância

Dois mitos marcam a educação na pandemia. Primeiro a ilusão de que todos, se quiserem optar, podem ter aula a distância, como se o acesso à internet fosse universal. Segundo é que crianças, adolescentes e jovens, se voltarem as aulas presenciais, estarão protegidas pelos protocolos de segurança. A ideia de transparência robotiza o ser humano, como se demarcar o passo a passo de como proceder fosse automaticamente entendido e cumprido pelos estudantes. Por isso, há mais realidade nos memes da internet de crianças brincando de trocar máscaras do que no discurso sério e transparente dos órgãos oficiais, como o Ministério da Educação.

Dizer a verdade de cada um também está no mesmo princípio de transparência do ensino a distância. Cada aluno pode fazer o seu tempo de estudo, cabendo a ele escolher como, onde e quando estudar. A verdade aqui se confundiria com a liberdade. Não há limite. A relação dele com o conteúdo seria transparente. Ignora-se que a relação com o ensino não se resume à transmissão de conteúdo e que a liberdade não se faz sem a razão que se expressa nos conteúdos escolares. Pelo contrário, o saber precisa vir com a experiência, que muitas vezes ocorre nos diálogos, nos desafios e nas sociabilidades que se formam na escola.

É preciso fazer como Dona Ivone Lara, trazer o cotidiano da vida de forma crítica para o samba, o que no campo da educação tem relação com o que Paulo Freire chama de “desmitologização da realidade”, ou seja, construir um olhar crítico sobre a realidade em que estamos inseridos.

*Adércia Bezerra Hostin dos Santos é presidente do Sindicato dos Professores de Itajaí e Região/SC, coordenadora da Secretaria de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) e membro da diretoria do Fórum Nacional de Educação (FNPE).

**José Isaías Venera é jornalista e professor dos cursos de Comunicação da Univille e Univali, em Santa Catarina.

Da Carta Capital

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