Juros altos sufocam a economia e reforçam a urgência de democratizar a política monetária
Selic nas alturas coloca o Brasil entre os países com os juros reais mais altos do mundo, prejudicando o crescimento da economia e a concessão de crédito às empresas
A manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares elevados — atualmente em torno de 15% ao ano — representa um dos principais entraves ao crescimento econômico, à geração de empregos e ao fortalecimento do setor produtivo brasileiro. Relatórios de entidades representativas da indústria já alertam para os efeitos nefastos dessa política sobre investimentos, produção e renda dos trabalhadores.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil não enfrentava um nível de taxa Selic tão alto desde 2006. A entidade classificou como “injustificada” a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de manter juros elevados, indicando um impacto direto na capacidade de investimento e na competitividade da indústria. Para a CNI, a política atual está “sufocando a economia produtiva”, encarecendo o crédito e pressionando os custos de produção.
Dados oficiais corroboram esse cenário. Enquanto o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) mostra sinais de moderação, a taxa Selic permanece rígida, elevando os juros reais (quando descontada a inflação), índice que tem se aproximado de níveis próximos a 9,5% ao ano — um dos mais altos do mundo. Esse diferencial cria um ambiente em que os empresários preferem manter recursos em aplicações financeiras em vez de financiar projetos produtivos.
Impactos concretos na atividade econômica
O resultado desse quadro é visível nos indicadores de desempenho econômico. Uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro encerrou o ano de 2025 em alta de 2,5%, uma desaceleração em relação ao ano de 2024, quando o PIB cresceu 3,4%. O cenário atual apresenta quedas ou estagnação em segmentos como a indústria de transformação, que voltou a registrar queda na produção. Analistas econômicos vinculam essa desaceleração à pressão da política monetária altamente restritiva.
Para além do crescimento, os juros altos dificultam o acesso ao crédito para micro, pequenas e médias empresas — justamente aquelas que são mais sensíveis ao custo do capital e mais presentes nas cadeias produtivas locais. Isso implica redução de investimentos, menor geração de emprego formal e aumento da vulnerabilidade econômica das famílias trabalhadoras. Afetando a indústria nacional e o comércio como um todo.
Críticas de trabalhadores e setores produtivos
Entidades sindicais e representantes do setor produtivo também têm criticados a manutenção da Selic em níveis tão altos, afirmando que isso prejudica não apenas a economia, mas a vida cotidiana da população.
Segundo líderes da Central das Trabalhadoras e dos Trabalhadores do Brasil (CTB) e de federações patronais, juros elevados jogam a favor de especuladores e do setor financeiro: “A manutenção dos juros no patamar de 15% é nada mais nada menos do que uma aberta sabotagem ao crescimento econômico do país. Nos últimos 12 meses, a derrama dos nossos recursos para quem não produz nada, nenhum prego — ou seja, os banqueiros e agiotas — atingiu o patamar de R$ 1 trilhão”, diz o vice-presidente da CTB, Ubiraci Dantas.
Uma política monetária que ouça a economia real
Como economista e sindicalista, vejo nesse quadro uma evidência clara de que a política monetária brasileira está desconectada da realidade produtiva e das necessidades sociais. Em vez de responder apenas às fórmulas do mercado financeiro e de um “pseudo controle da inflação”, decisões de juros deveriam refletir um projeto econômico nacional orientado ao desenvolvimento sustentável, à criação de empregos de qualidade e à inclusão social.
Nesse sentido, a discussão sobre a democratização do Conselho Monetário Nacional (CMN) e do Copom — ampliando sua composição para incluir representantes do setor produtivo e dos trabalhadores em condição paritária — torna-se ainda mais urgente. A atual política de juros não afeta apenas a inflação: ela molda o futuro do emprego, a capacidade de investimento e a dinamização da economia real.
Um modelo tripartite na formulação da política monetária poderia ajudar a colocar no centro da agenda decisões que equilibrem estabilidade de preços com crescimento, geração de renda e fortalecimento da economia produtiva.
O Brasil não pode mais arcar com juros que penalizam o setor real e beneficiam o setor financeiro enquanto sufocam investimentos, empregos e desenvolvimento.





