Dia Nacional do Livro Infantil
O dia 18 de abril, celebrado como Dia Nacional do Livro Infantil, instituído pela Lei nº 10.402, de 8 de janeiro de 2002, remete ao nascimento de Monteiro Lobato, cuja obra é referência na formação de leitores no Brasil. Ao criar o universo do Sítio do Picapau Amarelo, articula fantasia e referências culturais brasileiras por meio de personagens como Narizinho, Visconde de Sabugosa, Pedrinho, Emília, o Saci e a Cuca, entre outros, contribuindo para uma literatura mais próxima da experiência e do imaginário das crianças brasileiras.
A literatura infantil, nesse sentido, atua como um campo de formação sensível e simbólica, no qual linguagem, imaginação e experiência social se entrelaçam, possibilitando à criança elaborar o mundo à sua volta. Cultivar o encontro com o livro desde cedo significa ampliar repertórios, fortalecer a capacidade crítica e abrir espaço para a invenção de novas formas de ver e de existir.
Essa tradição se consolida em diferentes dimensões da experiência infantil. Ziraldo, em O Menino Maluquinho, constrói uma infância marcada pela imaginação, pelo afeto e pela liberdade. Orígenes Lessa, por sua vez, em obras como Memórias de um Cabo de Vassoura, Memórias de um Fusca e Confissões de um Vira-lata, utiliza a personificação como recurso narrativo, explorando o olhar da criança sobre o cotidiano. Já O Feijão e o Sonho, romance publicado originalmente em 1938 e posteriormente incorporado à Coleção Vaga-Lume, apresenta uma reflexão sobre os conflitos entre a vida prática e o desejo de criação. Trata-se de uma obra que, embora não tenha sido escrita originalmente para crianças, encontrou nas novas gerações um público duradouro e fiel.
Não podemos deixar de citar a presença feminina na literatura infantil brasileira. Ana Maria Machado, em Menina Bonita do Laço de Fita, aborda identidade e diversidade com delicadeza e potência simbólica, enquanto em Bisa Bia, Bisa Bel constrói uma reflexão sobre memória e formação subjetiva. Ruth Rocha, por sua vez, em Marcelo, Marmelo, Martelo e O Reizinho Mandão, articula linguagem e crítica social, estimulando a autonomia e o pensamento crítico desde a infância.
A literatura infantil também dialoga com a poesia. “Balada do Rei das Sereias”, de Manuel Bandeira, é um exemplo precioso: escrita com forte teor alegórico e crítico, a composição chegou ao universo escolar infantil e foi musicalizada por Dorival Caymmi, tornando-se uma experiência estética marcante para gerações de leitores. Sua musicalidade e força imagética mostram como a grande poesia pode habitar, com naturalidade, o universo das crianças.
Ao lado desses nomes, a produção contemporânea amplia os horizontes da literatura infantil brasileira. Daniel Munduruku, em Histórias que Eu Vivi e Gosto de Contar, valoriza as narrativas indígenas e a pluralidade cultural do país. Kiusam de Oliveira, em O Mundo no Black Power de Tayó, trabalha identidade, pertencimento e autoestima. Emicida, em Amoras, apresenta uma narrativa sensível sobre identidade, afeto e representatividade. Já Mauricio de Sousa, com o universo da Turma da Mônica, constrói há décadas um dos mais importantes projetos de formação de leitores no país, articulando linguagem acessível, humor e temas do cotidiano infantil.
Também se destacam Roger Mello, com obras como Vizinho, Vizinha e Moça Tecelã; Eva Furnari, criadora do universo visual e poético de Bruxinha e Truks e Odilon Moraes, cujas narrativas visuais exploram, de forma inventiva, as relações entre texto, imagem e experiência da infância.
Essa produção evidencia que a literatura infantil é um campo vivo, em constante transformação, capaz de incorporar temas contemporâneos sem abrir mão da imaginação e do jogo simbólico.
Celebrar o Dia Nacional do Livro Infantil é reconhecer a importância dessas obras na formação cultural e educacional. Para a CONTEE, entidade comprometida com a defesa da educação e de seus trabalhadores, incentivar o acesso ao livro desde a infância é também cuidar das possibilidades de desenvolvimento humano. O livro infantil contribui, assim, para a constituição de sujeitos críticos, sensíveis e capazes de ler o mundo e de reinventá-lo.
Por Antônia Rangel




