Exportação de petróleo do Brasil para a China dispara com guerra no Irã e bate recorde no primeiro trimestre
Vendas brasileiras de óleo bruto ao mercado chinês somam US$ 7,2 bilhões entre janeiro e março, enquanto China amplia busca por segurança energética
As exportações de petróleo do Brasil para a China mais do que dobraram no primeiro trimestre de 2026, em um movimento impulsionado pela reconfiguração do mercado global de energia após o início da guerra no Irã. Dados do governo federal compilados pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, mostram que as vendas brasileiras de petróleo bruto ao país asiático atingiram US$ 7,2 bilhões no período, um recorde histórico para os três primeiros meses do ano.
Na comparação com o primeiro trimestre de 2025, quando as exportações haviam somado US$ 3,7 bilhões, o crescimento foi expressivo. Em volume, o avanço foi de 122%, saindo de 7,4 mil toneladas para 16,5 mil toneladas. Com isso, o petróleo passou a responder por 30% de tudo o que o Brasil exportou para a China entre janeiro e março, uma alta de 11,2 pontos percentuais em relação ao mesmo intervalo do ano passado.
A mudança reflete um contexto geopolítico delicado. Como a China recebe quase 40% do petróleo que passa pelo estreito de Hormuz, a instabilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio obrigou o país a reforçar sua estratégia de diversificação de fornecedores. Nesse cenário, o Brasil aparece como alternativa natural, especialmente devido à forte presença já consolidada da Petrobras no mercado chinês.
De acordo com Aldren Vernersbach, economista-chefe do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), o avanço das exportações brasileiras está diretamente ligado a essa busca chinesa por maior previsibilidade no abastecimento. “Esse movimento está relacionado à busca por maior segurança energética por parte da China. O cenário atual de conflito no Oriente Médio e instabilidade no estreito de Hormuz torna a implementação dessa estratégia ainda mais relevante e urgente”, afirmou Vernersbach.
Até o início da guerra, cerca de metade das importações chinesas de petróleo vinha do Oriente Médio. A escalada do conflito elevou o peso estratégico de fornecedores considerados mais estáveis, como o Brasil. O impacto disso já se refletiu na pauta comercial: no trimestre, a China respondeu por 57% das exportações brasileiras de petróleo e, apenas em março, mês em que a guerra começou, essa participação subiu para 65%.
China amplia dependência do petróleo brasileiro
Os números mostram que o petróleo se consolidou como o principal motor da corrente exportadora brasileira para a China no início de 2026. Em um momento de instabilidade internacional, o produto ganhou ainda mais centralidade na relação bilateral, reforçando o peso da indústria extrativa no comércio entre os dois países.
Ao todo, as exportações brasileiras para a China cresceram 21,7% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025, alcançando US$ 23,9 bilhões. Trata-se da maior cifra já registrada para o acumulado de janeiro a março em toda a série histórica. Desse total, a indústria extrativa respondeu por 49% das vendas externas do Brasil ao mercado chinês, uma elevação de oito pontos percentuais em relação ao ano anterior.
Além do petróleo bruto, a expansão das exportações brasileiras também foi puxada por outros produtos ligados à cadeia de commodities e minerais estratégicos. As vendas de ferroligas à China praticamente dobraram e chegaram ao recorde de US$ 478 milhões. Segundo o levantamento do CEBC, 63% desse total corresponderam a ferronióbio e 29% a ferroníquel, dois itens associados à cadeia de minerais críticos.
Esse desempenho confirma que a relação comercial entre Brasil e China continua fortemente ancorada em setores primários e estratégicos, especialmente em um ambiente internacional marcado por disputas energéticas, industriais e tecnológicas.
Índia também amplia compras de petróleo brasileiro
O redirecionamento dos fluxos globais de energia não beneficiou apenas as exportações para a China. As vendas de petróleo brasileiro para a Índia também avançaram de forma significativa no primeiro trimestre de 2026.
De acordo com os dados compilados pelo CEBC, os embarques para portos indianos totalizaram US$ 1 bilhão, com crescimento de 78% em relação ao mesmo período do ano passado. No caso indiano, a alta vem ocorrendo de forma gradual nos últimos meses.
No quarto trimestre de 2025, por exemplo, a Índia absorveu 12% do volume exportado pela Petrobras, enquanto os países europeus, então o segundo maior mercado, ficaram com 13%. O avanço indiano ocorre em meio ao acordo firmado entre o governo da Índia e Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, para reduzir as compras de petróleo da Rússia.
Esse rearranjo reforça a posição do Brasil como fornecedor relevante em um mercado internacional cada vez mais condicionado por guerras, sanções, alianças estratégicas e disputas de influência entre grandes potências.
Carne bovina e ferroligas também impulsionam exportações
A expansão do comércio com a China no primeiro trimestre não se limitou ao petróleo. O CEBC também identificou crescimento expressivo em outros segmentos da pauta exportadora brasileira, com destaque para a carne bovina e as ferroligas.
As exportações de carne bovina para o mercado chinês cresceram 33,8% em valor na comparação com o primeiro trimestre de 2025, somando US$ 1,8 bilhão. O montante representa a máxima histórica para os três primeiros meses do ano.
Segundo o conselho, esse movimento foi influenciado pela salvaguarda chinesa contra a carne bovina, que levou exportadores brasileiros a anteciparem embarques para aproveitar a quota disponível. Ou seja, houve uma corrida comercial para garantir espaço no mercado antes de eventuais restrições mais severas.
Já no caso das ferroligas, o desempenho recorde confirma o interesse chinês por insumos fundamentais à indústria e à transição tecnológica, ampliando ainda mais a relevância da pauta mineral brasileira nas exportações ao país asiático.
Importações da China recuam, mas carros eletrificados avançam
Do lado das importações brasileiras vindas da China, o primeiro trimestre mostrou queda de 6%, com total de US$ 17,9 bilhões. Ainda assim, alguns segmentos registraram forte expansão, especialmente os ligados à eletromobilidade.
O principal destaque foi a compra de veículos eletrificados, incluindo híbridos plug-in e modelos 100% elétricos. Esse fluxo comercial cresceu cerca de 7,5 vezes na comparação entre os primeiros trimestres de 2026 e 2025, alcançando US$ 1,23 bilhão. Com isso, esses veículos passaram a representar 6% das importações brasileiras com origem na China.
Segundo o CEBC, a alta foi impulsionada, em parte, pela estratégia de importadores de antecipar embarques antes do aumento gradual das tarifas sobre veículos eletrificados. As alíquotas devem subir para 35% em julho deste ano. Atualmente, estão em 28% para híbridos plug-in e 25% para veículos elétricos.
Outro item de destaque foram as baterias recarregáveis de lítio. As importações cresceram 49% em volume, chegando a 8,1 mil toneladas, e 37% em valor, somando US$ 160 milhões.
Apesar da queda nominal no total importado, o conselho ressalta que a base de comparação de 2025 foi excepcionalmente elevada. Naquele período, as importações brasileiras da China haviam atingido o recorde de US$ 19 bilhões, infladas pela compra de um navio-plataforma para exploração de petróleo. Sem considerar essa operação atípica, as importações brasileiras originárias da China teriam crescido 9,3% no primeiro trimestre de 2026.
Comércio bilateral ganha novo desenho em meio à turbulência global
Os dados do primeiro trimestre indicam que a relação comercial entre Brasil e China entrou em uma nova fase, fortemente marcada pela geopolítica da energia e pela reorganização das cadeias globais de suprimento. O petróleo assumiu protagonismo inédito, enquanto outros setores, como carne bovina, minerais críticos, veículos eletrificados e baterias, ajudam a desenhar uma pauta cada vez mais estratégica.
No centro desse processo está a tentativa chinesa de reduzir vulnerabilidades externas diante da instabilidade no Oriente Médio, especialmente no estreito de Hormuz, uma rota vital para seu abastecimento energético. Para o Brasil, o movimento abre espaço para ampliar receitas, consolidar mercados e fortalecer sua posição como fornecedor relevante em áreas sensíveis da economia global.
Ao mesmo tempo, os números deixam evidente o grau de concentração do comércio bilateral em produtos primários e industriais estratégicos, o que recoloca no debate a necessidade de agregar mais valor à pauta exportadora brasileira e de aproveitar a parceria com a China para impulsionar uma estratégia de desenvolvimento mais sofisticada.





