A voz da Amazônia na Academia Brasileira de Letras

A dica cultural desta semana celebra a posse de Milton Hatoum na Academia Brasileira de Letras. Nascido em Manaus, filho de imigrantes libaneses, Hatoum construiu ao longo de décadas uma obra singular, aquela que transforma a experiência local em tema universal e faz do Rio Amazonas um espelho para questões profundamente humanas. Esse reconhecimento é, por isso, a validação de uma perspectiva literária que veio das margens geográficas do país e que sempre falou do seu centro.
A escrita de Hatoum é conhecida pela delicadeza com que trata afetos e silêncios da vida cotidiana, mas também pela contundência com que revela feridas da formação brasileira: desigualdades persistentes, tensões entre tradição e modernidade, o peso do exílio, mesmo quando ele é interno. Sua entrada na ABL amplia a presença de vozes da região Norte em uma instituição historicamente marcada pela produção dos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste.
Entre seus romances mais conhecidos, Dois Irmãos é talvez o mais preciso exemplo do que faz de Hatoum um importante autor para entender o Brasil. O livro acompanha a história dos gêmeos Omar e Yaqub em uma Manaus marcada por disputas afetivas e políticas, narrada por um personagem que busca reconstruir o passado a partir de fragmentos e memórias incertas. A obra foi adaptada como minissérie pela Globo em 2017 e soma mais de 500 mil exemplares vendidos em todo o mundo, consolidando sua relevância no imaginário cultural brasileiro.
Rivalidades familiares, silêncios antigos e expectativas impostas moldam subjetividades e destinos. Mas o que parece íntimo nunca é apenas íntimo. Os conflitos domésticos dialogam com a história maior de um país que ainda aprende a lidar com suas diferenças. Hatoum utiliza a arquitetura da cidade e a passagem do tempo para narrar a decadência e a transformação de uma família e de uma região, expondo camadas de preconceito, privilégio e exclusão.
A narrativa também questiona a veracidade das lembranças e a construção da memória coletiva, o que a torna especialmente relevante para educadores e trabalhadores da cultura que lidam diariamente com a tarefa de transmitir histórias e formar olhares críticos.
A trajetória de Hatoum é marcada por um rigor estético que nunca se rendeu ao regionalismo decorativo. Sua literatura não usa Manaus como pano de fundo exótico, usa a cidade como microcosmo para discutir a condição humana, o pertencimento e a busca por lugar no mundo.
Ao ocupar uma cadeira na mais tradicional instituição literária do país, Hatoum abre espaço, simbólico e concreto, para que outras vozes das periferias geográficas e culturais do Brasil sejam levadas a sério.
Para a Contee, celebrar esse momento é coerente com o compromisso de promover o acesso a obras que estimulem o pensamento crítico e a valorização da diversidade. A literatura de Hatoum honra a complexidade do Brasil, resiste às simplificações e nos convida a navegar pelas águas turvas e fascinantes da nossa própria história.
Referência:
HATOUM, Milton. Dois irmãos. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 272 p.
Por Antônia Rangel





