O futuro que Zema promete: trabalho infantil e austeridade para o povo
Romeu Zema, pré-candidato à presidência pelo Novo, tem prometido aos brasileiros, caso eleito, aplicar no governo federal o que foi seu governo em Minas Gerais: aos amigos do rei, exceções e favores. Aos desconhecidos e inimigos, nada além do que o rigor da lei. Para o pré-candidato, no entanto, desconhecidos e inimigos são o povo. E a lei, essa ele promete endurecer cada vez mais.
Suas falas podem ser consideradas um grande aceno à extrema direita, que sistematicamente ataca programas sociais. Em apenas três dias, Zema se comprometeu a liberar o trabalho infantil, promover cortes no Bolsa Família e acabar com o ganho real das aposentadorias.
As três propostas têm em comum o mesmo alvo: a população mais vulnerável – trabalhadores pobres, idosos e famílias que dependem de proteção social. Foram anunciadas por um herdeiro de um conglomerado centenário, com patrimônio declarado de R$ 129 milhões. Alguém que nunca precisou – e nunca precisará – de Bolsa Família, de ganho real na aposentadoria ou de ter seu filho trabalhando para complementar a renda da casa.
O discurso de “Estado mínimo” desaba, no entanto, diante dos números de seu próprio governo em Minas Gerais (2019-2026). Enquanto prega austeridade para o povo, Zema proporcionou um crescimento explosivo das renúncias fiscais para empresas.
Entre 2019 e o fim de 2026, o estado deixará de arrecadar mais de R$ 120 bilhões em isenções fiscais. Só em 2026, as renúncias atingirão cerca de 20% da receita tributária de Minas – um aumento de mais de 400% desde 2018. As informações, porém, são turvas. O governo se recusa a divulgar a lista das empresas beneficiadas, mantendo os dados em sigilo.
O exemplo mais emblemático envolve a gigante de locação de veículos Localiza, cujos sócios foram financiadores da campanha de Zema. Graças a uma lei aprovada em 2022, as empresas de locação pagam alíquota de apenas 1% de IPVA em Minas, enquanto o cidadão comum paga 4%. No ano seguinte à aprovação, os sócios da Localiza (Salim Mattar, Eugênio Mattar e outros) doaram R$ 5 milhões à campanha de Zema, o equivalente a 29% de tudo o que sua campanha arrecadou naquele ano.
Educação
Ao mesmo tempo em que dava “benefícios e favores aos amigos”, seu governo desmontou políticas públicas e precarizou serviços essenciais, como a Educação. Os cortes de investimento com a adesão do estado ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) levaram a congelamento de salários, atrasos constantes nos pagamentos de servidores e contingenciamento de verbas para manutenção escolar. Zema tentou fechar turmas e escolas, usando como justificativa a “otimização da rede”.
Mais recentemente, em março, o governo de Minas leiloou a gestão administrativa de 95 escolas estaduais para a iniciativa privada por 25 anos, através de uma Parceria Público-Privada (PPP) com o fundo IG4 BTG Pactual Health Infra. Por 25 anos, as escolas estaduais terão a gestão administrativa, manutenção e serviços terceirizados, transferindo a administração para a iniciativa privada. São passos largos rumo à privatização do ensino.
A elaboração das propostas para a Educação do plano de governo de Zema está a cargo de Rossieli Soares, ex-ministro da Educação no governo Temer, e ex-secretário de Educação de Minas Gerais. Rossieli foi exonerado em 28 de abril em meio a denúncias de ausência de licitação, superfaturamento e pagamentos irregulares em contratações da pasta.
Trabalho infantil
Se enquanto governador, Zema “cortou na carne” da população, caso seja eleito presidente o cenário será pior. Em pleno Dia do Trabalhador – data internacional de luta e reflexão sobre direitos trabalhistas – ele defendeu a volta do trabalho infantil no podcast Inteligência Ltda. “A esquerda criou essa noção de que trabalhar prejudica a criança”, disse, prometendo mudar a lei.
O discurso ignora uma realidade brutal: o Brasil tinha 1,65 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos em trabalho infantil em 2024 (IBGE) – 560 mil deles nas piores formas de trabalho, com risco à saúde, à segurança e à dignidade. Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, quase metade (49,2%) trabalhava ao menos 25 horas semanais; 30,3% cumpriam jornada de 40 horas ou mais – equivalente à de um adulto – por uma média de R$ 845 mensais.
Os dados refutam Zema. O trabalho infantil prejudica, sim, e muito. A evasão escolar alcança 40% e o rendimento escolar cai de 10% a 15%. As consequências incluem perpetuação do ciclo da pobreza, exposição à violência e abuso sexual. A criança que trabalha tende a reproduzir o destino de gerações anteriores.
Se Zema se gaba de ter “trabalhado desde cedo” e “contado parafusos”, ele omite um detalhe essencial. Com patrimônio declarado de R$ 129,7 milhões, é herdeiro de um grupo empresarial com 800 estabelecimentos em dez estados. Cresceu em meio a riqueza. Sua carreira foi construída dentro da holding familiar fundada por seu bisavô – não no mercado de trabalho que a maioria conhece.
A experiência de “trabalhar na empresa do pai”, com segurança financeira e herança garantida, não tem nenhuma equivalência com a de uma criança pobre que trabalha por necessidade, em condições precárias, sacrificando a escola para ajudar a família a não passar fome.
Ele nunca precisou de um filho seu trabalhando para completar o orçamento doméstico. Ele não “contou parafusos” para sobreviver – e, enquanto defende flexibilizar a proteção de crianças pobres, seu próprio patrimônio continua crescendo.
A síntese do que Zema propõe para o Brasil já está em prática em Minas Gerais: austeridade para os vulneráveis, generosidade fiscal e sigilo para os amigos do poder. O “rigor da lei” que ele promete nunca se aplicará a seus pares – apenas ao povo. Ao país que quer governar, oferece o mesmo modelo que já testou: um Estado mínimo para a maioria e um Estado inteiramente à disposição de uma minoria privilegiada.
Por Andressa Schpallir





