Centenário de Milton Santos e a leitura crítica do Brasil
Nas grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, entre outras, basta observar uma mesma avenida ao longo de um dia para ver dois mundos convivendo no mesmo asfalto: de um lado, sedes de multinacionais, shoppings e tecnologia de ponta; do outro, entregadores de aplicativo, camelôs e trabalhadores em condições precárias. Milton Santos, que completaria 100 anos em 3 de maio de 2026, já havia nomeado essa divisão décadas atrás, e sua obra segue sendo um importante instrumento para ler o Brasil de hoje.
Geógrafo, professor e pesquisador, Milton Santos colocou no centro de sua análise a relação entre território, técnica, economia e política. Com isso, renovou a Geografia no Brasil e no mundo. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Bahia, em 1926, ele construiu uma trajetória marcada pelo estudo das cidades, da globalização e das formas de desigualdade nos países do Sul Global. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia e doutor em Geografia pela Universidade de Strasbourg, atuou em universidades do Brasil e do exterior, sobretudo após o exílio imposto pela ditadura militar. Em 1994, recebeu o Prêmio Vautrin Lud, o mais importante da Geografia, sendo o primeiro latino-americano a recebê-lo.
Uma das importantes contribuições de Milton Santos foi mostrar que o espaço geográfico não é cenário neutro. Para ele, o espaço é resultado das relações sociais, econômicas e políticas, o que significa que, ao olhar para uma cidade, estamos olhando para escolhas feitas por quem tem poder de decidir onde fica a escola, onde passa a linha de metrô, onde se instalam as favelas. Essa formulação mudou a forma de estudar cidades, territórios e desigualdades. Também permitiu entender que a técnica não é apenas instrumento: ela organiza o tempo e o território, define usos do espaço e amplia ou restringe direitos.
Outro ponto de sua obra que merece destaque é a teoria dos dois circuitos da economia urbana. Milton Santos mostrou que nas cidades convivem um circuito superior, ligado ao capital, à tecnologia e à concentração de recursos, e um circuito inferior, formado por atividades de sobrevivência, pequeno comércio e trabalho precário. Os entregadores de aplicativo que percorrem as mesmas ruas dos executivos das grandes corporações são, hoje, a expressão mais visível dessa divisão. A modernização tecnológica e a exclusão social avançam juntas, no mesmo ritmo, sobre os mesmos territórios.
Sua análise da globalização continua atual. A globalização como fábula é a versão que se vende: a promessa de integração, progresso e acesso universal. A globalização como perversidade é o que se produz de fato: ampliação das desigualdades, concentração de renda e poder em poucos países e poucas empresas, precarização do trabalho. A terceira dimensão, a globalização como possibilidade, é talvez a mais importante para quem lê sua obra hoje. Nela, Milton Santos argumenta que os mesmos fluxos de informação, cultura e pessoas que servem ao capital podem servir a formas de cooperação e solidariedade entre povos.
A obra de Milton Santos também ajuda a pensar a centralidade das pessoas, e não do dinheiro, na vida social. Sua crítica ao capitalismo globalizado expõe como o território é usado para beneficiar uns e excluir muitos. Isso aparece na distribuição desigual de infraestrutura, na segregação urbana, no acesso diferenciado à educação e na precarização do trabalho. Sua leitura também permite entender o racismo estrutural como parte da organização do espaço: não é por acaso que as populações negras são maioria nas regiões com menor acesso a serviços públicos, transporte e oportunidades. O espaço, em Milton Santos, nunca é inocente.
A contribuição de Milton Santos é relevante para as trabalhadoras e trabalhadores da educação privada brasileira. Nas escolas particulares, a modernização tecnológica avança em ritmo acelerado: plataformas de gestão, sistemas de aprendizado, inteligência artificial na sala de aula. Paralelo a isso, porém, as jornadas de trabalho permanecem exaustivas, os direitos se reduzem progressivamente, e os salários não acompanham nem a inflação nem a qualificação exigida.
Essa realidade na educação privada é a globalização como perversidade descrita por Milton Santos: a técnica organiza e intensifica o trabalho, mas o bem-estar de quem ensina fica para trás. O saber vira mercadoria; a professora e o professor viram operadores de tarefas. O território educativo não é neutro e reflete escolhas sobre quem importa. A escola privada funciona como microterritório onde o lucro repousa sobre a precarização silenciosa de quem produz conhecimento.
Na universidade, Milton Santos formou gerações de pesquisadoras e pesquisadores e defendeu a produção de conhecimento comprometida com a realidade brasileira. Sua presença na USP, onde foi professor titular e professor emérito, consolidou uma tradição de pesquisa crítica sobre território, cidade e desenvolvimento que se mantém ativa. Hoje, essa herança aparece em estudos sobre urbanização, cidadania espacial, relações raciais, globalização e políticas públicas, e também fora da academia, em coletivos, movimentos e organizações que usam sua obra para entender e transformar o território em que vivem.
Milton Santos morreu em 2001, mas sua obra permanece atual porque continua oferecendo instrumentos para ler o presente com clareza. O centenário de seu nascimento é uma oportunidade para retomar esse pensamento e fortalecer a luta por um país onde a desigualdade não esteja inscrita no espaço como destino.
Por Antônia Rangel




