Ser mãe é um ato de resistência

O Dia das Mães é, também, uma oportunidade de olhar com mais profundidade para o lugar social da maternidade no Brasil e para as múltiplas formas de cuidado que sustentam a vida cotidiana. Falar sobre mãe é falar de trabalho, de jornada dupla, de desigualdade, de educação dos filhos e filhas, de proteção social e de políticas públicas que ainda não alcançam, como deveriam, a realidade de milhões de mulheres.

Ser mãe, em nosso país, quase nunca é uma experiência vivida em condições ideais. Para muitas mulheres, a maternidade se soma a salários baixos, jornadas exaustivas, ausência de rede de apoio, dificuldade de acesso à saúde e à creche, além da sobrecarga mental que acompanha a responsabilidade de cuidar, prover e acolher.

Os números revelam a extensão dessa realidade. Segundo levantamento da FGV com base em dados da PNAD Contínua do IBGE, 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, um crescimento de 87% em doze anos. Dessas, 53% são mulheres negras, grupo que concentra os maiores índices de informalidade e desemprego. Segundo o Ipea, com base na PNAD Contínua 2022, enquanto os homens dedicam em média cerca de 12 horas semanais a afazeres domésticos e de cuidado, as mulheres ultrapassam 21 horas, quase o dobro. A sociedade celebra a maternidade, mas naturaliza o sacrifício feminino como se fosse destino, e não resultado de uma estrutura profundamente desigual.

No campo da educação, essa reflexão ganha ainda mais força. A escola brasileira, pública ou privada, é sustentada majoritariamente por mulheres. Segundo o Censo Escolar 2023, do Inep, 79,5% dos docentes da educação básica são mulheres, proporção que chega a 96% na educação infantil. Elas ocupam ainda 81,6% dos cargos de direção escolar. Ao mesmo tempo, enfrentam desigualdade salarial dentro da própria categoria: dados do Inep indicam que professores homens ganham, em média, 12% a mais do que suas colegas, diferença explicada, em parte, pela menor presença feminina nas etapas de ensino mais bem remuneradas. Grande parte dessas profissionais são também mães, e conhecem na prática o valor da escola, da merenda, do transporte e da relação entre cuidado e aprendizado.

A maternidade, quando atravessada por políticas públicas consistentes, deixa de ser uma experiência solitária e passa a ser compartilhada socialmente. Creches em tempo integral, licença-maternidade adequada, proteção no ambiente de trabalho, acesso à saúde integral, combate à violência de gênero e valorização do serviço público são medidas que fazem diferença concreta na vida das mulheres. A homenagem verdadeira se faz com compromisso político.

Em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde a tipificação do crime no Código Penal, em 2015, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Pública passou a sistematizar os dados. Oito em cada dez vítimas foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, e 64% dos crimes ocorreram dentro de casa. A violência doméstica não é um problema privado: é uma crise pública que mata e impõe à sociedade um custo humano inaceitável.

É preciso nomear o que ameaça a vida das mulheres brasileiras. O feminicídio é expressão de uma desigualdade estrutural que associa poder, controle e posse às relações afetivas e familiares. Combatê-lo exige políticas públicas, recursos, redes de proteção e uma cultura que não tolere a violência de gênero em nenhuma de suas formas.

Também é preciso reconhecer que há muitas formas de maternar. Mães biológicas, adotivas, avós que assumem a criação dos netos, tias, madrinhas, cuidadoras, tantas mulheres que exercem o cuidado como prática cotidiana de amor, responsabilidade e resistência. Em uma sociedade desigual, cuidar exige força, organização e, muitas vezes, renúncia. Ainda assim, é esse cuidado que mantém comunidades inteiras de pé.

No imaginário social, a mãe é frequentemente associada à abnegação. Mas mães também sonham, estudam, trabalham, militam e constroem projetos coletivos. Quando ocupam sindicatos, escolas, universidades, movimentos sociais e espaços institucionais, mostram que o cuidado não é oposto à luta política, é, ele próprio, um ato político.

Neste Dia das Mães, a homenagem mais justa se traduz em defesa da educação pública, valorização das trabalhadoras da educação, ampliação dos direitos sociais e combate ao feminicídio e a todas as formas de precarização da vida. Honrar as mães é criar condições para que elas possam viver com mais tempo, mais segurança, mais autonomia e mais dignidade.

Por Antônia Rangel

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