PF investiga se dinheiro de Vorcaro custeou Eduardo Bolsonaro nos EUA
Clã Bolsonaro está mais uma vez no centro de investigações sobre origem suspeita de recursos
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) volta a ocupar o centro de uma investigação financeira suspeita. Desta vez, o fio condutor são R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões) transferidos por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. O destino declarado era o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro com o ator Jim Caviezel no papel principal.
A produtora brasileira Go Up Entertainment e o deputado Mário Frias (PL-SP) negam ter recebido qualquer centavo de Vorcaro. Agora, a Polícia Federal abre nova frente e investiga se o dinheiro foi usado, ao menos em parte, para sustentar as despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA.
Os documentos obtidos pelo Intercept Brasil – mensagens de WhatsApp, áudios, comprovantes bancários, tabelas de cronograma de pagamento e e-mails – revelam uma negociação iniciada em dezembro de 2024 que resultou em seis transferências concretas entre fevereiro e maio de 2025. O valor total prometido era de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões). Pelo menos metade desse montante saiu da empresa “Entre Investimentos e Participações”, ligada a Vorcaro, e desembarcou no Havengate Development Fund LP, fundo registrado em Dallas, Texas.
O agente legal do fundo é o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, o mesmo advogado de imigração que atua para Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo aparece nas mensagens como operador da estrutura americana. Um áudio de Flávio Bolsonaro, de 8 de setembro de 2025, mostra o senador cobrando Vorcaro diretamente: “Daniel, eu fico sem graça de ficar te cobrando… mas agora que é a reta final, a gente não pode vacilar. Não pode não honrar com os compromissos aqui. Jim Caviezel, Cyrus Nowrasteh… ia ser muito ruim um calote”.
A investigação da Polícia Federal acrescenta o caso “Dark Horse” a um histórico de transações financeiras suspeitas família Bolsonaro. Entre os episódios mais conhecidos está o esquema das Rachadinhas, ocorrido entre 2018 e 2020, em que relatórios apontaram a suspeita de devolução de salários de assessores via Fabrício Queiroz, com movimentações superiores a R$ 1,2 milhão. Outro ponto de atenção recai sobre a Loja de Chocolates da franquia Kopenhagen, onde, entre 2015 e 2018, foram identificados depósitos fracionados em dinheiro vivo que somaram R$ 2,3 milhões, valores considerados incompatíveis com o faturamento regular. Somam-se a isso as transações de imóveis em espécie, que envolveram a compra de apartamentos com altos volumes de dinheiro vivo, incluindo uma operação única de R$ 638 mil. Além da compra da própria mansão de R$ 5 milhões do senador, no Distrito Federal.
Em todos os casos, a defesa da família sustenta que as relações são privadas e não utilizam recursos públicos. Daniel Vorcaro está preso desde novembro de 2025. As transferências ao filme ocorreram antes da prisão, mas os novos documentos mostram que Flávio manteve contato direto mesmo após as primeiras denúncias contra o banco. A PF, no entanto, investiga se houve desvio de finalidade, caixa dois ou benefício pessoal. Enquanto a investigação avança, o filme “Dark Horse” segue em pós-produção. A produtora e Mário Frias insistem que não têm relação com verba pública. Flávio Bolsonaro diz o mesmo. O dinheiro sujo de Vorcaro, porém, já cruzou o Atlântico e parou no Texas e se parte dele sustenta Eduardo nos EUA – é a pergunta de R$ 61 milhões que a Polícia Federal ainda busca responder.
Os desdobramentos mais recentes, ocorridos nesta quinta-feira, indicam que o enredo desta cinebiografia não terá um final feliz para os envolvidos. Parlamentares articulam a criação de uma CPI para apurar as conexões do Banco Master com Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, relatórios do Coaf revelaram que a empresa de Vorcaro movimentou R$ 139 milhões com firmas suspeitas de ligação com o crime organizado, enquanto a prisão do pai do banqueiro nesta manhã por ocultação de patrimônio aperta o cerco judicial. Para a família Bolsonaro, o que era para ser uma peça de propaganda nas telas de cinema transformou-se em uma prova documental que agora fundamenta novas suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Por Davi Molinari





