Endividamento estudantil e saúde mental: a precarização da educação
A FECAP, Escola de Comércio Álvares Penteado, criou uma pesquisa inédita que gerou o Índice Fecap de Endividamento Universitário Paulista (IFEUP) e mapeia a vulnerabilidade financeira dos estudantes. Os números são expressivos e exigem uma resposta política à altura. Faltas frequentes, cansaço evidente e rendimento em queda compõem um quadro conhecido por quem atua nas instituições privadas de ensino superior. Agora ele tem explicação e números que permitem acompanhá-lo ao longo do tempo.
O Índice Fecap de Endividamento Universitário Paulista (IFEUP), lançado em abril de 2026 e coordenado pelo professor Ahmed Sameer El Khatib, ouviu 3.248 estudantes de instituições públicas e privadas do estado de São Paulo entre janeiro e março deste ano, o resultado: 68,4% dos universitários paulistas possuem alguma dívida ativa. O índice consolidado, medido em uma escala de 0 a 100 com base em cinco dimensões, endividamento direto, liquidez, adimplência, pressão emocional e impacto acadêmico, registrou 63,8 pontos, faixa classificada como de “vulnerabilidade alta”.
A pesquisa revela uma relação inversa evidente entre renda familiar e endividamento estudantil: o problema não se distribui de maneira homogênea; ele pesa sobretudo sobre quem já ingressa no ensino superior com menos recursos. Entre estudantes de famílias com renda de até R$ 3 mil, 77,2% convivem com algum grau de endividamento; na faixa entre R$ 3 mil e R$ 7 mil, o índice cai para 69,8%; entre aqueles cuja renda familiar varia de R$ 7 mil a R$ 15 mil, o percentual diminui para 55,4%; e nas rendas acima de R$ 15 mil, o comprometimento atinge 39,7%, a menor proporção registrada.
A diferença entre a faixa de menor e maior renda é de pontos percentuais. Embora estes dados sejam evidentes, é importante demonstrá-los com rigor científico, conectando a obviedade social da desigualdade com a necessidade de comprovação metodológica. Isso significa que o endividamento é um problema estrutural que replica, dentro da universidade, as desigualdades que existem fora dela. Na capital e na Grande São Paulo, o índice de vulnerabilidade é ainda mais alto: pontos, pressionado pelo custo elevado de moradia, transporte e despesas urbanas.
Embora o IFEUP tenha recorte estadual, o problema é nacional, dados da Serasa apontam que cerca de 35% dos estudantes universitários enfrentam inadimplência com suas instituições de ensino. No financiamento público, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) registra que 6 em cada 10 estudantes com contrato ativo do FIES estão inadimplentes, cenário que motivou o lançamento, em 2026, do Desenrola FIES, programa federal de renegociação de débitos.
O IFEUP inclui entre suas cinco dimensões a “pressão emocional” e o “impacto acadêmico”, reconhecendo que o endividamento não é apenas um fenômeno financeiro. Os dados gerais do índice registram queda de concentração e dificuldade de manter rotinas acadêmicas, evidenciando como a instabilidade econômica compromete a presença e o foco em sala de aula. É grande o impacto na saúde mental: dos estudantes sofrem de ansiedade diretamente vinculada às finanças, e enfrentam o peso do estigma social, sentindo vergonha de sua condição financeira perante colegas e familiares. Esse quadro de vulnerabilidade afeta o repouso essencial para o aprendizado, com dos estudantes perdendo o sono por preocupação com dívidas, o que intensifica os sinais de ansiedade e o esgotamento entre os endividados.
Essa correlação encontra respaldo na literatura científica. Estudos na área de saúde coletiva associam dificuldades econômicas prolongadas a alterações no sono, piora do bem-estar psicológico e comprometimento da memória de trabalho, função cognitiva essencial para o aprendizado. Pesquisas com estudantes de baixa renda identificam níveis mais elevados de sofrimento psíquico nessa população em comparação com estudantes sem restrições financeiras.
A crise financeira estudantil não afeta apenas quem estuda, docentes de instituições privadas convivem diariamente com evasão crescente, instabilidade institucional e sobrecarga de trabalho decorrente da redução de turmas e contratos, muitos acumulam vínculos em mais de uma instituição para compor renda. O sofrimento estudantil e o esgotamento docente são faces de um mesmo contexto estrutural, a precarização da educação.
Esta precarização atinge simultaneamente estudantes e trabalhadoras e trabalhadores da educação, enquanto os estudantes pagam com dívida, abandono de curso, os docentes pagam com salários reduzidos, contratos temporários e ausência de direitos trabalhistas básicos. A transferência de custos para ambos os lados é a engrenagem invisível que move a mercantilização do ensino.
Contra esse inimigo estrutural, o movimento estudantil e o sindicalismo da educação se encontram. A UNE (União Nacional dos Estudantes) e a CONTEE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino) lutam contra a mesma lógica, a que trata a educação como mercadoria, que precariza quem estuda e quem ensina. A campanha da UNE contra a precarização é pauta aliada direta da luta das trabalhadoras e trabalhadores da educação por contratação digna, salário justo e condições de trabalho. Ambas as pautas convergem na exigência de investimento público robusto e regulação efetiva do setor privado.
O Desenrola FIES é uma resposta necessária ao sintoma, mas o IFEUP deixa claro que o problema é anterior à inadimplência, ele começa quando o estudante entra na universidade sem suporte financeiro adequado para permanecer nela. Não por acaso, o cartão de crédito, citado por 46% dos entrevistados como principal fonte de endividamento, tornou-se um substituto precário de política pública, pois quando não há auxílio transporte, bolsa-alimentação ou assistência estudantil suficiente, o crédito rotativo preenche a lacuna e cobra juros por isso.
É exatamente essa a lacuna que a campanha da UNE “Quem Entrou Quer Ficar” busca preencher, reivindicando a ampliação do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) para R$ 2,5 bilhões, garantindo moradia, alimentação, transporte e saúde mental. Esta reivindicação é também uma defesa da contratação digna de docentes, ambas exigem que o Estado invista em educação como direito, não como negócio. Sem assistência estudantil consolidada, o estudante se endivida; sem contratação estável, o docente se precariza.
A campanha da UNE “Educação Não É Mercadoria” sintetiza essa aliança, ao afirmar que a educação não pode ser tratada como bem de consumo, a UNE se conecta diretamente à luta das trabalhadoras e trabalhadores da educação contra a mercantilização que precariza ambos os lados. A regulação do setor privado, com controle de mensalidades e fiscalização rigorosa do Estado, é uma defesa compartilhada, porque impede que a busca por lucro se sobreponha ao direito de estudar e de ensinar. A luta contra a precarização da educação é o elo que une estudantes endividados e docentes sobrecarregados em um mesmo projeto de sociedade, onde a universidade seja, de fato, um espaço de formação de qualidade, com permanência digna e trabalho decente.
Por Antônia Rangel





